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Milene Chiovatto [i]

O tema escolhido para o Dia Internacional dos Museus em 2019 fala de uma noção paradoxal de tempo: o futuro da tradição. O mesmo tema defende, ainda, que para existir no mundo contemporâneo os museus devem se redefinir constantemente, atuando junto às comunidades. O texto divulgado para apresentar o tema, situa o museu nessa temporalidade paradoxal, ao mesmo tempo resguardando e repensando o passado, enquanto aponta e apoia a construção de futuros possíveis:

“O papel dos museus na sociedade está mudando. Os museus continuam se reinventando em sua busca por se tornarem mais interativos, focados no público, orientados para a comunidade, flexíveis, adaptáveis e móveis. Eles se tornaram polos culturais que funcionam como plataformas onde a criatividade combina com o conhecimento e onde os visitantes também podem co-criar, compartilhar e interagir.

Enquanto preservam suas principais missões - coleta, conservação, comunicação, pesquisa, exposição - os museus transformaram suas práticas para se manterem mais próximas das comunidades que servem. Hoje, eles buscam formas inovadoras de lidar com questões sociais contemporâneas e conflitos. Agindo localmente, os museus também podem defender e mitigar os problemas globais, esforçando-se para enfrentar proativamente os desafios da sociedade atual. Como instituições no coração da sociedade, os museus têm o poder de estabelecer diálogo entre culturas, construir pontes para um mundo pacífico e definir um futuro sustentável.” [1]

Vivemos em tempos muito conturbados, observando o mundo tendendo perigosamente a posições políticas e sociais radicais em diferentes países. As mais recentes eleições de líderes de importantes países, inclusive de grande parte da América Latina, deixaram à mostra a opção das populações por discursos de segregação e violência, criando uma falsa oposição entre promessas de crescimento econômico e a necessidade de equidade social, impactando até em direitos legalmente constituídos.

Os muitos esforços despendidos durante as décadas anteriores, buscando uma sociedade mais igualitária e justa desde os anos de 1960 e 70, com as lutas por igualdade trazidas por Martin Luther King ou as retomadas das democracias posteriormente aos autoritarismos políticos que dominaram grande parte dos países da América Latina, por exemplo, parecem agora muito distantes, e as gerações que naquela época lutaram visando sociedades mais igualitárias e libertárias devem se sentir desapontadas e frustradas nesse fim do segundo decênio do século XXI, com um gosto amargo de dejá-vu, uma história revivida, frente à realidade contemporânea.

O papel dos museus na sociedade está mudando?

A partir de 1970, tomando como base o documento da Mesa Redonda de Santiago do Chile, os museus foram estimulados a se preocupar, para além de seus objetos, com seu papel na paisagem social, buscando novas atividades, proposições e atitudes.

Nesse documento, os museus foram chamados a um novo compromisso de colaborar para as transformações sociais necessárias, utilizando suas coleções, espaços, profissionais e expertise para educar e incidir nas sociedades de forma crítica, visando a autonomia dos indivíduos e grupos para a construção de um presente e futuro melhores.

Esse processo, que de certo modo poderia ser resumido na frase “transformar museus de templos em fóruns”, deslocando do objeto seu foco de atuação, e ampliando os espaços de diálogo para com seus públicos, propunha uma noção chamada Museu Integral, capaz de lidar com as desigualdades econômicas, o desenvolvimento social, o cenário ecológico e urbanístico, a responsabilidade educacional através da Cultura. A própria noção de público é problematizada a partir dessa corrente, passando a ser entendido como os participantes das comunidades onde os museus atuam. Um trabalho gigantesco e em grande parte utópico.

É significativo notar que hoje, quase 50 anos após essas propostas, o texto do ICOM para o Dia Internacional dos Museus retoma pontos fundantes daquele documento, e novamente congrega os museus a uma atuação social mais pungente. Estimula os museus a incluir e repensar-se a partir de suas comunidades, co-criando com estas, gerando espaços de diálogo, agindo diretamente na sociedade local e global, em busca de um futuro de paz e sustentabilidade.

Mas nós, trabalhadores de museus, estamos de fato atentos aos desejos e sonhos expressos no tema do Dia Internacional dos Museus de 2019?

Posso apenas responder a essa pergunta desde um ponto de vista que se baseia em minha experiência como funcionária de um museu de arte público brasileiro e atual presidente do CECA-ICOM, o Comitê de Educação e Ação Cultural do Conselho Internacional de Museus. A partir dessa posição, pude ver atividades de museus em todo o mundo, tanto em termos de exposições de longa duração e temporárias, quanto de atividades educacionais. Como sempre, não há uma fórmula mágica ou resposta única que transforme os museus de resguardo de objetos e construção de histórias oficiais, muitas vezes sagrados, paraseremturbina de mobilização e transformação social.

