RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro inaugurou neste sábado (1º de setembro), a exposição 'Galáxia (s) do Cinema – Máquinas, Engrenagens, Movimentos ou this strange little thing called love', com curadoria de Hernani Heffner, conservador audiovisual e curador assistente da Cinemateca do MAM.

Equipamento de som HAURICON, gravador e amplificador (Foto: Carla Marins)

Pequena viagem interativa pelo mundo do cinema, em suas dimensões amadora e profissional, a partir de equipamentos, maquinismos, peças que de alguma maneira “dão conta da evolução da tecnologia cinematográfica, e também evidenciam a relação com a criação estética do filme”, como observa o curador. A mostra se insere nas comemorações dos 70 anos do MAM Rio, e destaca a relevância da Cinemateca do MAM, uma referência na América Latina. No dia da abertura, 1º de setembro, em razão do evento “Dominó”, a entrada será gratuita. 'Galáxia(s) do Cinema' é dedicada ao pioneiro da preservação da tecnologia de cinema no Brasil, o cineasta e pesquisador Jurandyr Noronha (1916-2015).

Partindo justamente da coleção da Cinemateca do MAM, estimada em mais de duas mil peças, e complementada com um garimpo junto a outras instituições e empresas como a Cinédia, Movedoll e o CTAv, e a colecionadores como Márcio Melges e José Eduardo Zepka, a exposição “foi se delineando como um espelho da cadeia produtiva do setor”. “Segmentando o fazer e o usufruir cinematográficos em áreas como fotografia, montagem e som, a concepção museográfica e cênica distribuiu no 600 metros quadrados do Salão Monumental, cerca de 400 peças”, salienta Hernani Heffner. A exposição também interage com a expansão para outros campos como as artes visuais, a televisão, a publicidade e a web, e suas apropriações.

“Em um país sem museu tecnológico de cinema constituído de forma permanente, a exposição surge como uma rara oportunidade de conhecer o mundo cinematográfico pré-digital, hoje quase que totalmente extinto em termos de práticas e usos, e também as relações ocultas entre esse passado já aparentemente tão distante e realidade dos celulares que filmam”, afirma Hernani Heffner.

Equipamentos históricos
São destaques equipamentos históricos, como a câmara comprada por Adhemar Gonzaga para os estúdios da Cinédia em 1929, utilizada em clássicos com “Ganga bruta” (1933), de Humberto Mauro, e no famoso episódio “Quatro homens e uma jangada”, do inacabado filme brasileiro de Orson Welles, “It’s all true” (1942), a utilizada por Luiz Carlos Barreto em “Terra em transe” (Glauber Rocha, 1967), e a empunhada por Edgar Moura em “Cabra marcado para Morrer” (Eduardo Coutinho, 1984). Outro núcleo que merece atenção é a coleção de equipamentos pertencentes ao diretor de fotografia Dib Lutfi (1936-2016), com suas famosas câmaras Arri e objetivas como a tele de 600mm, usada na Copa do Mundo de 1978.

Peças raras
A exposição também coloca ao alcance do público peças raras e pouco vistas no Brasil como o quase bicentenário daguerreótipo, “câmara/sistema que viabilizou a fotografia”, ou ainda a centenária lanterna mágica, acompanhada de uma coleção única de placas pintadas à mão, entre elas uma “Bela e a fera” completa. Há também peças únicas como a truca Oxberry, de 1,8 tonelada, “cujo modelo apresentado é a única completa e ainda funcionando no país”. O equipamento, responsável pela feitura de créditos, animações, efeitos, trucagens e outros procedimentos de manipulação da imagem, fez mais de 900 filmes brasileiros, de 1977 a 2015.

Cartazes incomuns
A exposição conta ainda com cartazes de filmes em tamanhos incomuns, como os hoje pouco conhecidos seis folhas, ou de origens inusitadas, como o cartaz francês de “Juventude transviada” (1956), o clássico de Nicholas Ray. É possível ainda apreciar a tecnologia amadora, do fim do século 19, com os brinquedos óticos, aos videogames atuais; um conjunto de moviolas (mesas de montagem), entre elas a utilizada no filme “Eu te amo” (1981), de Arnaldo Jabor; projetores de várias bitolas, nacionalidades e mecanismos, incluindo acessórios com carvões e lâmpadas; os famosos gravadores magnéticos Nagra, que revolucionaram o cinema moderno de Glauber Rocha e Jean-Luc Godard (1930), e muitas outras atrações.

Visitas guiadas
Ao longo do período da exposição, será realizada uma série de visitas guiadas com o curador, que fará demonstrações das máquinas para o público.

Hernani Heffner é também professor de cinema, e tem um reconhecido trabalho na área de preservação, junto também a outras instituições, como a Cinédia.

Texto do Curador Hernani Heffner
Qual o estatuto do cinema na vida cotidiana? É um lazer, um “entretenimento”, um instrumento educativo, de informação, de memória, uma arte? Ou um pouco de cada vetor? Costuma-se fracionar um mesmo objeto de muitas formas, a partir de muitas perspectivas e pontos de vista, de acordo com os interesses e aplicações em jogo, resultando daí uma imagem sempre parcial e por vezes artificial, que alimenta as disputas entre os diferentes olhares, os diferentes setores, os diferentes momentos históricos da sociedade. Mesmo assim, das fantasmagorias ao celular e ao VsD, com maior ou menor efeito/eficácia, trata-se sempre de imagens em movimento, associados ou não a uma trilha sonora, caracterizadas pela inscrição em um quadro/moldura, que articula os limites espaciais e temporais, internos e externos, relacionados a uma “ação”/acontecimento, cuja natureza final é ser em princípio imagem/retrato do mundo.

