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Juliana Monteiro [i]

O ano era 1994. Eu tinha 10 anos de idade e o álbum “Da lama ao caos”, de Chico Science e Nação Zumbi foi lançado, mudando muita coisa no cenário do rock nacional. Na época, eu não entendia muita bem o que estava acontecendo e nem o que era todo aquele auê todo em torno da banda de Pernambuco. Nem entendida o que era o Manguebeat. Dois anos depois, era a vez da banda lançar o disco “Afrociberdelia”, dando mais corpo ainda para um movimento que misturava elementos da música popular, crítica social veemente, referências à ficção científica e rock.

Mas, por que citar Chico Science e Nação Zumbi tantos anos depois? Por uma razão muito simples: com sua proposta sonora, a banda conseguiu criar algo novo ao introduzir no rock, um estilo com fortes raízes estadunidenses e inglesas, características muito próprias. Dessa mistura surgiu algo inovador, próprio, particular, que deu abertura para que muitos outros artistas pudessem ser conhecidos. Era a renovação de uma tradição musical, digamos assim. Hoje, entendo que o que Chico Science e Nação Zumbi conseguiram fazer, correndo o risco de cometer um anacronismo, foi ‘sulear’ o rock´n´roll, ignorando regras e comportamentos esperados em torno do estilo. E uma frase da canção “Da lama ao caos” - “que eu desorganizando posso me organizar” - me faz pensar que tudo isso foi possível porque houve uma desorganização sonora que causou uma nova organização da música popular no Brasil.

Acreditoa ideia de desorganizar para organizar é valiosa para nos fazer pensar a área de museus no Brasil à luz do tema do ICOM em 2019, “Museus como núcleos culturais: o futuro da tradição”. E, em particular, é valiosa para pensar a área de documentação ou gestão de acervos museológicos. Me perdoem o salto de pensamento e a conexão pouco usual, que sai direto do rock brazuca dos anos 1990 e vai parar nas nossas práticas documentais atuais. Mas, me explico a seguir.

A documentação de coleções museológicas éo fazer com o qual atuo há mais de 10 anos. Nessa trajetória, já acompanhei projetos de atualização de inventário, construção e/ou implantação de bases de dados (mais ou menos complexas), reformulação de processos de catalogação, operações de salvaguarda emergencial, museus querendo botar seus acervos no mundo e museus sem saber o que eram suas coleções. Vi coisas darem muito certo e outras tantas darem incrivelmente errado. Tive a chance também de conhecer colegas de outros contextos profissionais e ver que, em muitos casos, nossas questões aqui não estão tão distantes das de museus do hemisfério norte.

Nos últimos tempos, tenho procurado me inteirar da literatura que critica o modo como as coleções de muitos museus no mundo foram documentadas no passado. E, como, a partir disso, é importante iniciar um processo de decolonização desse fazer documental histórico, despindo-o de sua capa de cientificidade neutra. E, nesse decolonizar-se, entender que nas entrelinhas (e para além delas também) estão tendências imperialistas e colonizadoras de interpretação e descrição dos objetos. É o caso de autoras como Hanna Turner, da Universidade de Leicester, que discute, por exemplo, a decolonização da documentação etnográfica do Museu de História Natural do Smithsonian Institute em um dos seus artigos. [1] 

Mas, a pergunta que existe para mim desde que iniciei meu contato com tal literatura é a seguinte: e o que estamos fazendo hoje em termos de documentação? Também não seria a hora de repensarmos nosso pensamento documental dentro da Museologia para incorporar outras formas de fazer, outras vozes, outros pressupostos? Não seria a hora de decolonizar nosso fazer contemporâneo, assumindo nossas especificidades e reorganizando o status quo?

Temos normas importantes, como a SPECTRUM 4.0 e as Categorias de Informação do CIDOC, que nos fornecem uma experiência acumulada de muitos anos da área. Muitos profissionais colaboraram para que tais normas existissem, o que é louvável e fundamental. Nada disso deve ser desperdiçado ou ignorado, claro. Mas, devemos sempre nos lembrar que a maioria das pessoas que tais normas foram formuladas essencialmente por profissionais oriundos do hemisfério norte. E o lugar de fala é, sim, um fator que pesa na hora de entendermos o “ponto de vista” apresentado por tais normas. Então, fico pensando o seguinte: e se pudéssemos ter outras formas de estruturar nossos dados que não partissem, por exemplo, de perguntas clássicas sobre o material, a forma, o modo e a motivação para criação dos itens de nossa cultura material?