Nessa perspectiva, e concordando com o que Hughes de Varine-Bohan apresentou em seu texto Museus e desenvolvimento social: um balanço crítico [2], parece que, enquanto os ecomuseus eclodiram em diferentes partes do mundo, conectando comunidade e cultura; um número muito pequeno de museus tradicionais mudou sua estrutura para inserir uma atitude mais engajada com a sociedade. E se fizeram essa mudança, a fizeram principalmente por meio de suas áreas de educação.

Essa constatação nos leva a pensar que os museus mais tradicionais, ao invés de reconstruir-se internamente focando a sociedade não apenas como destinatária de sua ação, mas como parceira dessa construção, delegaram esse contato a essas áreas técnicas específicas, que entre a suas especialidades estão habituados a tratar e dialogar com os diferentes públicos de visitantes (incluindo distintas comunidades), mas em pouco ou nada alteraram suas constituições e modos de operação.

Além do evidente senso comum de que os museus são instituições eminentemente educativas, a especialização dos profissionais de museus e o intrincado discurso de pesquisadores, conservadores e curadores continuaram, assim, construindo uma lacuna entre seus próprios interesses e os interesses dos visitantes e comunidades de entorno. Este fenômeno é perceptível, por exemplo, por meio da análise dos textos de parede da maior parte dos museus, face aos quais o público médio [3] precisa: um dicionário, um curso de história (da arte ou da natureza do objeto resguardado no museu), conhecimento sobre descobertas científicas, um enorme cabedal histórico, conhecimento sobre filosofia, política e questões econômicas atuais, etc. o que mostra como esses dois mundos, o social e o da instituição museal, estão separados. O documento de 1972 já citado havia proposto que os profissionais dos museusrevissem suas formas de pensar e atuações [4] com o objetivo de desenvolver um museu mais inclusivo, e quase cinquenta anos depois parece que esse caminho não foi tomado.

Os museus continuam se reinventando?

Hoje em dia, é possível acompanhar as novas ondas de reflexão museal que espocam em diferentes locais do mundo. Uma das mais comentadas e discutidas recentementeé a busca dos museus em lutar contra os grandes “males históricos” como o colonialismo, o patriarcado, a misoginia, oracismo e todo tipo de discriminação. Embora essas posturas sejam nobres e muito bem-vindas, são, no mais das vezes, tomadas desde uma revisão de suas próprias coleções, focando-se mais nos objetos do que nas maneiras de pensar a museologia ou o museu, e/ou as pessoas, sejam elas os produtores das obras, a sociedade, ou as comunidades frequentadoras do próprio museu. Isto faz com que o pensamento sobre os objetos mude de ponto de vista, mas não de enunciador.

Algumas instituições avançam ainda mais e passam a incorporar curadores, historiadores e especialistas de diferentes representações de grupos sociais, anteriormente invisíveis, estereotipados ou pouco representados nas coleções institucionais, avanço mais do que necessário.

Essa tendência de revisão das coleções é chamada internacionalmente de decolonização, no sentido de superação dos pensamentos, processos e maneiras de agir herdadas do colonialismo, em oposição ao termo descolonização, que seria o processo enfrentado pelas colônias rumo à sua libertação [5]; embora a distinção entre esses termos não seja unânime.

Poucos são os que conseguiram sentar à mesma mesa, especialistas de museu e representantes da sociedade, sem uma especialização ou formação específica na área de atuação do museu, para serem ouvidos, compreendidos e fazer com que fossem incorporados seus discursos, maneiras de pensar, sonhos, desejos e proposições em novas configurações das coleções, ou mesmo, utilizações do espaço físico dos museus. Em outras palavras, há um esforço em decolonizar os objetos, mas não os pensamentos sistemas e formas de atuação próprias do museu, implicando num despir-se do conceito de enaltecimento dos conhecimentos especializados ou abrindo mão de estruturas organizacionais altamente hierarquizadas.

Os museus buscam formas inovadoras de lidar com questões sociais contemporâneas e conflitos?

As posturas decoloniais de revisão das coleções e objetos patrimoniais são louváveis e fundamentais para trazer novos e bem-vindos ares e significações aos museus.

