Anelise Pacheco [1]

Na era industrial, o tamanho era polarizado entre dois extremos: existia o "mundo", ou as massas, e existia o "indivíduo". A industrialização enfatizava as eficiências em larga escala da produção em massa, o que rapidamente levou ao consumo massificado e à sociedade de massa. Um mudança para o grande, se não para o maior de todos, perseguiu a sociedade durante algum tempo. Se algo valia a pena ser feito, deveria então ser feito em larga escala, na escala do mundo. A ambição girava em torno do maior arranha-céus, da maior fábrica, da maior barragem e da maior ponte. As tecnologias de comunicação da época também visavam as massas. Tanto o rádio quanto o jornal informavam, educavam, mobilizavam centenas de milhões de pessoas através de uma única fonte de transmissão. A televisão, por sua vez, conseguiu amplificar um minúsculo sinal capaz de alcançar ao mesmo tempo bilhões de pessoas espalhadas por milhares de quilômetros.

A lógica do moderno era atender a todos ou unicamente à própria pessoa. Nem a sociedade de massas, nem o culto ao pessoal eram equipados para lidar com a dinâmica peculiar do meio. A lógica da rede, por sua vez, estimula o espaço intermediário, fornece tecnologia para atender aos anseios de tamanho médio. A comunicação 1:n não deixa de existir, mas passa a conviver com a força e o ineditismo da comunicação m:n.

Não se trata mais de opor a massa ao indivíduo. E a pessoa-multitude se diferencia do indivíduo-massa na medida em que este último nada mais é do que um produto(e o que se produz) do imaginário do poder capitalista e da unidimensionalidade da vida, enquanto que a pessoa-multitude se desdobra em múltiplas situações, que remetem a uma abertura da vida e da potência.

Diferentemente da era industrial, quando o consumidor era estimulado à passividade, a lógica da rede força o indivíduo a interagir. Por meio das redes sociais, o indíviduo pode escolher que postagens de museus deseja ver ao acordar. E criar sua própria galeria de posts em sua página. Assim como tem a possibilidade de criar a sua própria trilha musical através do serviço de streaming. Se hoje os indivíduos já podem ter suas próprias rádios pessoais ao serem capazes de criar suas próprias playlists, dentro em breve eles também serão capazes de criar as suas próprias televisões pessoais.

Dentro deste novo paradigma de comunicação, o deslocamento físico dos indivíduos para espaços de ciência e cultura foi colocado em questão. E, na medida em que o conteúdo destes espaços passou a ser oferecido virtualmente, os espaços físicos dos museus passaram a ter que se abrir para a comunidade, ampliando o seu leque de atividades, para continuar gerando pertencimento dos indivíduos. Atividades não museais, como aulas de yoga, passaram a ser oferecidas em museus de ciência de grande visitação. E até em museus tradicionais, como o Metropolitan de Nova York, começam a surgir no calendário destas instituições mostras que são verdadeiros "happenings culturais", com desfiles de moda e DJ´s, antes apenas admissíveis em espaços não museais.

O Museu da Maré no Rio de Janeiro, criado em 2006, foi pioneiro em mostrar a vontade e a determinação do cidadão em montar o seu próprio museu e preservar a sua memória. Com o objetivo de salvaguardar a história da comunidade, o museu surgiu a partir da doação de objetos de membros da comunidade, que funcionavam como curadores e conservadores da coleção. Podemos dizer que passa a surgir no espaço museal a figura do consumidor-curador, ou ainda, do público-curador.

Seja pela via da interatividade, seja pela via da imersão ou da realidade virtual, os museus de todo o mundo buscam a qualquer preço incluir esta nova geração de "visitantes-curadores" em seus espaços. e criar em seus espaços uma comunidade que os inclua.

Assim como o Exploratorium Museum em São Francisco possui laboratórios em operação no circuito de visitação de forma a incluir os visitantes na experiência da pesquisa acadêmica, quem sabe não seja a hora dos museus abrirem espaço para os visitantes serem co-curadores de atividades e exposições. Talvez seja um caminho para inserirmos os museus na lógica da rede e potencializarmos a formação de comunidades que serão responsáveis pelo futuro da tradição dos espaços museais do século XXI.

 


[1] Bacharel em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1985), mestre em Ciência da Computação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1988), mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994) e doutora em Comunicação e Sistemas de Pensamento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1999). Foi Diretora do Museu da República de 1993 a 2003. E, atualmente, ocupa o cargo de diretora do Museu de Astronomia e Ciências Afins.


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