SÃO PAULO, São Paulo - Poeta que teve relação com o Brasil foi anunciada como a homenageada da próxima edição em evento nesta segunda-feira.


Foto: divulgação

Em julho de 1959, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop escrevia a sua editora italiana: “Estou vivendo no Brasil há quase oito anos, a maior parte do tempo nas montanhas, perto de Petrópolis [RJ]. Volto a Nova York quando posso, mas aqui é meu verdadeiro lar agora”. Usando como justificativa essa relação muito próxima de Bishop com o Brasil, a Festa Literária de Paraty (Flip) anunciou, nesta segunda-feira (26), a poeta como a homenageada da sua edição de 2020, marcada para acontecer entre os dias 29 de julho e 2 de agosto. Ela será a primeira autora estrangeira a ser homenageada pela Festa.
Mauro Munhoz, diretor artístico da Casa Azul, organizadora do evento, disse que é um nome aventado desde sempre pela Flip. Para ele, a escritora cumpre à perfeição a missão originária da homenagem: “fazer a rica experiência da arte brasileira ser melhor reconhecida em qualquer lugar do mundo”.

Em conversa que teve com o PublishNews, Fernanda Diamant, escalada como curadora da 18ª edição do evento, disse que a escolha teve a ver com a qualidade literária de Bishop: “O número de razões é grande. A primeira e mais importante é porque ela é uma grande escritora, uma das principais poetas do Século XX”. Além disso, Fernanda falou da sua relação com o Brasil: Ela viveu no Brasil por quase 20 anos, teve um grande amor no Brasil, escreveu muito sobre o Brasil – não só nos poemas, mas nas cartas que ela escrevia intensamente e pelo olhar que tem momentos de paixão e também de muitas críticas. Acho que pra gente vai ser importante isso”.

No seu discurso, Fernanda falou em ousadia por convidar a primeira estrangeira a ser homenageada pela Festa Literária. “Foi muito bom ter feito a primeira Flip e poder fazer o gesto de ousadia na segunda, porque eu acho que isso me deu um pouco mais de condição de entender o que é a festa, de já ter vivido a experiência, para fazer uma coisa que tem um pouco esse caráter agora”.

Evitando dar spoilers, Fernanda disse que espera que a Flip 2020 seja uma festa compartilhada entre as casas parceiras e que a poesia esteja no centro das discussões.

A entrevista completa estará no próximo Podcast do PublishNews, que vai ao ar na próxima segunda-feira.

A repercussão e as polêmicas
Não tardou para que as polêmicas aparecessem. Pelas redes sociais, circulou uma matéria de 2009 veiculada pela revista piauí, em que Otávio Frias Filho – de quem Diamant é viúva – revelava cartas escritas por Bishop ao poeta norte-americano Robert Lowell. Nelas, a homenageada dizia que o golpe militar de 1964 “foi uma revolução rápida e bonita, debaixo de chuva – tudo terminado em menos de 48 horas”. “A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito, por mais sinistro que pareça", escreveu Elizabeth Bishop a Robert Lowell a propósito do golpe militar de 1964. "De outro modo teria sido uma mera 'deposição', e não uma 'revolução' - muitos homens de Goulart continuariam lá no Congresso, todos os comunistas ricos fugiriam (como alguns fugiram, é claro) e os pobres e ignorantes seriam entregues à sua sorte".

“Lamento muito que nesse momento histórico isso tenha acontecido. Lamentável”, comentou Ricardo Lísias em sua página no Facebook. A editora Simone Paulino (Nós), que ontem comemorava a escolha da poeta, horas depois escreveu: “Ontem eu comemorei a escolha de Bishop - por ser uma poeta, mulher, lésbica, por ter uma relação amorosa (pensava eu) com o Brasil. E como divulguei para alguns, estava pensando em publicar um livro sobre ela que venho namorando há dois anos. Não mais. Não publicarei. Além do fato medonho de descobrir que ela apoiou o Golpe de 64, ao qual chamou de uma ‘revolução bonita’, Elizabeth nutria nos bastidores um desprezo imenso pelos artistas brasileiros. Eu só me pergunto como pude me enganar tanto?”.

Casas Parceiras
Ao longo dos últimos anos, as Casas Parceiras e suas programações ganharam musculatura e se tornaram um chamariz extra para os “flipeiros”. Diante disso, a Casa Azul – responsável pela programação oficial – resolveu convidá-las, pela primeira vez, para um encontro que aconteceu nesta segunda-feira, antes do anúncio oficial da homenageada.

O objetivo da reunião – iniciada por uma sessão de meditação em que uma luz emanada a partir do peito deveria abraçar quem estava do lado, o auditório, a cidade, o país... – era discutir a relação entre Flip e Casas Parceiras, que chegam a desembolsar R$ 5 mil em troca de ter uma flâmula na porta, a marcação no mapa oficial do evento e a sua programação no site.

Na longuíssima sessão – que durou mais de quatro horas, muitas desse tempo gasto com luzes abraçativas –, as Casas Parceiras relataram problemas e fizeram sugestões. No fim, essas questões foram encaminhadas, no entanto, não houve nenhum compromisso por parte da Casa Azul em resolvê-las.

No ano passado, o site apresentou falhas graves e muitas casas não conseguiram subir a sua programação e houve ainda erros na indicação da localização das casas no mapa oficial do evento.

Fonte: Publishnews

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