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Natália Fauvrelle [1]

O tema escolhido pelo ICOM para assinalar o dia Internacional dos Museus em 2016 não podia ser mais apropriado por, finalmente, revelar que o território em que se inserem os museus é fundamental para desenvolver a sua atividade. O museu não pode fechar as portas ao que está lá fora, à sua comunidade, logo à sua paisagem. Confesso que como profissional senti uma grande satisfação com esta proposta, pois desde 2006 que desenvolvo investigação sobre a paisagem no museu onde trabalho (Museu do Douro, Peso da Régua, Portugal). Por outro lado, este é também o tema do doutoramento que estou a realizar em Museologia [2], centrado na paisagem do Alto Douro Vinhateiro (ADV), classificada pela UNESCO como Património Mundial desde 2001.

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Trata-se de uma paisagem agrícola, associada à produção do vinho do Porto, produto com grande valor económico e turístico. Por esse motivo é um território sujeito a uma enorme pressão, que põe em causa um padrão paisagístico desenvolvido ao longo de gerações, e onde se combinam diferentes técnicas de fazer a paisagem. Aqui se cruzam vários elementos construídos que são testemunhos do desenvolvimento agrotécnico desta região vitivinícola, a mais antiga região demarcada e regulamentada do mundo.

A paisagem será também o mote da conferência anual do ICOM (Julho, Milão) e promete um sério e profícuo debate em torno desta matéria, nomeadamente com a discussão da Carta de Siena, documento proposto pelo ICOM Itália em Julho de 2014. Entende-se nesta carta que a paisagem é também um património relevante e que cabe aos museus participar na salvaguarda e interpretação da dimensão material e imaterial deste património. Defende-se ainda que, tendo em conta a situação financeira atual e a fragilidade do sistema de gestão do património, será necessário encontrar um novo modelo de proteção que alie os recursos públicos e privados e onde os museus poderão ser uma peça chave enquanto «agentes territoriais».

O termo “paisagem” é extremamente rico, complexo e com múltiplos sentidos empregues por diferentes disciplinas, permitindo várias interpretações que vão deste o território avistado, a um género artístico, confundindo-se até com o sentido da visão. Os estudos mais críticos deste posicionamento remetem cada vez mais o conceito para as pessoas e a forma como se apropriam do espaço e do tempo, numa dinâmica em que fatores naturais e culturais se constituem mutuamente. A paisagem, como o ICOM reconhece ao propor o tema, é um produto das condições do território, ou seja, do espaço, e das transformações ocorridas no tempo, onde a ação das pessoas é fundamental. É pois esta relação de reciprocidade que torna os «indivíduos e as comunidades responsáveis pela proteção e melhoramento dessas paisagens».

Esta visão reflete-se de certo modo na definição proposta pela Convenção Europeia da Paisagem, que define a paisagem como «uma parte do território, tal como é apreendida pelas populações, cujo carácter resulta da ação e da interação de fatores naturais e ou humanos» (Europe, 2000: 5). Ainda assim, alguns autores preferem abandonar o confronto entre natureza e cultura, própria do racionalismo cartesiano, falando na interação entre seres humanos e não-humanos, englobando nesta conceção os organismos e materiais com os quais as pessoas interagem. Paralelamente a este posicionamento, uma visão interculturalista da paisagem, defendida na Carta de Siena, remete para um confronto dialogante de diferentes perspetivas da paisagem, conciliando assim as várias visões existentes a nível global e não apenas as de matriz ocidental.

A relação entre museus e paisagem foi até muito recentemente negligenciada ou mesmo entendida como estranha à missão dos museus, demasiado centrada nas coleções que se guardam no interior dos edifícios. Foi pelo menos o que senti quando no Museu do Douro, em 2007, desenvolvemos um projeto de inventário de paisagem, procurando aplicar ao território metodologias em tudo semelhantes às que se empregam na gestão das coleções museológicas. O nosso propósito era conhecer melhor o património paisagístico da região classificada pela UNESCO, de modo a agilizar a gestão das alterações operadas de forma constante no espaço.

Um novo posicionamento das instituições museológicas começou a desenhar-se com o movimento da nova museologia. Foi preciso repensar o museu para lá do edifício e das coleções, obrigando a olhar para o território e para as comunidades. Esta alteração de paradigma parece agora urgente para todos os museus, independentemente do seu âmbito, responsabilizando-os cada vez mais pela paisagem em que se inserem, de modo a que estes se sintam responsáveis pela sua investigação e interpretação e, consequentemente, pela sua preservação.

