DISTRITO FEDERAL, Brasília - Todo ano, no mês de maio, os cânticos, batuques, cheiros e cochichos percorrem a cidade de Santo Amaro (BA), permeando e preenchendo as ruas do Largo do Mercado até o mar.


Um dos momentos marcantes da cerimônia religiosa do Bembé do Mercado é a entrega dos presentes na praia de Itapema, em Santo Amaro (BA). Crédito: João Gustavo Andrade

A memória das senzalas transformada em um canto de liberdade, acompanhado pelo tambor e pela reza, fazem a festa que povoa a cidade na celebração do Bembé. Mas nesse ano de 2020, só o que se podia ouvir era o silêncio e a fé.

Por conta da pandemia do novo coronavírus, os responsáveis pela celebração religiosa, reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil, optaram por adaptar a festividade que é o maior Candomblé de rua do país, transformando-a em uma cerimônia mais intimista e enxuta. Seu ápice foi realizado nos dias 16 e 17 de maio, com foco nos fundamentos litúrgicos e religiosos, mas sem perder o brilho e a força da devoção do Povo de Santo.

É uma contradição: no Bembé, o sagrado sai de dentro dos terreiros e forma uma grande festa pública, mas percebe, nesse momento peculiar, a necessidade de retomar seu caminho porta adentro, como sinal de cuidado e solidariedade. A ideia, segundo José Raimundo Lima Chaves, o Pai Pote, presidente da Associação Beneficente e Cultural Ilê Axé Ojú Onirè, foi cumprir as obrigações religiosas em respeito e agradecimento à ancestralidade e aos orixás, mas tomando todos os cuidados e recomendações necessárias à prevenção ao Covid-19 e, sobretudo, como um pedido de proteção. “Não foi uma interrupção. Foi por amor, foi pela humanidade que não tocamos nossos atabaques”, afirma.

Atualmente, cerca de 50 terreiros diferentes se reúnem na realização do Bembé do Mercado. A celebração é dividida em três momentos cerimoniais: os ritos religiosos que são o fundamento da festa, destinados aos ancestrais; o Xirê – dança sagrada realizada no espaço do Mercado; e a entrega dos presentes a Iemanjá e Oxum, na praia de Itapema. Neste ano, os grupos envolvidos enviaram, cada um de suas casas, os alimentos e materiais necessários para os ritos religiosos, que foram iniciados ainda nos primeiros dias do mês. No último final de semana, os preparos e a montagem dos balaios foram feitos e então, por fim, houve a saída até o mar.

A festividade, que anualmente toma conta da cidade, movimenta o comércio e atrai devotos de todo o país, neste ano, seguiu em silêncio. Da janela, acenos emocionados de quem assistia de longe a pequena procissão passar. Sem Xirê, sem samba de roda ou capoeira. Apenas cerca de 15 pessoas participaram, todos usando máscaras de proteção, procurando manter a distância necessária entre si. Entre elas, estava o chefe do Escritório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Cachoeira, João Gustavo Andrade, único participante externo nessa cerimônia marcada pela contradição. “O Bembé é feito de gente e comemoração. O pessoal do terreiro dizia o tempo todo que essa é uma celebração da felicidade e da libertação. E eu pude ver isso: eles estavam felizes por estarem fazendo suas obrigações religiosas, mas ao mesmo tempo tristes pela energia que paira no mundo. Eles se sentiam nesse conflito de sentimentos, porque sentiam que precisavam celebrar essa festa da resistência”, observou o representante do Iphan.

Naquela manhã única de domingo, cumpriam-se os fundamentos litúrgicos, agradecia-se aos ancestrais e celebrava-se, pelo 131º ano, o dia de “brilho do povo negro”, como explicou Pai Pote. “O Bembé tem uma dimensão muito grande, porque é a hora de mostrar nosso trabalho, a economia criativa que a gente desenvolve. É a hora de ver nossa cultura e ter valorização por ela. Por isso fizemos com toda cautela e toda a nossa fé.”


Crédito: João Gustavo Andrade

Bembé do Mercado
2020 é especial para a comunidade envolvida com a celebração, já que este é o primeiro Bembé do Mercado a acontecer após o Registro pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil. A celebração ocorre desde 13 de maio de 1889, em uma festividade originada para comemorar a data de um ano da Abolição da Escravatura. Em seu aspecto religioso, os ritos são destinados às divindades das Águas, para agradecer e propiciar o bem-estar da coletividade e a proteção da cidade de Santo Amaro.

O Bembé, cujo nome deriva da palavra Candomblé, congrega diversas expressões culturais tradicionais do Recôncavo Baiano e é entendido como um importante documento da trajetória do povo negro, da sua resistência à escravidão e da maneira como inventaram um sentido próprio de fruição da liberdade. É ali que se encontram também o terreiro e a rua, o sagrado da religião e o espaço aberto do Mercado, expandindo a territorialidade do Candomblé em complexas dimensões religiosas, políticas, históricas e sociais.

Fonte: Iphan

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