Deise Formolo

Deise Formolo [1]

Naquele 8 de agosto de 1990, cerca de 400 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST acamparam na Praça da Matriz, situada na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, com o intuito de reivindicar o acordo estabelecido no ano anterior, 1989,  no qual o Governo do Estado e o Governo Federal haviam se comprometido a desapropriar 500 hectares de terra para o Movimento, após o assassinato de um militante, Ivo Lima, ocorrido durante a ação de despejo realizada pelos soldados da Brigada Militar na fazenda Bacaraí (Hoffman, 2002). No decorrer da manhã, ocorreu o confronto entres militantes e soldados da Brigada Militar, ação que desencadeou a morte do soldado Valdeci de Abreu.  O caso alcançou intensa proporção midiática e ficou conhecido como o “caso da degola”.

Escrever sobre algo implica em articular os acontecimentos em uma trama narrativa. Por sua vez, enquanto construção, a narrativa adquire diferentes formas e sentidos no processo construtivo. Paul Ricoeur (1994), ao dissertar sobre as relações entre tempo e narrativa, argumenta que “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de um modo narrativo, e que a narrativa atinge seu pleno significado quando se torna uma condição da existência humana.” (RICOEUR, 1994, pág. 85).  Nesse sentido, tempo e narrativa, como ações complementares, ocorrem como condição humana para significação e entendimento sobre os acontecimentos, sobre a vida. Processo presente nos diferentes relatos em torno do confronto da luta pela terra ocorrido na Praça da Matriz, narrado, resumidamente, no primeiro parágrafo desse texto.

Desse modo, a proposta deste artigo é realizar um exercício de análise do processo narrativo sobre o Confronto da Praça da Matriz, conforme relatado na edição inaugural do jornal “Versão”, do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (SINDJORS), de agosto de 1990, então denominado apenas “Jornal”. Esta edição foi totalmente dedicada ao confronto da Praça da Matriz.

Nosso objetivo é buscar compreender como estes agentes, jornalistas, constroem representações do real a partir da perspectiva metodológica da tríplice mimese de Paul Ricouer (1994). Segundo este autor, é possível compreender a relação entre tempo e narrativa por meio da mediação estabelecida pelas chamadas três mimeses: mimese I, que abrange os aspectos da pré-configuração e da pré-escrita; mimese II, o conjunto de ações sobre a escrita propriamente dita; e mimese III, a conjunção que ocorre através da leitura. Nas próximas seções, pretendemos detalhar um pouco mais as características de cada uma das três mimeses, apontando como elas podem ser observadas nos processos de produção e leitura na já referida edição jornal “Versão”, do SINDJORS.

1 Mimese I – Elementos da pré-configuração do Jornal

De acordo com Paul Ricoeur (1994), a mimese I conjuga os elementos da pré-configuração, que se estabelecem na relação e na passagem “da quando “os termos da semântica da ação adquirem integração e atualidade” (RICOEUR, 1994, p.91). Esses aspectos são dissolvidos em traços estruturais, simbólicos e temporais.

Nos traços estruturais se condensa a trama conceitual da ação que remete a seus fins e motivos, elaborados por agentes em constante interação. Resumidamente, a estrutura contempla as “respostas às questões que podem ser classificadas em questões sobre o “que”, o “por que”, o “quem”, o “como”, o “com” ou o “contra quem” da ação” (RICOEUR, 1994, pág. 89). Esse roteiro de perguntas lembra também as perguntas do lead do texto jornalístico, compondo a pré-configuração do texto  jornalístico. Porém é na compreensão da conjunção das respostas a estas questões que se estabelece seu o domínio da “compreensão prática” da ação.

Nos traços simbólicos, no sentido antropológico, conjugam-se os aspectos culturais reproduzidos pelo autor na mediação narrativa. Desse modo, “ se, com efeito, a ação pode ser narrada, é porque ela já está articulada em signos, regras e normas: é, desde sempre, simbolicamente mediatizada” (RICOEUR, 1994, pág. 91).

Os traços temporais designam os aspectos representativos do tempo na narrativa [2]. Aqui, o autor se detém nos sentidos heideggarianos da temporalidade, como a  “forma mais originária e mais autêntica da experiência do tempo, a saber, a dialética entre o ser-por-vir, tendo-se sido e tornar-presente. Nessa dialética, o tempo é inteiramente dessubstancializado” (RICOEUR, 1994, pág. 98).

Isso posto, já podemos identificar a presença desses elementos de pré-configuração na produção da edição inaugural do jornal do SINDJORS. É significativo, nesse sentido, que a publicação tenha sido composta a partir da colaboração de jornalistas empregados nas redações de diferentes veículos de mídia do Rio Grande do Sul e do Brasil, notadamente do jornal “O Estado de S.Paulo”. Este grupo de jornalistas e fotógrafos trabalharam com o objetivo de viabilizar um espaço para publicar uma outra versão sobre o confronto diferentes daquela veiculada pelos jornais em que trabalhavam.

