RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Como era a vida dos habitantes primitivos que sobreviviam da pesca na costa do estado do Rio de Janeiro, antes da chegada dos colonizadores portugueses?

Mais particularmente, como eram as condições ambientais em que estavam inseridos e qual era a fauna marinha que pescavam? Um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), investigou os primeiros registros das pescarias pré-históricas fluminenses, nas regiões de Saquarema, Cabo Frio e Angra dos Reis. O estudo recebeu apoio da FAPERJ, por meio de um Auxílio à Pesquisa (APQ 1).

O trabalho resultou na publicação, em julho deste ano, de um artigo na renomada revista científica americana PlosOne, intitulado Path towards endangered species: prehistoric fisheries in Southeastern Brazil. “Trata-se da primeira referência documentada e ilustrada das atividades pesqueiras primitivas de toda a costa sul-americana”, destaca o oceanógrafo Orangel Aguilera, professor visitante do Instituto de Biologia da UFF e proponente do projeto contemplado pela FAPERJ. O estudo, que mobilizou uma ampla rede de pesquisadores, foi tema da dissertação de mestrado em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros de Mariana Samôr Lopes, que assina o artigo como primeira autora e foi orientanda de Aguilera na UFF, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O ponto de partida para os estudos foi a análise do material orgânico marinho que hoje integra a coleção zooarqueológica do Museu Nacional. Esse material foi coletado por arqueólogos, entre os anos 1980 e 2000, em sambaquis espalhados por diversos locais do litoral no estado do Rio de Janeiro. De origem tupi guarani, a palavra sambaqui quer dizer “depósito de conchas”. São imensas montanhas, constituídas principalmente por conchas de moluscos, formadas ao longo de milhares de anos pelas populações que habitavam as regiões litorâneas. Essas conchas eram descartadas após o consumo dos moluscos por esses povos, que utilizavam os sambaquis como abrigo e acumulavam ali restos alimentares de peixes e de outros animais da fauna marinha; artefatos de pesca e caça; e até restos mortais de humanos, não raro encontrados atualmente pelos pesquisadores, junto a oferendas funerárias.

Aguilera explica que há mais de dois mil sambaquis espalhados pelo litoral brasileiro, da costa do Rio Grande do Sul ao Pará. “Os povos que viviam nos sambaquis foram os primeiros habitantes do litoral do Brasil, antes da colonização portuguesa, no período há aproximadamente entre 3.000 a.C. e o ano de 700 d.C. Eles não conheciam a cerâmica e não praticavam agricultura. Eram simplesmente coletores”, informa o professor da pós-graduação em Biologia Marinha da UFF. “A geologia da Terra já era igual a de hoje, mas a diferença era o povoamento. Os peixes estavam presentes no ambiente natural. Estima-se que o mar ficava três metros acima do nível atual”, contextualiza.
 
Uma caixa-preta da vida pré-histórica
Mais do que fornecer informações sobre os povos primitivos, os sambaquis podem revelar detalhes importantes e desconhecidos da fauna pré-histórica. “Os sambaquis são um tesouro, uma caixa-preta que guarda informações de elementos da fauna. A partir do estudo dos restos orgânicos coletados nesses locais, podemos interpretar os dados para saber qual era o tamanho dos peixes consumidos por esses povos, a região de origem desses animais, se eram de lagoa costeira ou de mar aberto, e a história natural dessas espécies, com sua distribuição, seus hábitos de reprodução e de vida”, resume Aguilera, doutor em Ciências na área de Zoologia, pelo Instituto de Zoologia Tropical da Universidade Central da Venezuela.
 
Com esse objetivo, os pesquisadores analisaram restos de peixes ósseos pré-históricos, conhecidos tecnicamente como vestígios ictioarqueológicos, encontrados em 13 sambaquis fluminenses. Assim, como na montagem de um quebra-cabeças, pequenas peças foram as pistas utilizadas nas investigações científicas – entre elas, ossos do crânio, vértebras e dentes de peixes ósseos; placas de arraias e restos de tubarões; além dos otólitos, que são os minúsculos cristais localizados no ouvido interno e responsáveis pelo senso de equilíbrio do corpo do animal.

“Com base em 679 elementos diagnósticos da anatomia dos ossos e dos dentes, pudemos ainda organizar e tombar esse material do acervo do Museu Nacional em coleções de referência, para que outros pesquisadores possam estudar esse tema com mais facilidade no futuro”, conta Mariana. O estudo taxonômico dos restos arqueológicos dos peixes resultou no reconhecimento de uma diversidade de 97 espécies marinhas. “Se compararmos com as espécies de peixes modernas, esse número representa 37% de todas as espécies registradas hoje ao longo da costa fluminense. Também determinamos que, em tempo pré-colonial, algumas espécies exibiam diferentes tamanhos de comprimento, com destaque para a corvina, que atingia 28% a mais de tamanho que os peixes atuais”, afirma a pesquisadora.
 
Algumas dessas peças foram levadas do Museu Nacional para o Laboratório de Radiocarbono (LAC), da UFF, onde foram datadas com a técnica de radiocarbono. Esse método utiliza o isótopo radioativo carbono-14 para determinar a idade de materiais com até 60 mil anos, como os fósseis. “Os resultados mostram mais de 4.900 anos de atividades pesqueiras no período pré-colonial”, ressalta Aguilera. Ele lembra que o único equipamento que existe na América Latina para a datação com radiocarbono está no Laboratório de Radiocarbono da UFF. “Com esse equipamento de alta tecnologia, desenvolvemos uma técnica de calibração específica para o estado do Rio de Janeiro, com dados da nossa latitude na costa atlântica”, completa.

O estudo comprova que a habilidade para a pesca era bem desenvolvida entre os habitantes dos sambaquis. Provavelmente, eles dominavam a arte de pescar com redes, feitas de fibra vegetal, e usavam arpões com pontas de ossos e conchas de moluscos – algumas encontradas nos sambaquis – e canoas primitivas. As redes de fibra não sobreviveram ao tempo, mas as evidências reveladas pelos restos dos peixes sim. “Encontramos, por exemplo, dentes de tubarão branco em um colar colocado no pescoço de uma pessoa fossilizada, que foi enterrada no sambaqui. Como eles pescavam tubarão branco, que é um peixe de mar aberto, difícil de pegar? Acreditamos que eles sabiam que a região era um berçário de tubarões, que migram longas distâncias para se reproduzir”, conclui Aguilera. Aparentemente, os pescadores do passado se aproveitavam do conhecimento da região para pescar fêmeas adultas ou filhotes, encontrados nos sambaquis.
 
Depois desse estudo, Mariana dará continuidade à pesquisa de seu doutorado em Biologia Marinha na UFF, atualmente em curso, sob a orientação de Aguilera. “Vou estudar o sambaqui que existe nas proximidades do aeroporto do Galeão, na baía de Guanabara”, adianta. Também assinam o artigo Path towards endangered species: prehistoric fisheries in Southeastern Brazil: Thayse Cristina Pereira Bertucci , Luciano Rapagnã, Rafael de Almeida Tubino, Cassiano Monteiro-Neto, Acácio Ribeiro Gomes Tomas, Maria Cristina Tenório, Tânia Lima, Rosa Souza, Jorge Domingo Carrillo-Briceño, Manuel Haimovici, Kita Macario e Carla Carvalho.

Fonte: Faperj - Débora Motta

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