RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - A pandemia causada pelo coronavírus, que já provocou mais de cinco mil mortes, apenas no Brasil, não é a primeira a assolar a humanidade.

Exemplar do jornal 'Gazeta de Notícias', de 1918: sentimento de insegurança diante da epidemia de Gripe Espanhola (divulgação/FAPERJ)

Um olhar sobre o passado revela que as epidemias ocorrem em um movimento cíclico, deixando marcas recorrentes na trajetória da civilização. “Antes do coronavírus, a pandemia mais abrangente e grave foi a Gripe Espanhola, de 1918, causada pelo vírus Influenza. Estima-se que pelo menos 50 milhões de pessoas morreram no mundo. Mas muitas outras epidemias são relatadas ao longo da história, como a Praga de Atenas, na Grécia, de 430 a. C, associada à febre tifoide; a Peste Negra, que dizimou entre um terço e metade da população da Europa Ocidental durante a Idade Média, causada pela peste bubônica, transmitida pela pulga dos ratos; a varíola, com relatos de casos desde a época do Antigo Egito, tendo em vista que múmias, como a de Ramsés V, de 1157 a.C, apresentam sinais típicos de varíola; e a cólera, entre tantas outras”, contextualizou o professor Luiz Antonio Teixeira, que é pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

Professor da Pós-Graduação em Saúde da Família da Universidade Estácio de Sá (Unesa), Teixeira lembra que a história das epidemias revela padrões de comportamento humanos, comuns em situações extremas. “O historiador americano Charles Rosenberg, especialista em História da Ciência e da Medicina na Universidade de Harvard, diz que as grandes epidemias são como peças trágicas, com as mesmas estruturas: primeiro, há um grande medo em relação ao surgimento da epidemia; depois, ocorre uma tentativa de mistificá-la, negando a sua existência ou minimizando seu alcance, com o discurso de que a doença não será tão forte; e, finalmente, há a aceitação do problema e a tentativa de resolução”, citou o pesquisador, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pequisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado.

De acordo com o historiador, essas etapas podem ser encontradas em alguns discursos oficiais na pandemia de hoje, que negam a importância da quarentena. "Em janeiro, pensamos que o coronavírus não ia chegar; depois, que a pandemia não seria tão trágica; e, agora, tentamos lidar com a situação. Esse comportamento também é notado durante o estudo da atuação governamental na época da Gripe Espanhola no Brasil. Na época, houve uma demora por parte de setores da administração pública, do empresariado e até da imprensa em admitir a chegada da Gripe no território brasileiro”, resumiu.


Fundado por Arthur Moncorvo Filho, o Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro (Ipai) era dedicado às crianças pobres. Na imagem, o médico em consulta durante a epidemia de Gripe Espanhola (Foto: Acervo COC/Fiocruz)

A Gripe Espanhola no Rio: a praga, a política e os costumes
Em setembro de 1918, jornais cariocas anunciavam que marinheiros brasileiros, participantes de operações da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), haviam sido vitimados pela Gripe no porto de Dacar, capital do Senegal, na África ocidental. No mesmo mês, surgiram os primeiros casos da doença no Brasil. Porém, tanto a imprensa quanto os responsáveis pelos serviços de higiene da época colocavam em dúvida o surgimento da Gripe no País. “A recusa inicial em classificar a gripe como a Influenza, para além de motivos políticos, estava relacionada ao desconhecimento sobre a doença”, relata Teixeira, no artigo Medo e morte: sobre a epidemia de Gripe Espanhola de 1918. Na primeira semana de outubro, a imprensa começou a noticiar casos da Gripe em locais de grande de maior densidade demográfica. Logo, a doença tornou-se nítida em vários setores da sociedade. Segundo o jornal Gazeta de Notícias, de 14 e 15 de outubro daquele ano, “não há em toda cidade estabelecimento comercial, café, bar, botequim que não tenha a maior parte de seus empregados enfermos, sendo de notar que já há estabelecimentos fechados (...). A Light foi forçada a readmitir ex-empregados (...) grevistas”. Já O Correio da Manhã, na mesma data, estampava a seguinte manchete: “A gripe estende os seus tentáculos a todos os cantos da cidade. Dezenas de milhares de enfermos, e os casos novos aparecem de momento a momento”. Por sua vez, o jornal O País, em 16 de outubro, afirmava que só restavam à população “manifestações coletivas e religiosas para pedir a Deus, por intermédio do padroeiro São Sebastião, que nos livre da peste que nos ameaça”.