Os textos que compõem o Jornal do SINDJORS já trazem em sua própria escrita a revelação daqueles três elementos que Ricoeur (1994) define como mimese I. No plano simbólico, a edição revela o conflito existente entre os valores dos profissionais da comunicação envolvidos diretamente na cobertura dos fatos do dia 8 e as narrativas veiculadas pelos jornais, rádios e TVs de grande circulação. Compondo ao longo de todo o texto uma crítica a estes veículos, os autores opõem de forma explícita o que eles entendem ser os valores, normas, regras e símbolos que deveriam orientar a produção jornalística, compreendidas como pré-configurativas, contra os critérios que teriam pautado a cobertura dos veículos de grande circulação, que estariam em descompasso com essas regras. No texto “A história de uma montagem” do Jornal do SINDJORS, nota-se a ênfase em destacar o descumprimento dessas regras ao colocarem que “os jornalistas que trabalharam nessa cobertura têm fartas histórias sobre a adulteração de suas matérias”. Vendo ofendidos seus valores e os símbolos associados à prática jornalística, estes jornalistas resolveram narrar sua própria versão para os fatos do dia 8 de agosto de 1990.

Essa divergência no campo simbólico leva à definição da estrutura textual do Jornal do SINDJORS, construído a partir da crítica simbólica, estrutural e temporal da cobertura realizada pelos veículos de grande circulação. Ainda no campo estrutural, os autores procuraram construir a narrativa pautando as inconsistências da cobertura realizada por esses veículos. Desse modo, para os jornalistas do “Versão”, por exemplo,  houve sonegação de informações e imagens relevantes para a construção do sentido do confronto por parte desses outros veículo, como a omissão sobre as contradições apontadas por testemunhas da morte do soldado, entre outras.

A crítica dos aspectos temporais da narrativa desses veículos também surge como relevante para os autores do Jornal do SINDJORS. Eles chamam a atenção para dois aspectos: a pressa e a rapidez com que mídia e Brigada encontraram o assassino - “Não havia a tal regra de que alguém só pode ser chamado de assassino depois de julgado?”, questionam os autores; e a falta de contextualização histórica da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem- Terra, que o Jornal busca apontar. Esta “historialidade”, que Ricoeur (1994), em sua leitura sobre Heidegger, define como o “nível imediatamente contíguo de derivação […], a extensão do tempo entre nascimento e morte e o deslocamento da ênfase sobre o futuro para o passado”, terá impacto para a construção da intratemporalidade do texto, entendida como “o resultado da combinação representativa de diferentes tempos expressos na narrativa” e também é fundamental para a pré-configuração e a construção do sentido da mimese I, em que, “para imitar ou representar a ação, é primeiro, pré-compreender o que ocorre com o agir humano: com sua semântica, com sua simbólica e com sua temporalidade” (RICOEUR, 1994, pág. 101).

Os tempos presentes na produção de sentidos do Jornal mesclam, assim, as temporalidades do acontecimento do dia 8, buscam o diálogo com uma historialidade mais abrangente e admitem, ainda, de forma crítica e à posteriori, a temporalidade apressada dos demais veículos.

2 Mimese II: Aspectos da configuração do Jornal

Nesse ponto, se insere a mediação a partir dos aspectos configurativos da forma conceitual presente na montagem da tessitura da intriga. Essa mimese adquire a função de mediação entre mimese I e mimese III. Nesse sentido, a tessitura da intriga acontece no âmbito da passagem da ordem paradigmática, a ação, para a sintagmática, sentido da ação. Conjugando a tessitura da intriga  como “ a operação que extrai de uma simples sucessão uma configuração", uma forma estabelecida de narrativa em diálogo com a pré-figuração e a reconfiguração.

Nesse ponto, é possível pensar no alcance da produção da tessitura da intriga do Jornal do SINDJORS, ou seja, a configuração do acontecimento ocorre a partir de uma ideia de público (reconfiguração) à qual se destina. Até por se tratar de um veículo produzido sob a tutela do Sindicato dos Jornalistas, deduz-se que este público ideal seria formado essencialmente por outros jornalistas, embora não somente. Esta possibilidade é reforçada pela utilização de uma linguagem mais elaborada do que a utilizada pelos jornais de grande circulação, que indica um leitor familiarizado com esses termos.

Nessa linha, a função de mediação exercida por mimese II se baseia na esquematização e no tradicionalismo “característicos do ato configurante, que têm, um e outro, uma relação específica com o tempo” (RICOEUR, 1994, 106). Assim, o esquematismo “constitui-se numa história que tem todas as características de uma tradição” (RICOEUR, 1994, pág. 107). Pode-se dizer que se trata de uma forma de narrar reconhecida socialmente, ou seja, uma forma de escrever que contemple aspectos inovadores, mas que siga uma determinada maneira de narrar consagrada. Desse modo, o tradicionalismo “enriquece a relação da intriga com o tempo com um traço novo” (RICOEUR, 1994, pág. 107). Já que a “constituição de uma tradição, com efeito, repousa sobre o jogo da inovação e da sedimentação” (RICOEUR, 1994, pág. 107).