Uma nova atitude implica, por um lado, o envolvimento da comunidade nas atividades dos museus, o que passa, seguindo o proposto na Carta de Siena, pela criação de «comunidades de paisagem», isto é, redes de pessoas e instituições que assumam compromissos que defendam a preservação da paisagem. Tal poderá ser feito através de inúmeros modos, como atividades educativas, investigação, promoção e outras formas que criem uma participação ativa. O papel dos museus será a promoção e manutenção destas comunidades. Esta função será tanto mais frutífera se integrar arquivos e bibliotecas e outros organismos culturais, garantindo assim uma rede de suporte sustentável que acompanha o desenvolvimento das comunidades.

Por outro lado, é fundamental o reconhecimento e autorreconhecimento do papel das comunidades como construtoras de paisagem, uma vez que são as suas práticas paisagísticas que a construíram e constroem. Ao elevar a paisagem ao estatuto de património importa não perder de vista que a sua sustentabilidade passa pela manutenção de um papel ativo na vida das comunidades que a habitam. Assim, a musealização da paisagem não significa congelar, solidificar, suspender do tempo, mas encarar a mudança como algo inerente, ainda que promovendo a preservação dos «traços identitários» da paisagem, como refere a Carta de Siena.

É essa relação entre as comunidades e a paisagem que está na base da minha investigação de doutoramento, onde questiono de que modo a patrimonialização da paisagem do ADV e a gestão subsequente, assente num modelo político administrativo de ordenamento do território, é apreendida pelos diferentes construtores da paisagem. Tendo por conceitos centrais “paisagem” e “património”, interrogo-me se diferentes entendimentos destes conceitos condicionaram o processo de patrimonialização e a própria gestão patrimonial do ADV desde 2001. Isto é, refletindo sobre eventuais divergências na perceção dos referidos conceitos entre quem classificou e gere o Património Mundial do ADV e quem vive e constrói esse mesmo território, procuro uma nova abordagem concetual que permita melhorar a eficácia da gestão desta “paisagem-património”.

Ao mesmo tempo, questiono o papel que um museu de território, como o Museu do Douro, poderá ter na agilização da gestão museal do território, paralela ao modelo de ordenamento de território, nomeadamente através de uma política assente no envolvimento do museu com a sua comunidade e no papel que poderá ter na aproximação entre quem gere e quem constrói fisicamente a paisagem. O objetivo é encontrar um caminho através do qual o museu possa criar e sustentar comunidades de paisagem, que permitam preservar esta paisagem-património de uma forma fluída e não cristalizada em modelos impostos a partir do exterior da comunidade.

Neste contexto, a proposta do ICOM não podia ser melhor para a investigação que desenvolvo. É um bom augúrio para a reconciliação da instituição Museu com o seu território, um encontro feliz de dois mundos que se sustentam e suportam. Inúmeras coleções que se guardam no interior dos museus só adquirem plena leitura quando postas em diálogo com o território, com as comunidades que os produziram e que guardam, muitas vezes, o saber-fazer, a memória a elas associada.

[1] Coordenadora dos Serviços de Museologia do Museu do Douro - Peso da Régua, Portugal (em licença).
Bolseira de Doutoramento em Empresas da Fundação para a Ciência e Tecnologia em parceria com o Museu do Douro.
Doutoranda em Museologia na Faculdade de Letras da UP. Mestre em História da Arte.
Investigadora do CITCEM/FLUP.
Membro da direção do ICOMOS Portugal.

[2] Programa de doutoramento em Museologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal), orientado pela Prof. Doutora Alice Lucas Semedo e co-orientado pelo Prof. Gaspar Martins Pereira.

Referências

  • EUROPE, Council of (2000), European Landscape Convention. In: EUROPE, C. o. (ed.). Florence: Council of Europe.
  • HOWARD, Peter, THOMPSON, Ian & WATERTON, Emma (eds.) (2013), The Routledge Companion to Landscape Studies, London, New York: Routledge.
  • ICOM, La Carta di Siena: Museos y paisajes culturales. Página consultada a 2 de abril de 2016, disponível em <http://icom.museum/uploads/media/Carta_di_Siena_ES_final.pdf>.
  • INGOLD, Tim (2000). The perception of the environment: Essays on livelihood, dwelling and skill, London: Routledge.

 

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