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Adler Homero F. de Castro [1]

Em 1903, o Correio Paulistano anunciou que o diretor do Museu Paulista encomendara ao renomado artista Benedito Calixto um quadro “representando Domingos Jorge Velho, o herói de Palmares”. A compra do quadro se entende perfeitamente no contexto da época, em que se procurava criar uma visão de um passado glorioso para São Paulo, em torno dos feitos dos bandeirantes, tidos como fundadores do Brasil. Por outro lado, nos dias atuais seria muito difícil imaginar uma iniciativa semelhante por parte do Museu, uma vez que a concepção de "grandes personagens" atuando como "motores da história" caiu em desuso. Não mais se pensa nos grandes homens como sendo os únicos responsáveis pelos fatos e acontecimentos históricos. Além disso, a pintura solicitada se trata de uma recriação duvidosa, baseada em vagos registros históricos e numa grande série de hipóteses sem base documental, o que atualmente não seria aceitável.

Mais importante, a encomenda de um quadro para homenagear Domingos Jorge Velho não seria recomendada, pois ele, como todos os famosos bandeirantes, era um caçador de indígenas que os capturava com o objetivo de escravizá-los – justamente por sua experiência de algoz é que foi escolhido para destruir o Quilombo dos Palmares. Além disso, a visão corrente é que os heróis de Palmares não são os bandeirantes, mas sim os palmarinos, que resistiam à opressão da escravidão. Por tamanha relevância histórica, a data da morte de Zumbi dos Palmares foi definida como o Dia Nacional da Consciência Negra, decretado feriado em seis estados e em vários municípios do Brasil.

O “herói de Palmares”

Domingos Jorge Velho e o Loco-tenente Antônio F. de Abreu, óleo s/ tela, Benedito Calixto, 1903Domingos Jorge Velho, quadro de Benedito Calixto, Museu do Ipiranga.

Julgamos o caso do retrato de Domingos Jorge Velho como um bom exemplo para introduzirmos o tema apresentado pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) neste ano, a mudança de abordagem dos museus e outras instituições culturais frente às transformações da sociedade moderna.

De fato, a motivação inicial para formação dos grandes museus da história foi a necessidade de criação de um sentimento de identidade nacional por meio da valorização excessiva de grandes homens, os heróis nacionais, e de conquistas militares. Pelo menos na área das ciências humanas, tal enaltecimento não mais é aceito. Apesar dessa nova percepção da história ser restrita à parte da comunidade acadêmica, para todos os efeitos, ela se tornou dominante no que tange aos museus. É possível presumir que se trata de uma reação ao nacionalismo extremado de meados do século passado, representado no nazi-fascismo, bem como à realidade – que não pode ser minimizada – de que na maior parte dos países desenvolvidos, o objetivo de consolidação de uma identidade nacional, já foi atingido.

Sendo assim, há um problema: como os museus podem lidar com uma realidade diferente daquela para qual foram criados? Isso não é uma questão que afeta somente os museus, mas outros órgãos de preservação do patrimônio, criados com uma lógica semelhante são englobados pela mesma conjuntura. A solução adotada foi a de ignorar o propósito original e real da fundação dessas entidades, passando a se ater estritamente às funções teóricas das instituições museográficas. Essas funções foram bem sumarizadas na definição do ICOM e, por esta, como sabemos, um museu é uma organização sem fins lucrativos, aberta ao público e que adquire, conserva, pesquisa e comunica o patrimônio material e imaterial da humanidade. No entanto, nem mesmo isso é uma solução simples, tanto que o próprio Conselho fez um convite para que pesquisadores da área apresentassem uma nova visão do que seria um museu(*), considerando que eles “mudaram radicalmente, ajustaram e reinventaram seus princípios, políticas, ao ponto que a definição de museu do ICOM não parece mais refletir os desafios e as variadas visões e responsabilidades”. (https://icom.museum/en/activities/standards-guidelines/museum-definition).