Nesse aspecto, a tessitura da intriga no Jornal do SINDJORS atende a certos aspectos dessa tensão entre inovação e sedimentação. O inovador aparece na forma de um texto jornalístico argumentativo, adjetivado e opinativo – não exatamente a definição de imparcial e objetivo – para cobrar que os outros veículos sejam imparciais e objetivos. Esse caráter argumentativo e parcial da publicação dialoga, porém, a objetividade e imparcialidade – a tradição do jornalismo. Ao falar especificamente sobre os acontecimentos do dia 8 de agosto de 1990, os autores cercam-se de cuidados em relação a afirmações conclusivas, buscando trazer aquelas contradições omitidas nos outros jornais e contexto histórico mais abrangente – o que é uma regra de conduta dos manuais de jornalismo.

O texto “Sem Censura - A Reconstituição dos Fatos”, do Jornal do SINDJORS, descrevendo em sentido linear a cronologia dos eventos do dia 8. Ao mesmo tempo, incorpora a crítica e a crença na fidedignidade da sua forma de narrar ao dizer logo no título que aquele texto é “Sem Censura” e também pela diagramação dessa cronologia, que lembra bastante a que foi publicada no Correio do Povo e pela Zero Hora do dia 9/08/1990 e parece insinuar que pode ter havido censura nas outras publicações – o que poderia ser percebido para o leitor que tivesse tido acesso às duas publicações.

Assim, pode-se dizer que a posição crítica em relação aos demais veículos e o caráter metalinguístico da totalidade da publicação constituem formas de inovação. Ao mesmo tempo, há a defesa e a relativa prática do valores tradicionais da isenção e da objetividade.

3 Mimese III: A reconfiguração do Jornal

Conforme Ricoeur (1994) nesse aspecto se insere a capacidade da intriga de mobilizar a experiência pelo ato da leitura. Nesse sentido, conjuga-se a potencialidade de progressão estabelecida pelo círculo da mimese, a capacidade da tessitura da intriga de modelar a experiência, a criação de referência pelo ato da leitura, e as proporções da mediação entre tempo e narrativa.

No caso do Jornal, pode-se dizer que a própria criação do veículo apresenta alguns aspectos sobre a progressão, pois sua elaboração se deu no contraponto aos conteúdos publicados em outros veículos. Ou seja, a mimese I do Jornal tem início a partir da mimese III dos demais veículos, num processo similar ao processo semiótico, em que um signo gera outro signo. Da mesma maneira, a leitura deste veículo dará origem a outras publicações: como o trabalho da autora Christa Berger (2003) que utiliza o Jornal Versão na composição de sua pesquisa intitulada “Campo em confronto: a terra e o texto”.

Da mesma forma, a leitura do Jornal terá efeitos em seus leitores. Esse reconhecimento do público leitor atrai prestígio para o Sindicato, responsável pela publicação, e também denuncia e reforça junto ao seu público o questionamento em relação à imparcialidade e à objetividade dos veículos da imprensa. A efetividade alcançada no processo de mimese III pode ainda ser medido pelo fato de que, após esta publicação, o Jornal ganhou sequência dentro da entidade que deu espaço para que fosse publicado, tornando-se logo a seguir o “Versão dos Jornalistas”.

Considerações Finais

Ao realizar o exercício de pensar a representação do confronto da Praça da Matriz no Jornal do SINDJORS, a partir do modelo das três mimeses, identifica-se  a ação configurante do Jornal, gerada no confronto entre a pré-configuração, salientada pelas premissas éticas buscadas pelos jornalistas na elaboração dessa edição especial do SINDJORS, e a ação reconfigurante de outros jornais, e de suas condições pré-configurativas. Porém, pode-se dizer que nessa versão, ao mesmo tempo que os jornalistas do Jornal do SINDJORS procuraram pautar a construção da representação do confronto na crítica às edições dos outros jornais, acabaram por reforçar simbolicamente esses discursos. Principalmente, ao se constatar que a ação reconfigurativa da edição do Jornal atinge um público diferente e mais restrito dos demais veículos.


[1] Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Trabalho realizado como pré-requisito para avaliação do seminário, "A leitura do texto no trabalho historiográfico: narrativa, discurso e verdade", ministrado pela Profª. Drª Luciana Murari. Porto Alegre, dezembro de 2016.

[2] Tais como datas, tempos verbais, advérbios de tempo, São aspectos associados à ideia de intratemporalidade da narrativa ou de ser-no-tempo (Heidegger) e à necessidade humana de calcular o tempo.


Referências

  • CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1982.
  • HOFFMAN, Leandro Sidinei Nunes. Da cruz à bandeira: a construção do imaginário do Movimento Sem Terra/RS, 1985-1991. 2002. 401 f. Tese (Doutorado) - Curso de História, IFCH, UFRGS, Porto Alegre, 2002
  • HARRES, Marluza Marques. Movimentos Sociais Rurais. In: GOLIN, Nelson Boeira Tau et al. REPÚBLICA: Da Revolução de 1930 à ditadura Militar (1930-1985). Passo Fundo: Méritos, 2007. p. 235-254.
  • RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa (tomo 1). Campinas, SP: Papirus, 1994.

 

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