Tão logo, a capital da República Velha (1889-1930) ganhou contornos de caos. Não havia estrutura, nem caixões suficientes, e os corpos passaram a ser recolhidos pela Polícia, pela falta de pessoal suficiente nos serviços municipais. Muitos eram encontrados abandonados nas ruas e foram enterrados em valas comuns, com a ajuda de presidiários, destacados para suprir o reduzido número de coveiros. O professor Ricardo Augusto dos Santos, que assim como Teixeira é pesquisador na COC/Fiocruz, destaca que a população no Rio em 1918 era de aproximadamente um milhão de habitantes. “Desse total, morreram oficialmente cerca de 15 mil pessoas. Mas é preciso considerar que, como hoje, também existia o fenômeno da subnotificação do número de óbitos. Os médicos da época acreditavam que, ao todo, cerca de 600 mil pessoas ficaram doentes na cidade. Por isso, a quarentena ocorreu de forma inevitável, pois as pessoas, acamadas, não conseguiam trabalhar. Houve ainda uma crise de abastecimento, carestia de alimentos e saques aos armazéns”, explicou. Santos é um dos autores da coletânea Os intelectuais e a cidade – séculos XIX e XX, organizada também por Magali Engel e Maria Letícia Corrêa, e publicada com apoio da FAPERJ, como resultado do programa Cientista do Nosso Estado, concedido a Magali. Ele escreveu o artigo O Carnaval, a Peste e a Espanhola.


Ricardo Santos (à esq.) e Luiz Teixeira destacam a importância de se conhecer a História da Saúde para enfrentar a pandemia hoje (Foto: Divulgação)

O historiador lembrou um fato interessante sobre como a sociedade brasileira lidou com a Gripe Espanhola, e que se repete, de certa forma, no contexto da atual pandemia de coronavírus: a disseminação de informações equivocadas, sem comprovação científica, sobre possibilidades de tratamento e remédios. Santos ressaltou que crendices populares eram noticiadas como se tivessem poder de cura, na imprensa da época. “Nos jornais daquele período, há diversos anúncios de produtos como xaropes e purgantes que supostamente combateriam a Gripe Espanhola. Havia ainda a crença de que alimentos como ovo e galinha, especialmente quando preparados em forma de canja, seria eficazes contra a doença. Esses alimentos até sofreram aumento de preço nos mercados, pela alta demanda. Hoje, nós vemos algumas autoridades recomendando uso de medicamentos de eficácia não comprovada ainda pela ciência para o tratamento da Covid-19”, comparou.

A Gripe Espanhola também resultou em algumas mudanças políticas durante a Primeira República. “O presidente Rodriges Alves, que estava recém-eleito para um segundo mandato, morreu acometido pela Gripe e, em seu lugar, assumiu o vice, Delfim Moreira. Uma eleição fora de época foi convocada após a morte de Alves, em janeiro de 1919, e finalmente Epitácio Pessoa foi eleito como presidente”, recordou.

Outra consequência da Gripe foi a criação de uma política pública nacional voltada para a Saúde. “O Brasil não tinha um Ministério da Saúde ou algum órgão similar. Só depois da epidemia da Gripe Espanhola houve a criação, em janeiro de 1920, do Departamento Nacional de Saúde Pública, que era uma antiga reivindicação dos médicos sanitaristas. Temos que lembrar que os serviços públicos na ocasião eram precários e o saneamento, inexistente”, acrescentou Santos.

A ocorrência da Gripe afetou ainda o coração da cultura carioca. Depois da longa reclusão, o Carnaval de 1919 foi considerado uma grande festividade. “O povo participou intensamente e foi às ruas, com blocos, carros alegóricos e marchas com versos sobre a epidemia. Era como se estivessem comemorando o fato de estarem vivos e o fim de uma longa quarentena. Na época, as pessoas ficaram completamente isoladas em casa. Hoje, pelo menos, temos contato com o mundo exterior pela Internet e as redes sociais”, disse Santos.

Uma curiosidade foi o uso de réplicas de xícaras de chá nos carros alegóricos, pois espalhou-se o boato popular de que os enfermeiros da Santa Casa serviam um chá letal, à meia-noite, para matar os pacientes com Gripe, e, assim, esvaziar mais rápido os leitos do hospital. “Infelizmente, esse medo da falta de infraestrutura hospitalar para receber os pacientes internados ainda está bem vivo nos dias de hoje. E como a história se repete, a Escola de Samba Viradouro anunciou, há poucos dias, que vai apresentar como tema de desfile, em 2021, uma releitura do Carnaval da Gripe Espanhola, de 1919, ano marcado pelo fim da Primeira Grande Guerra e da Gripe”, concluiu.

Fonte: FAPERJ - Débora Motta

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