Marcelo Bortoloti [1]

Em artigo publicado neste site no dia 18 de maio, o professor da UFMG Luiz Henrique Assis Garcia comenta uma matéria da Revista Época, redigida por mim, cujo tema coincide com o mote da 15ª Semana de Museus, ou seja, “Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus”. Em seu texto, o professor reflete sobre a disposição dos museus brasileiros em romper silêncios e reconhecer esquecimentos, fazendo um exercício de autocrítica indispensável ao seu amadurecimento. E critica a forma como a grande imprensa costuma tratar os temas relativos ao patrimônio cultural. Segundo ele, os veículos perdem sistematicamente a oportunidade de levar ao cidadão uma informação mais qualificada a respeito do trabalho que é feito pelas pessoas que atuam nas instituições museológicas.

Não gostaria aqui de defender a reportagem de minha autoria (http://epoca.globo.com/cultura/noticia/2017/04/lei-obriga-os-museus-brasileiros-tomar-mais-cuidado-com-seu-acervo.html), mas expor um pouco a situação do jornalismo cultural brasileiro nos dias atuais, para que possamos refletir juntos sobre as melhores abordagens da temática museológica na imprensa. Creio que alguns pontos da crítica do professor são justos, outros equivocados, mas partem de uma visão recorrente nos meios acadêmicos, e entre os profissionais da área museológica, de tratar os jornalistas como um grupo antagônico, cuja atividade se choca com os interesses e a seriedade das instituições culturais. A imprensa tem papel fundamental na pesquisa, porque sem a comunicação com o público qualquer trabalho acadêmico ou museológico deixa de cumprir seu papel social. Da mesma forma que a pesquisa é importantíssima para abastecer o jornalismo no seu dia a dia. Há, portanto, uma confluência de interesses e a questão é como transformá-la num produto que possa ser viável e positivo para ambas as partes.

Quem acompanha a imprensa brasileira pode facilmente notar que o espaço dedicado a temas culturais vem caindo sistematicamente. Esta queda é resultado de mais de um fator. De um lado, áreas consideradas mais “importantes” como política e economia passaram a dominar o noticiário em razão de uma sucessão de acontecimentos que de fato está alterando o destino do país. De outro, não existe uma demanda ativa do leitor por matérias de temática cultural. Uma maneira de auferir o interesse do público é quantidade de acessos a uma reportagem nos sites de notícia. Por este critério da audiência, verifica-se que os temas mais acessados geralmente são de política, comportamento, esportes ou de celebridades. É sintomático, por exemplo, que num site de grande audiência como o UOL, a editoria de cultura tenha sido substituída pelo selo “entretenimento”.

Isso não quer dizer necessariamente que o leitor brasileiro perdeu o interesse por temas culturais mais profundos. É possível que falte uma oferta de qualidade para que a demanda seja estimulada. Eis aí o desafio. Conseguir abertura para assuntos mais densos é sempre uma batalha. Falta espaço, tempo para levantar boas histórias, jornalistas qualificados e aparentemente demanda de leitura. Como convencer a um editor que determinado assunto merece ser incluído no pequeno espaço dedicado à cultura, e não a matéria sobre tal celebridade que teve um milhão de acessos no site? Penso que é preciso oferecer boas histórias. E é esta a dificuldade que enxergo nas instituições culturais e de pesquisa: elas não sabem vender o seu peixe corretamente. Não conseguem criar um discurso atrativo que vá interessar o público e a imprensa.

A maioria dos museus brasileiros tem acervos fantásticos e histórias incríveis para contar. E de fato estão se tornando mais democráticos, abrindo-se para pesquisa e a inclusão. Mas seu discurso costuma escorregar pelo preciosismo acadêmico ou pela falta de traquejo para lidar com públicos diversos, que a todo momento são bombardeados de informação superficial. Assim, amplia-se o fosso entre a instituição cultural e o público. As discussões museológicas transformam-se em artigos que são lidos somente entre os pares. E a imprensa não consegue absorvê-las, pois lida com outro tipo de linguagem, interesses e pressões. Para intermediar esta relação, não existem assessorias de comunicação que consigam estabelecer de forma eficiente um diálogo.

São duas as posturas que os integrantes de uma instituição cultural e de pesquisa podem adotar. Uma delas é condenar a grande mídia como espaço de distorção e superficialidade, e fechar-se em lugares cada vez mais eruditos, onde é possível estabelecer discussões intelectuais sérias e precisas. Isso levará sempre a um caminho de elitização da cultura. A outra é tentar fazer uma ponte com um público mais amplo, e com a imprensa imperfeita que existe hoje no Brasil. Isso passa por aceitar que existem temas que são caros aos museólogos mas maçantes para o público, e precisam ser introduzidos dentro de narrativas mais saborosas. Todo museu tem histórias apaixonantes, intrigantes, contraditórias ou engraçadas para contar, e explorar o seu potencial emotivo, sem deixar de lado o rigor da informação, não vai desmerecer a instituição ou torná-la menos séria.

É preciso compreender que a imprensa não está a serviço das instituições museológicas. Ela tem natureza crítica e vai procurar sempre os pontos de fricção. Mas há um interesse convergente que é o de transmitir ao público boas histórias, das quais os museus estão cheios. Percebendo as limitações e a natureza do jornalismo, e procurando trabalhar em sintonia com a imprensa, as instituições poderão ajudar a promover a difusão de seu conhecimento a um público mais amplo, o que seria vantajoso para toda a sociedade.

[1] Repórter da Revista Época, mestre em Artes pela Universidade Federal Fluminense, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

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