RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Herdeira da obra de Sergio Britto (1923-2011), a sobrinha do ator e diretor teatral, Marília Brito, acaba de desistir de um dos imbróglios judiciais envolvendo o seu nome.

Põe, assim, um ponto final na disputa pelo imóvel em Santa Teresa que, por anos, foi misto de casa, centro de memória e criação de Sergio. Na casa onde morava e guardava um acervo inestimável e histórico do teatro brasileiro, resultado de sua alma de arquivista, também recebia os amigos diretores e atores nos encontros para assistir óperas em vídeos e, depois, em DVDs. Marília dá por encerrada a luta contra a pessoa que diz ter se relacionado com Sergio ao longo de 14 anos. “A Justiça acatou a justificativa do homem, decidi parar de lutar”, conta.

Marília tem muito mais o que fazer para honrar a passagem dos 95 anos de nascimento do artista, a começar pela doação de seu acervo à Funarte, oferecendo ao público o acesso de 15 mil itens, entre vídeos, programas de espetáculos, matérias, reunidos no Acervo Digital Sergio Britto. Incorporado ao Centro de Documentação da Funarte (Cedoc), que já possui parte dos arquivos de Britto, entregue pelo próprio artista, constitui contribuição inestimável à memória da cultura.Todo o acervo está catalogado e digitalizado em uma base de dados, para acesso imediato de pesquisadores e estudiosos.

“Prometi ao Sergio que cuidaria de todo o seu acervo. Estou colocando ele para o mundo, no momento em que todo o material é doado à Funarte”, acredita. A sobrinha de Sergio, que trabalhou como engenheira química da Petrobras e, após a aposentadoria, tornou-se consultora de projetos, diz preferir olhar para o que define como “lado luz” de tudo o que ficou após a partida do tio. A consultora também acompanha a montagem de “Cafona, e daí? Uma homenagem”, que se trata da versão atualizada do sucesso de 1997, montado no extinto Teatro Delfim, no Humaitá, coordenado por Sergio na década de 1990. A direção é de Alexandre Lino e, no elenco, estarão artistas que participaram da montagem original, como Antonio Feio, Claudia Ribeiro e Luciana Vítor,e outros.

Para o segundo semestre, está previsto o lançamento do livro “Teatro dos Quatro”, do jornalista Daniel Schenker, pela editora Sette Letras. “Agora, vou me dedicar a captar recursos para fazer uma fotobiografia, que será realizada pelo Antonio Gilberto”, conta, advertindo que já está tudo pesquisado. A fotobiografia “O homem de teatro Sergio Britto” promete reunir o legado daquele que contribuiu para a formação de novas plateias e a difusão da cultura como um todo, em 65 anos de carreira.

A trajetória do mestre
Sergio Britto participou de momentos decisivos do teatro brasileiro, da televisão, da ópera e do ensino das artes, em grande parte do século XX e na primeira década do século XXI. A fotobiografia pretende mostrar suas facetas de ator, diretor, produtor, provocador, divulgador, professor, sempre cercado de uma curiosidade e paixão pelo fenômeno teatral. Talvez seja uma personalidade única na arte brasileira, engajado a tudo ligado ao ato de representar. “A obra vai se juntar a quatro livros lançados por Sergio Britto, o último ‘Teatro e eu: memórias’, que ganhou o Prêmio Jabuti um mês antes de ele morrer, em dezembro de 2011”. O acervo, físico e digital, inicialmente, esteve sob a guarda do Instituto Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), no bairro da Glória.

“Coordenar o Projeto Sergio Britto Memórias – Acervo foi um compromisso assumido com o meu tio. Ele foi, sem ter essa intenção, um grande arquivista, que guardava tudo. Não só o que fez, mas também o que via e lia. Ele queria que as pessoas tivessem acesso a isso”, conta. Os registros da obra de Sergio Britto vão desde o Teatro Universitário, quando atuou em “Romeu e Julieta” (1945), de William Shakespeare, até seu último espetáculo como ator, “Recordar é viver” (2010), de Hélio Sussekind, no qual dividiu o palco com Suely Franco. Integram o conjunto fotos do Grande Teatro Tupi, popularmente conhecido como o Grande Teatro de Sergio Britto – programa que levou cerca de 400 peças, de grandes autores mundiais e nacionais, à tela do extinto canal de televisão (TV Tupi) e que projetou para a fama atores como Ítalo Rossi, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg. Um dos momentos mais especiais desta longa trajetória foi a criação do Teatro dos Sete, com Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Ítalo Rossi, que estreou com “O mambembe”, de Artur de Azevedo, em 1959.

Estão lá também os trabalhos dos últimos anos de vida do ator: “Sergio 80”, “Jung e eu”, ambos dirigidos por Domingos de Oliveira, “A última gravação de Krapp” e “Atos sem palavras”, dois textos de Samuel Beckett encenados por Britto aos 85 anos, no espetáculo que lhe valeu todos os prêmios como melhor ator, incluindo o Shell.

A coleção também registra uma de suas paixões, a ópera, em referências antigas como a montagem “La traviata” (1974). O destaque entre os vídeos fica por conta das 600 edições do programa “Arte com Sergio Britto”, da EBC/TV Brasil, que recebeu nomes importantes das artes brasileiras, discutindo o passado, o presente e o futuro das artes cênicas.

Fonte: Jornal do Brasil - Mônica Riani

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