Entretanto, desde uma visão interna aos museus, ou seja, desde o ponto de vista dos trabalhadores de diferentes níveis que aí atuam,o pensamento colonial ainda prevalece e é sentido numa hierarquia organizacional estática. Grande parte dos museus ainda mantém no topo de sua estrutura organizacional os profissionais ligados aos objetos, considerados “pensadores” e, em um patamar mais baixo [6], os profissionais que lidam com as operações e com o público, vistos como mão de obra e executores dos planos daqueles destinados à concepção das ideias.

Enquanto os conceituadores pensam, são os demais profissionais do museu os responsáveis por materializar, dar forma às ideias, ou seja, construir efetivamente as ações. São vistos como operários e não criadores. Perpetuam internamente aos museus a cisão do mundo de trabalho capitalista entre o grande pensar e o pequeno fazer, emprestando à uns o direito de mandar, e a outros o dever de obedecer.

Some-se a isso a constatação internacional de que a maior parte das altas posições dos museus [7] ainda é ocupada por homens, majoritariamente brancos, no mais das vezes, curadores, pesquisadores, historiadores, críticos ou na melhor das hipóteses museólogos; enquanto as bases hierarquicamente abaixo dessa, de caráter executivo, têm seus cargos amplamente ocupados por mulheres, sendo necessário esforços em nome da equidade de gênero.

Assim, apesar dos esforços dos museus para decolonializar seus objetos, apresentados em exposições cada vez mais contestatórias do papel histórico de cada um deles - sendo muitas vezes vistos externamente como instituições extremamente democráticas, internamente aos museus, a estrutura colonial continua ativa.

Precisamos, portanto, mais do que decolonizar as coleções e exposições dos museus, descolonizar os pensamentos museológicos ainda impregnados pelas estruturas colonialistas de poder, e a estrutura funcional dessas instituições que ainda mantém configurações plenamente coloniais, repetindo e perpetuando desigualdades estruturais e históricas.

Os museus transformaram suas práticas para se manterem mais próximos das comunidades que servem?

A posição mantida por parte significativa dos pesquisadores e curadores, concentrados em suas pesquisas, maslonge do público e de outros profissionais de seus próprios museus, é uma posição potencialmente arriscada. Nos tempos controversos e convulsos em que estamos vivendo, com grandes polarizações políticas, diminuição das liberdades individuais e cerceamento das oportunidades de participação de núcleos menos privilegiados da sociedade na construção de sua própria história, se o museu não se conectar realmente com a sociedade, qual pode ser sua relevância?

Em um mundo como o que vivemos, que produz uma quantidade sem precedente de imagens, difundidas e replicadas em infinitas mídias sociais que espalham notícias igualmente falsas e verdadeiras, no qual a web está à nossa disposição com um clique do mouse ou num botão de nosso próprio celular, acumulando informações fundamentais e desimportantes com a mesma hierarquia de valor; a sociedade mais do que nunca precisa de um lugar no qual as respostas “corretas” não sejam préformuladas, e construídas apenas pelos expertos mas um lugar onde seja possível ser ouvido, no qual a sensação de segurança venha da percepção da possibilidade de construções conjuntas de significados e de desenvolvimento de pensamento crítico, para individualmente aferirmos se há verdade possível.

Se pudermos assim repensar o museu como grupos menos hierarquizados, mais igualitários de profissionais que possuem diferentes expertises, todos necessários ao seu desenvolvimento e ao da sociedade à qual servem; talvez os possamos posicionar como instituições cada vez mais socialmente relevantes e úteis. Poderão tornar-se os espaços de convivência cada vez mais negados pelas políticas mais autoritárias (outro perigo), onde é possível encontrar-se e trocar livremente ideias, experiências, significados e onde as diferentes identidades possam conviver.

Se tornará então um local onde a tolerância possa ser efetivamente experimentada - não no sentido do termo em português, em que se tolera “apesar de algo” no qual há sempre um ato de condescendência, o que pressupõe uma das partes como moralmente superior, ao aceitar um ônus -, mas no sentido em espanhol, que utiliza a palavra para nomear uma atitude de respeito às ideias e formas de ser de outros, mesmo que delas não se compartilhe [8].

É por isso que, no mundo atual, o museu, a cultura e a educação não são questões importantes, mas imprescindíveis e urgentes.

 


 

[i] Coordenadora do Núcleo de ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo. Presidente do Comitê de Educação e Ação Cultural do ICOM.

[1] Descrição do tema IMD Internacional, tradução em português do original em inglês a disposição no link http://imd.icom.museum/international-museum-day-2019/museums-as-cultural-hubs-the-future-of-tradition/ consultado em 2 de maio de 2019.