O cinema é ao mesmo tempo uma economia, uma tecnologia, uma forma de expressão, um repositório histórico e um objeto simbólico, proposto e reproposto incessantemente como diálogo e representação em torno dos caminhos e descaminhos dos mesmos grupos, segmentos, setores, classes, coletividades concretas, imaginadas ou virtuais na luta pela afirmação em meio à sociedade. A rigor é um produto do capitalismo industrial ocidental, lançado em fins do século XIX, que soube se adaptar continuamente às mudanças de “gosto” e se capilarizar através de novos artefatos, suportes, formas de comercialização e arranjos técnico-culturais, como a televisão e a internet.

O cinema como fato cultural se multiplica e se segmenta de muitas maneiras, criando usos/distinções/mercados de acordo com as possibilidades tecnológicas e os interesses visados. Mas em qualquer circunstância ele nunca deixa de ser o que é. As apropriações de sua natureza não o transformam significativamente, ainda que pareçam descobrir nele atributos e limitações novos. A “leitura” desses traços particulares pode ser múltipla, e nesta exposição está apenas uma combinatória delas, criada a partir da percepção maquinal imediata do meio e ao mesmo tempo tentando reconstituir a máquina invisível que constrói os derivativos do cinema, em suas passagens do tempo da “linha de montagem” dos grandes estúdios/fábricas do passado para a atual estratégia randômica e on-line de criação compartilhada pelas novas economias e divisões do trabalho.

Houve um tempo em que o mundo do filme, com seus conteúdos, formas, estilos, estéticas e ideologias, não se diferenciava tão substancialmente do mundo real. Não que as diferenças constitutivas de ambas as experiências não fossem percebidas. É que não eram tão importantes assim. O espectador do dia-a-dia considerava as ficções (incluindo as documentais) como relatos do mundo, não muito diferentes daqueles apresentados ao redor do fogo, e não sobre o mundo, algo que com a vertente moderna do cinema passou a chamar a atenção para o relato em si. Com a fetichização contemporânea da tecnologia, o suporte do relato chama mais a atenção do que a visão de mundo a ser apresentada, afinal um iphone é um “Iphone”. Não que não seja possível vivenciar o produto filme como um objeto em si mesmo, um relato em si mesmo, expectativa que temos para o percurso dessa exposição de materialidades e virtualidades cinematográficas. É o que propõe Andrei Tarkovski, procurando um tempo já superado de uma experiência fílmica original. E não esquecemos as dimensões videográfica e digital, pois do seu ponto de vista a televisão já tinha desmistificado e objetificado o cinema, confrontando-o com suas metamorfoses e tornando-o um objeto do passado, um repositório histórico revivido por locadoras físicas (VHSs, DVDs, Blurays) e virtuais (VsD - Vídeo sob demanda).

Poderíamos ter incluído no último grupo os arquivos de filmes, as cinematecas como a Cinemateca do MAM, mas eles não são bibliotecas ou locadoras de filmes. São muito mais do que isso. São uma tentativa de constituir uma memória, do cinema e das sociedades, de rearticulá-la como uma grande narrativa histórica e, mais importante, de repropô-la como uma dimensão em aberto, viva, uma experiência sempre no presente. Nesse sentido, arquivos de filmes coletam o passado e o presente mas são repositórios endereçados ao futuro. Os artefatos reunidos aqui dão conta desse trabalho arquivístico e de sua ambição de ultrapassar o filme e as estruturas que o criam e reencontrar o impulso, as engrenagens profundas, o movimento que articula e rearticula o processo histórico-cultural em que o cinema se insere, a sua Modernidade intrínseca e a Modernidade maior. Como processo ao mesmo tempo tecnológico e artístico, o cinema proporciona inúmeras transduções, explorando o movimento como princípio, energia, rotação, deslocamento, conceito e prática criativa fundamental em sua expressão audiovisual, o que o tornou o principal irradiador de idéias, práticas e sonho do seu tempo, a máquina-utopia benjaminiana por excelência.

Serviço
Exposição 'Galáxia (s) do Cinema – Máquinas, Engrenagens, Movimentos ou this strange little thing called love'
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
[Salão Monumental, segundo andar]
Até 4 de novembro de 2018
De terça a sexta, das 12h às 18h.
Sábado, domingo e feriado, das 11h às 18h.
Ingresso: R$14,00
Estudantes maiores de 12 anos: R$7,00
Maiores de 60 anos: R$7,00
Amigos do MAM e crianças até 12 anos: entrada gratuita
Quartas-feiras a partir das 12h: entrada gratuita
Domingos ingresso família, para até 5 pessoas: R$14,00
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85
Parque do Flamengo – Rio de Janeiro – RJ 20021-140
Telefone: 21. 3883.5600
https://www.facebook.com/museudeartemodernadoriodejaneiro
https://www.instagram.com/mam.rio/

Fonte: divulgação por e-mail

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