Se temos nossas tradições profundamente enraizadas em nossa sociedade e, por consequência, em nossos próprios seres, o que poderíamos fazer com tudo isso se tivéssemos a chance de desorganizar o pensamento documental vigente? Por exemplo, o que aconteceria se antes de sabermos o nome e o número de inventário de um objeto, pudéssemos antes priorizar a identificação de seus valores comunitários? Seriam esses objetos mais fáceis de serem ofertados ao público brasileiro, por exemplo?

E, se ao invés de batalharmos tanto por uma descrição sumária de texto apurado e sintético, pudéssemos registrar também sensações e emoções associados aos objetos conforme relatos de quem os deteve antes dos museus – como nossos avós, tias e tios, mães e pais? Seriam as buscas em catálogos online mais divertidas ou mais ricas aos olhos das pessoas? As ferramentas em si ficariam mais empáticas se se aproximassem mais de uma população que, em sua grande maioria, ainda não faz uso expandido da internet e, logo, conhece pouco ainda de suas facilidades?

E se nossos vocabulários controlados pudessem refletir organizações psico-afetivas de comunidades de origem ou mesmo de pessoas? Poderíamos ter mais gente se identificando mais facilmente com o trabalho museal, por ver ali expressões de seu dia a dia? Ou quais seriam as consequênciasse de fato conhecêssemos nossos públicos e incorporássemos suas sugestões para nossas listas de termos autorizados, aplicando de fato na área de museus a ideia das folksonomias? E se os museus usassem a Wikipédia como uma das suas bases de pesquisa para coleta de termos e busca de novas referências para catalogação? Que mudanças veríamos no ecossistema de autoridades relacionadas à construção de conhecimento?

Nenhuma dessas perguntas têm resposta fácil ou pode ser quiçá de fato respondida ou executada. Contudo, elas existem como provocação latente de um universo que parece se desdobrar na frente de todos que se dedicam à documentação na área de museus. O futuro da tradição da documentação de acervos museológicos, portanto, pode residir na desconstrução para a reestruturação em meio ao caos.

Por isso, tenho comigo que é preciso desorganizar nossas tradições tão calcadas em um fazer documental quase asséptico, fagocitando experiências pregressas e devolvendo ao mundo algo próprio. E partir para algo que tenha a ver com nossas outras visões de mundo – ou, que possa trazer a lógica da documentação para o contexto do Sul e ali fazer ninho. Afinal, temos muito a dizer com a nossa (re)organização das estruturas vigentes. Basta apenas sabermos por onde começar.

 


[i] Museóloga pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Membro da Comissão Editorial da Coleção “Gestão e Documentação de Acervos: textos de referência”, responsável por traduzir e localizar a norma SPECTRUM 4.0 para o contexto brasileiro. Membro também do Comitê para Desenvolvimento de Coleções (COMCOL-ICOM) e coordenadora voluntária de projetos GLAM do Grupo Wiki Educação Brasil. Atua na área de gestão de coleções há 10 anos, com forte ênfase em questões de organização e acesso à informação. Foi museóloga do Museu da Energia de São Paulo (2007-2008); assistente de coordenação da Unidade de Preservação Museológica da Secretaria de Estado da Cultura (2008-2015), onde coordenou o Comitê de Política de Acervo dos Museus. Foi também gestora do Núcleo de Preservação do Museu da Imigração de São Paulo (2015-2016). É professora do curso técnico de Museologia da ETEC Parque da Juventude desde 2010. Presta consultoria para projetos culturais variados como freelancer desde agosto de 2016.

[1] Ver: https://www.academia.edu/14957641/Decolonizing_Ethnographic_Documentation_A_Critical_History_of_the_Early_Museum_Catalogs_at_the_Smithsonians_National_Museum_of_Natural_History. Consultado em: 02/05/2019.


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