SÃO PAULO, São Paulo - Cabeças de um lado, corpos de outro, mãos, pés destruídos.


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Essa cena das oito estátuas que foram decepadas por vândalos em uma noite de junho de 2016 passou impune no cotidiano da cidade. São esculturas que ficavam no Jardim da Luz, o primeiro parque público de São Paulo, criado em 1825. Altivas, as estátuas instaladas no século 19 enfeitavam o lago da Cruz de Malta, perto do coreto. Quatro homenageavam divindades da mitologia romana: Ceres, deusa das sementes e do amor materno, Venere ou Vênus, deusa do amor e da beleza, Baco, deus do vinho e das festas, e Adone, conhecido pela beleza e símbolo da vegetação.

Hoje, os fragmentos dessas obras de arte vítimas de uma violência brutal, totalmente inexplicável, voltam para a cidade na instalação Chacina da Luz. Criada pela artista Giselle Beiguelman, está no Solar da Marquesa de Santos, sede do Museu da Cidade de São Paulo. “As estátuas foram destruídas, as cabeças, pés e vários pedaços caíram dentro do lago. Mas foram recolhidas e armazenadas no porão da casa do administrador do parque, pelo próprio DPH, o Departamento do Patrimônio Histórico”, conta Giselle. “Quando me deparei com elas, tive a sensação de ver uma série de corpos mutilados e decepados um ao lado do outro. Dessa visão surgiu o título da instalação, Chacina da Luz, que reproduz exatamente essa cena dantesca.” Giselle, também professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e colunista da Rádio USP, explica que as esculturas são de autoria desconhecida. “Elas representavam as estações Outono, Inverno e Primavera. O conjunto é completado com a obra A Semeadora, que é a única datada do século 20.” Os fragmentos das esculturas estão no chão. O visitante fica impressionado ao se deparar com os pedaços e tentar reconhecer e juntar cabeças, mãos e pés aos devidos corpo. “É exatamente desse jeito que essas estátuas estavam guardadas no porão”, explica Giselle. A diferença é que o público pode testemunhar e questionar a relação da cidade com seu patrimônio histórico e cultural. Quem sabe um ou outro visitante poderá se lembrar dessas esculturas no lago Cruz de Malta do Jardim da Luz, originalmente um jardim botânico que foi transformado em espaço público no século 19. As divas, o lago cercado por palmeiras e pinheiros e a fonte integraram a paisagem dos cartões-postais no século 20.

Em Monumento Nenhum refazemos as pilhas de bases, pedestais e fragmentos de monumentos. Com alguns, ou nenhum vestígio sobre seu passado.”

Oito estátuas depredadas em atos de violência estão na instalação Chacina da Luz (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Monumento Nenhum é a outra instalação de Giselle Beiguelman que desafia o olhar, a imaginação e as recordações do público. Foi instalada no Beco do Pinto, uma passagem movimentada que liga as ruas Roberto Simonsen e Bittencourt Rodrigues. ao lado do Solar da Marquesa. “Nesse trabalho nós refazemos as pilhas de bases, pedestais e fragmentos de monumentos que se encontram no depósito do Departamento do Patrimônio Histórico, localizado no bairro do Canindé”, conta a artista. “Elas foram refeitas também no mesmo estado em que estavam depositadas. Cada uma dessas bases de pedra, cimento, pesa cerca de duas toneladas.” Para o transporte e montagem das peças, Giselle contratou transporte especializado, com guindastes e equipe de segurança.

Desde o dia 4 de maio passado, as pessoas que passam pelo beco se deparam com Monumento Nenhum. A visão é perturbadora, pois a instalação fica no alto da passagem. “Com alguns, ou nenhum vestígio sobre seu passado, esses fragmentos de monumentos se transformaram em enigmáticos totens. Eles nos desafiam a perguntar: de onde vieram? Por que foram desmontados? E, o mais importante: o que sustentavam do ponto de vista material e simbólico?”

Monumento Nenhum, segundo Gabriela Rios, curadora geral do Museu da Cidade, é uma instalação oportuna, montada no lugar certo, pois resgata tanto a história da arte dos monumentos públicos como a história da própria cidade. “O Beco do Pinto era o antigo Beco do Colégio da São Paulo Colonial. Naquela época era uma passagem por onde transitavam pessoas e animais. Ligava o Largo da Sé à várzea do Rio Tamanduateí”, explica.

Ao invés de ser seu objeto, a arte sugere um debate sobre a produção social das estéticas da memória e do esquecimento no espaço público.”

Com as obras Monumento Nenhum e Chacina da Luz, Giselle discute a perda damemória do espaço público e a relação da cidade com o seu patrimônio histórico e cultural. “As duas instalações invertem o lugar da arte no campo das políticas públicas de memória. Ao invés de ser seu objeto, a arte aqui pensa essas políticas, sugerindo um debate sobre a produção social das estéticas da memória e do esquecimento no espaço público.”

O projeto das duas instalações é, segundo a artista e professora, uma continuidade de pesquisas que resultaram na intervenção Memória da Amnésia, realizada no Arquivo Histórico Municipal de 2015 a 2016. Destaca que um dos elementos mais importantes do projeto atual, assim como o anterior, é o fato de ser realizado em parceria com o Departamento do Patrimônio Histórico e o Museu da Cidade de São Paulo. “São projetos que se fazem em diálogo e refletindo sobre as políticas públicas de memória e patrimônio. Não são feitos apenas a partir de autorização de uso das peças e de entrada nos depósitos, mas também a partir do intercâmbio e negociação de pontos de vista e motivações.”

Giselle destaca o caráter interdisciplinar dos trabalhos que desenvolve. “Eles envolvem arquitetos, designers, pesquisa histórica e participação intensiva de membros do Grupo de Pesquisa Estéticas da Memória no Século 21, ligado ao Laboratório para Outros Urbanismos da FAU.”

As instalações Monumento Nenhum, no Beco do Pinto, e Chacina da Luz, no Solar da Marquesa, de Giselle Beiguelman, ficam em cartaz até 1º de setembro de 2019, de terça-feira a domingo, das 10 às 17 horas, na Rua Roberto Simonsen, 135, centro, em São Paulo. Entrada grátis.

Solar da Marquesa de Santos, localizado na região central de São Paulo, é sede do Museu da Cidade de São Paulo (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Fonte: Jornal da USP - Leila Kiyomura

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