A mudança de perspectiva nem sempre feita de forma consciente, ou seja, como parte de um projeto, criou uma situação complexa para as instituições museológicas. Há a necessidade de se concentrar em novos públicos e novas abordagens. Entretanto, a estrutura e, mais relevante ainda, os acervos das instituições foram montados pensando em propostas históricas e museológicas que não mais atendem às necessidades contemporâneas. De um ponto de vista que seria equivocado considerar menos relevante, os grandes museus e vários dos menores foram criados, como já exposto, a partir da demanda de uma identidade nacional, assim seu público-alvo deveria ser o mais amplo e diversificado possível. Mesmo no caso de famosos museus, como o Louvre e o Museu Britânico, quando as instituições se tornaram padrões reconhecidos internacionalmente, a lógica subjacente a elas instituições ainda era a de dar ênfase ao poder cultural de suas próprias nações.

Permanece, então, o questionamento: como seria possível adaptar instituições antigas a um pensamento moderno? É uma pergunta que pode ser respondida, mas não de forma simples. Uma das consequências da mudança de objetivo das instituições de preservação, quando deixaram de ser um instrumento dos governos para a criação de um sentimento de identidade nacional, foi sua perda de função no que diz respeito às políticas administrativas. Ao se afastarem do seu papel teórico ante os governos, os museus passaram a sofrer maiores restrições orçamentárias, o que o processo de reformulação generalizada das coleções das instituições.

Não há muitos caminhos disponíveis para resolver esse problema específico. É possível complementar as coleções com aquisições esporádicas e direcionar a política de doações das entidades museológicas para uma que preencha lacunas. No entanto, qualquer transformação proposta para formação das coleções será muito lenta, pois não se pode cogitar descartar o acervo anteriormente acumulado – seria literalmente um crime contra o patrimônio.

O caminho que nos parece ideal é o mesmo apontado pelo ICOM, pelo menos de forma parcial: a busca por “novas formas de honrar suas coleções, suas histórias e suas heranças, criando novas tradições que terão um novo sentido”. É imprescindível respeitar a história das instituições e suas coleções, encontrando novos usos e interpretações para os acervos. O quadro de Domingos Jorge Velho não pode ser mais usado para enaltecer os caçadores de escravos, mas ainda assim serve para discutir a história do País e, o que consideramos mais relevante, questionar como aquele momento criou condições que afetaram e ainda afetam a sociedade contemporânea.

Mesmo considerando a validade da proposta do ICOM deste ano, ela apresenta um ponto questionável no cenário atual. De acordo com o Conselho, os museus têm se reinventado na “procura de se tornarem mais interativos, focados na audiência, orientados para a comunidade, flexíveis, adaptáveis e móveis”. Considerando que o termo comunidade é definido como um “conjunto das pessoas que partilham de determinado contexto geográfico, ou a mesma religião, cultura, tradições e interesses”, existe uma contradição na colocação feita pelo ICOM. Na sociedade moderna onde tudo está interconectado e disponível na Internet com acesso de qualquer lugar do mundo, como um museu pode ser orientado "apenas" para a comunidade?

Em nossa opinião, os museus devem se preocupar com as comunidades onde estão inseridos, mas não podem ter como objetivo central trabalhar exclusivamente com elas. Esse é uma meta impossível de ser atingida. Mesmo entidades museológicas de pequeno porte e de abordagem monográfica, ao serem interativas e procurarem diversificar e ampliar suas formas de atuação, passam a atingir públicos maiores, além de uma comunidade restrita. Essa é a natureza do mundo moderno. Devemos reconhecer esse fato, usando as coleções montadas sob uma visão mais generalista para tratar da inserção de grupos locais na “aldeia global”. Dessa forma, o papel dos museus não seria o de se concentrar em suas comunidades restritas, fingindo que os problemas causados pela globalização não existem, mas buscar os meios para reduzir, ou, no mínimo, discutir, as desigualdades criadas pelo fenômeno.

(*) Associados do ICOM e pessoas interessadas podem apresentar propostas para uma nova definição de museu até o dia 20 de maio de 2019, no endereço eletrônico: <https://icom.museum/en/activities/standards-guidelines/museum-definition>.


[1] Historiador, doutor em história, pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e conselheiro do Museu de Armas Históricas Ferreira da Cunha. Foi pesquisador do Museu Histórico Nacional e curador do Museu Militar Conde de Linhares.


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