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Inês Gouveia [1]

Apresentação

Registro o agradecimento a Revista Museu, aos interlocutores da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro e do Curso de Museologia da Universidade Federal de Santa Catarina.

Dedico este texto ao Museu da Maré (RJ), que celebra seus 13 anos abrindo a Semana Nacional de Museus de 2019 e compartilhando com todos a alegria pela permanência definitiva em sua sede, seu território. Viva o Museu da Maré! Gratidão por seu exemplo de resistência! Marielle vive!

Nas linhas que seguem ensaio uma compreensão sobre como os museus elaboram suas funções e responsabilidades, observando como se colocam em relação ao passado, presente e futuro.

Funções e responsabilidades

O ICOM nos estimula a refletir sobre o caráter transitório do museu, enquanto instituição que age na sociedade e reage as suas transformações. Pela maneira como é permeável à estrutura social, o museu é parte de sua realidade concreta e de modo concomitante, é a sua própria representação. Metaforicamente, ele é aquilo que se coloca em frente ao espelho, enquanto também é a imagem refletida neste espelho. O museu dá evidências do tempo social que o institui e simultaneamente elabora outros tempos, territórios e questões. Seria então o museu, por excelência, o templo do tempo?, provocou o poeta moçambicano Mia Couto. “Não!” conclui ele, argumentando que o museu deve se prestar mais a ser o fórum do tempo. [2] 

Diante destas questões, mais do que repensar as funções que os museus têm cumprido na sociedade, parece ser importante indagarmos que responsabilidades lhes cabem, sobretudo em sua condição de repositório da memória social. Se a memória, patrimônio e cultura são direitos vinculados ao próprio exercício da democracia, que parte no cumprimento desse dever vincula os museus? Os museus têm sido templo do tempo ou fórum do tempo? Já que operam com o tempo, podem os museus se esquivar ou se furtar da tarefa de elaborarem melhores futuros?

Recentemente, realizando visitas técnicas com estudantes de Museologia da UFSC, tivemos a oportunidade de pensar sobre os museus e seus tipos, conforme a relação que estabelecem com o curso do tempo. A partir disto, de leituras e outras visitas técnicas, ensaia-se aqui a descrição de três atitudes que têm correspondência com museus reais: instituições que evocam o passado no presente, reiterando o passado; as que atualizam rapidamente o passado e o presente, com foco no presente e as que elaboram o passado assumidamente à luz do presente, apontando para o futuro.

Museus-presente-passado

São os museus que evocam o objeto pelo seu fetiche enquanto testemunha do passado. O valor a ser preservado é o de antiguidade, combinado com o estético e o exótico. O objeto exibido na exposição reativa o mundo em que estava socialmente inserido, sem que seu contexto seja alvo de reflexão. O tempo não é uma duração, como uma sucessão de acontecimentos encadeados, mas dois instantâneos: o presente do visitante e o passado do objeto. O passado é evocado e (silenciosamente) celebrado, em suas estruturas mais conservadoras. O que se vê? Armas, objetos de tortura, símbolos nazifascistas, símbolos de poder e dominação... Expostos sem que o museu faça um discurso expográfico contundente sobre suas funções, quem os usava, para qual finalidade, seus contextos de violência e sem indagá-los a partir dos direitos humanos. As salas são escuras, os discursos são herméticos. Pede-se ao visitante uma atitude de fé dogmática, afinal, as supostas relíquias são inquestionáveis em sua expressão de objeto verdadeiro. Não há espaço para interpor questões. Estes museus cooperam para frear a transformação social, exaltando um passado através do discurso da conquista, construindo heróis da violência como se esse fosse o caminho do progresso humano. Conservam e reproduzem as condições e estruturas pregressas, colando o passado no presente, sem problematizá-lo.

Museus-presente-presente

Seguindo o mesmo raciocínio, estas são instituições que se dedicam prioritariamente ao presente, relacionadas especialmente ao consumo cultural. Seu principal objetivo é distrair, oferecendo conteúdo de rápida assimilação. O público é o consumidor e o museu é um serviço de entretenimento e lazer. O interlocutor não deve ser importunado com reflexões de grande complexidade, afinal a “vida real” já o impacta com demasiadas notícias e incertezas e este momento é de “distração”. Na exposição, espera-se uma atitude de acordo e aceitação da narrativa. O passado, se evocado, trará a dimensão estética e/ou idílica. Na exposição, seu mérito cênico é sensibilizar, emocionar o visitante. Talvez até se utilize um espelho no final, para que ele mesmo se insira no tema exposto, mas, este tempo é instantâneo e se finda no presente da visita ao museu.

