SÃO PAULO, São Paulo - As diversas modalidades de patrimônio documental, histórico, artístico e cultural não costumam ser tratadas como prioridade, em diversos países.

Vítimas de guerras e saques, da ignorância científico-cultural, do descaso de gestores, de atos de violência gratuita e vandalismo, de calamidades naturais, de xenofobia e intolerância, de situações de crises humanitárias generalizadas, de sociedades que primam pelo interesse exclusivo no objeto-mercadoria, mas também de acidentes, o patrimônio cultural sobrevive em risco permanente. O “acidente” que consumiu parcialmente um dos símbolos da chamada civilização ocidental, a imponente Catedral de Notre Dame, é uma fogueira de alerta, mas que deve ser submetido a estudos. “Metaforicamente, pode ser interpretado como o incêndio do telhado sobre as cabeças ocidentais”, conforme alertou o conceituado jornalista Pepe Escobar em matéria escrita ainda no calor das chamas.

Assiste-se, no Brasil, particularmente, aumento significativo de “acidentes” envolvendo o patrimônio cultural. Apenas a título de ilustração, citemos alguns sinistros ocorridos, e amplamente divulgados, no eixo Rio-São Paulo, em menos de duas décadas deste século: Escola de Comunicações e Artes da USP (SP-2001), Teatro da Cultura Artística (SP-2008), Instituto Butantã (SP-2010), Memorial da América Latina (SP-2013), Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios (SP-2014), Museu da Língua Portuguesa (SP-2015), Cinemateca Brasileira (SP-2016), Centro Cultural São Paulo (SP-2007), Museu Nacional (RJ-2018), Bienal de São Paulo (SP-2019). São apenas alguns exemplos que mereceram destaque na mídia comercial. Mas, sabe-se que os gestores das instituições custodiadoras de patrimônio cultural convivem cotidianamente com riscos de sinistros e pequenos eventos potencialmente trágicos, que normalmente não aparecem nos relatórios oficiais dessas instituições.

Nesse mesmo período, quantos sinistros aconteceram em arquivos? Talvez seja impossível fazer uma quantificação segura e minimamente real, pois sinistros em arquivos brasileiros não rendem manchetes em jornais, senão, eventualmente, em pequenas imprensas locais e de pouca repercussão. Afinal, se a ideia de patrimônio em si é controversa, a de patrimônio documental é restrita a pequenos círculos de especialistas. Além do mais, quem convive com a realidade dos arquivos sabe que existem, em quase todos os históricos custodiais de acervos documentais, relatos de sinistros: perdas, roubos, alagamentos, incêndios etc.

Enfim, sob as fantásticas luzes do século que promete a redenção pela tecnologia, a impressão que se tem é a de que a conservação do nosso patrimônio, em geral, ainda carece das mais primitivas ações de cuidados. Se agregarmos a isto a perda de dados e informações nos ambientes virtuais nesta ainda curta existência dos documentos digitais, o quadro se apresenta muito mais sombrio.

Parece haver uma coincidência negativa entre uso massivo de novas tecnologias voltadas para entretenimento, conforto e segurança e a ocorrência de sinistros. Ainda que seja inegável o desenvolvimento de tecnologias em segurança de acervos, é notório que, em geral, as instituições têm investido de forma intensiva em equipamentos de refrigeração, de informática e de eletricidade em seus prédios, muitos deles antigos e adaptados para novas funções. Concomitantemente, parece haver, também, um desinvestimento no fator humano, com o enxugamento das folhas de pagamento, processo de terceirização e quarteirização de pessoal e investimento incipiente em formação e capacitação. Combinação de alta periculosidade para as instituições que têm a responsabilidade de conservar os bens do patrimônio cultural e documental sob sua guarda.

Por este motivo, os editores da Revista do Arquivo optaram por dedicar uma edição para a reflexão desse importante e urgente assunto. Como sugestão, seguem alguns temas que podem orientar os potenciais articulistas:

- Administração de emergências em instituições custodiadoras de acervos;
- Recuperação de patrimônio após ocorrência de sinistro (fogo, inundação, roubo, calamidade natural, agentes biológicos, acidentes etc.);
- Boas práticas para conservação do patrimônio cultural;
- Tecnologias aplicadas à conservação e recuperação de patrimônios sinistrados;
- Ciências e tecnologias aplicadas à segurança de acervos;
- Segurança em prédios de arquivos;
- Prevenção de sinistros em arquivos e instituições custodiadoras de patrimônio cultural;
- Perda de informações (sinistros) em arquivos nato digitais e representantes digitais;
- Políticas de gerenciamentos de riscos em arquivos;
- Plano de emergência em arquivos e instituições congêneres;
- Política de gestão de pessoas e riscos de sinistros.

A edição nº 11 da Revista do Arquivo se propõe a instigar a escrita de artigos para sua seção dossiê temático, com finalidade de divulgação de pesquisas e reflexões acerca das incidências graves que põem em risco ou destroem o patrimônio informativo, histórico, artístico e cultural de um povo.

Pedimos que os trabalhos sejam enviados até dia 20 de maio de 2020 para o e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., observando-se as normas estabelecidas para esta publicação disponibilizadas no link:
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CHAMADA PARA SEÇÃO VITRINE
Convidamos os leitores a contribuírem com crônicas, relatos de experiências, dos mais diversos tipos, para compor a seção da revista. Os selecionados pela equipe editorial serão publicados na seção Vitrine da revista. Não é necessária a vinculação do conteúdo com o tema da revista. Os textos não deverão ultrapassar o limite de 5.000 caracteres.

Serviço
Chamada de Artigos
Edição nº 11, OUTUBRO DE 2020
Revista do Arquivo
Tema: "Perda de informações e de bens em arquivos e instituições responsáveis por guarda do patrimônio"
Submissão: até 06 de julho de 2020
Arquivo Público do Estado de SP

Fonte: Arquivo Público do Estado de SP

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