[2] VARINE-BOHAN, Hughes de. Museus e Desenvolvimento Social: um balanço crítico. In: Museus como agentes de mudança social e desenvolvimento: propostas e reflexões museológicas / coordenação, Maria Cristina Oliveira Bruno, Katina Regina Felipini Neves. – São Cristóvão: Museu de Arqueologia de Xingó, 2008.

[3] Chamamos de público médio os visitantes dos museus, entre eles, estudantes de escolas públicas, professores, famílias, e visitantes em geral, a maior parte dos quais não tem formação específica na área de atuação do museu. No caso da Pinacoteca, mais de 70% dos visitantes afirmaram que visitaram o museu pela primeira vez em 5 anos (Segundo Relatório Final da pesquisa de Público “Avaliação da Experiência da visita” de dezembro de 2012, realizada pela empresa ADM Museologia e Educação)

[4] Ao comentar a noção de Museu Integral e a necessária transformação das práticas e mentalidades dos profissionais dos museus, o documento da Mesa de Santiago apresenta os seguintes enunciados:
Que esta nova concepção não implica na supressão dos museus atuais, nem na renúncia aos museus especializados, mas que se considera que ela permitirá aos museus se desenvolverem e evoluírem da maneira mais racional e mais lógica, a fim de melhor servir à sociedade; que, em certos casos, a transformação prevista ocorrerá lenta e mesmo experimentalmente, mas que, em outros, ela poderá ser o princípio diretor essencial; Que a transformação das atividades dos museus exige a mudança progressiva da mentalidade dos conservadores e dos responsáveis pelos museus assim como das estruturas das quais eles dependem; que, de outro lado, o museu integral necessitará, a título permanente ou provisório, da ajuda de especialistas de diferentes disciplinas e de especialistas de ciências sociais.”.
Acessível em: https://www.revistamuseu.com.br/site/br/legislacao/museologia/3-1972-icom-mesa-redonda-de-santiago-do-chile.html

[5] Eduardo Restrepo e Axel Rojas explicam que, da mesma forma que é preciso fazer uma distinção analítica entre colonialismo e colonialidade, não se deve também confundir descolonização com decolonialidade. Por descolonização entende-se o processo de superação do colonialismo, geralmente associado às lutas anticoloniais no marco dos Estados que resultaram na independência política das antigas colônias. A decolonialidade refere-se ao processo que busca transcender historicamente a colonialidade e, de acordo com estes autores, supõe um projeto com um projeto mais profundo e uma tarefa urgente para o nosso presente de subversão do padrão de poder colonialhttp://repositorio.unb.br/bitstream/10482/17769/1/2014_AnaCatarinaZemaDeResende.pdf pg. 52 e 53

[6] Mais baixa não no sentido de formação acadêmica ou de capacidade profissional, mas no âmbito das políticas institucionais (e mesmo públicas) concedendo a esses trabalhadores salários menores e posições hierárquicas inferiores, submetendo-os a uma situação de desigualdade.

[7] Sobre esse tema buscar pela ação lançada pelo ICOM em março de 2019 nomeada Gendermainstreaming: ICOM’s mission in the past three decades. E a formação, em 2016, do Gender Equity in Museums Movement
https://icom.museum/en/news/gender-mainstreaming-icoms-mission-in-the-past-three-decades/ 
https://www.genderequitymuseums.com/about-us

[8] Em português: Tolerância é um termo que vem do latim tolerare que significa "suportar" ou "aceitar". A tolerância é o ato de agir com condescendência e aceitação perante algo que não se quer ou que não se pode impedir. A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. https://www.significados.com.br/tolerancia/.
Em outra fonte: 1 Qualidade ou condição de tolerante; cachimônia, paciência. 2 Ato ou efeito de tolerar, de admitir ou de aquiescer: “O desprezo que sentira pelo mulherio, depois do fracasso do movimento de protesto que tentara organizar, agora dava lugar a uma resignada tolerância, à compreensão, e até à simpatia” (MS). 3 Capacidade de suportar dor ou dificuldades http://michaelis.uol.com.br/busca?id=0L5Xn
Enquanto que em espanhol: Tolerancia sustantivo (f) a actitud de la persona que respeta las ideas y forma de ser de otras aunque no las comparta. Debes tener un poco más de tolerancia con tus alumnos.
b capacidad de un organismo para aceptar ciertas sustancias sin sufrir daño, (medicina) Los celíacos no tienen tolerancia al gluten del trigo. https://diccionario.reverso.net/espanol-definiciones/tolerancia


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