BRASIL, Rio de Janeiro - Depois da velha guarda da música cubana (“Buena Vista Social Club”), da coreógrafa mais revolucionária da Alemanha (“Pina”) e dos instantâneos de Sebastião Salgado (“Sal da Terra”), o olhar documental de Wim Wenders agora se volta para o Vaticano e seu mais ilustre cidadão, o Papa Francisco, no longa-metragem “Pope Francis: A man of his word”, já selecionado para o 71º Festival de Cannes (8 a 19 de maio).

Aclamado por uma série de cults desde os anos 1970, com destaque para “Paris, Texas”, que lhe rendeu uma Palma de Ouro em 1984, o cineasta germânico finaliza essa produção trabalhando simultaneamente na reestreia mundial de “Asas do desejo” (1987), repaginado digitalmente numa versão remasterizada inédita, já exibida na seção de clássicos do Festival de Berlim, em fevereiro. E ainda há uma terceira missão em sua agenda: há países, como o Brasil, com os quais ele precisa falar sobre a força redentora do amor por meio de um filme de ficção que resgatou seu frescor de juventude ao falar de afeto, chamado “Submersão”. Este drama romântico (e político, como é marca de Wenders), que entrou em circuito na última quinta, mostra a “love story” entre duas figuras céticas, vivida pela sueca Alicia Vikander (a atual Lara Croft) e o escocês James McAvoy (de “Fragmentado”).

“O amor sempre teve um lugar filosófico na arte, por sua dimensão metafísica, mas ele agora ganha uma nova transcendência revolucionária nestes tempos de terror, de crise e de falência moral: daí voltar aos anjos, aos amantes”, disse Wenders em Berlim, ao exibir as imagens do querubim Bruno Ganz optando pela paixão em vez de Deus ao voar nas “Asas do desejo”. “Rever o passado é rever o que move a gente adiante. Eu venho de uma geração que tinha o dever de mudar o mundo e que não se alienou diante dos obstáculo por conta do rock’n’roll. Agora, diante de tanta mudança na História, o silêncio é que nos dá lucidez de observação”.

Pouco se sabe sobre o documentário do Papa Francisco, fora o cuidado (autoral) do cineasta alemão em partir de retratos de pessoas para associá-las a lugares em mutação - no caso, a Roma católica. “Não existem mais fronteiras formais entre ficção e documentário. Existe a potência poética do real e há mecanismos de preservá-la, na tela, sem a necessidade da fabulação. O meu cinema nunca sai da realidade. Para ficar nela, basta-se olhar a vida com preocupações adultas, identificando, por exemplo, a brutalidade da intolerância”, disse Wenders no festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro.

Foi “Submersão” que abriu o evento espanhol em 2017, sob uma ovação de centenas de espectadores. Em sua trama, Alicia vira a biomatemática Danielle, que, em busca de indícios geofísicos capazes de revelar a origem da vida na Terra, deixa-se atropelar por um namoro. Seu coração acaba nas mãos de James (James McAvoy), um empreiteiro ligado ao Serviço Secreto inglês. Em meio ao romance, ele acaba nas mãos de jihadistas africanos, enquanto ela prospera em sua pesquisa. Mesmo no risco, ou na devoção cega ao trabalho, More e Danielle não se esquecem. Estão tão longe e tão perto, numa alusão a um filme homônimo do cineasta, hoje com 72 anos. “O cinema fez história com filmes de amor, mas eles se tornaram artigo raro em meio à fauna de filmes de digestão rápida de hoje. O amor não é fácil de ser digerido, pois ele exige doação, cumplicidade. Eu escolhi falar dele porque a moeda de troca do Presente é o ódio. Eu quero sair desse lugar...”, diz Wenders. “A medida do ódio é a desigualdade social”, completa.

Fonte: Jornal do Brasil - Rodrigo Fonseca (Rodrigo é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ))

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