Museu-presente-futuro

São museus que elaboram o passado e o presente, à luz de indagações atuais, assumidamente. Partem de questões que desejam ver alteradas, indicando como esses processos se naturalizaram no tempo e no espaço. Suas exposições visam denunciar (e anunciar), na busca de futuros alterados, no médio e longo prazo. Seus acervos também são utilizados como testemunhos, ainda que o valor em questão não seja a antiguidade, mas sim a vida social dos objetos e o contexto que eles evocam. Sua narrativa é problematizadora, mas também pede acordo. A sensibilização é cotejada com dados e informações objetivas que complexificam a relação do presente com o passado. Os temas não dissimulam os conflitos, ao contrário, revelam suas estruturas. Esses museus afirmam e indagam, pedem e esperam um visitante atento, sensível e crítico. Seu principal objetivo é provocar uma reflexão profunda o suficiente para inserir a pessoa no conjunto de questões que o museu enfoca, com desejo transformar as relações socialmente assimétricas, ampliar os direitos coletivos e recolocar limites éticos.

Para seguir indagando

O tempo foi um mote aqui para transver os museus. Conforme o ICOM afirma, estas instituições têm poder de estabelecer diálogos entre culturas, construir pontes para um mundo pacífico e definir um futuro sustentável. Importa-nos recolocar o tema: o que fazer quando as instituições utilizam esse poder para produzir uma noção hierarquizada entre culturas? Ou, o que fazer quando as instituições dissimulam este poder, condicionando-o à capacidade de consumo de seu público? Por fim: à luz das tensões e conflitos do presente (considerando o triste avanço da extrema direita no mundo), como todos nós no campo museológico podemos contribuir para futuros mais igualitários, democráticos, diversos culturalmente e, nestas condições, pacíficos e sustentáveis? É o que sigo pensando, em diálogo com interlocutores diretos e indiretos.

 


[1] Doutora em Museologia e Patrimônio, mestra em Memória Social, historiadora. Atualmente é docente do Curso de Museologia da Universidade Federal de Santa Catarina.

[2] COUTO, Mia. Os tempos que há no tempo. Conselho Internacional de Museus. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em https://iptv.usp.br/portal/video.action;jsessionid=FA872D8E550499588722B7EE97099F02?idItem=2698


Referências Consultadas

  • FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985.

  • HEITOR, Gleyce Kelly. Museu plebeu: digressões sobre o Museu da Beira da Linha do Coque (Recife-PE). In: SOARES, Bruno Brulon; BROWN, Karen; NAZOR, Olga.. (Org.). Defining museums of the 21st century: plural experiences. 1ed.Paris: ICOM/ICOFOM, 2018, v. 1, p. 99-104. Disponível em http://network.icom.museum/fileadmin/user_upload/minisites/icofom/images/Icofom_mono_Museo_version_numerique_02.pdf. Acesso em 20/03/2019.

  • MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. São Paulo, v. 2, n. 1, p. 9-42, jan. 1994. ISSN 1982-0267. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/anaismp/article/view/5289>. Acesso em: 25 jan. 2018. doi:http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47141994000100002

  • QUEIROZ, Marijara. (Meta)curadoria em processos de museologia social. In: Museologia & Interdisciplinaridade. Brasília: Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, V.5, n.º10, 2016.

  • RÚSSIO, Waldisa. Exposição: texto museológico e o contexto cultural. In: BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Org.). (Org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado: Secretaria de Estado da Cultura, Comitê Brasileiro do ICOM, 2010, Vol.1, pp.137-143.

  • VENANCIO, Alex Rodrigues; GOMES, Joyce Mendes Barros; TEIXEIRA, Sandra Maria de Souza. O museu brasileiro, seus quereres e poderes, para uma improvável definição – o caso do Museu das Remoções. In: SOARES, Bruno Brulon; BROWN, Karen; NAZOR, Olga.. (Org.). Defining museums of the 21st century: plural experiences. 1ed.Paris: ICOM/ICOFOM, 2018, v. 1, p. 105-111. Disponível em http://network.icom.museum/fileadmin/user_upload/minisites/icofom/images/Icofom_mono_Museo_version_numerique_02.pdf> Acesso em 20/03/2019.


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