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Marco Antonio Xavier [1]

Na mesma época que o Museu Casa da Hera abria suas portas para o público em dezembro de 1968, após sofrer restauros e um tratamento museográfico de seu acervo, o país fechava as portas para a democracia e a cidadania com o nefasto AI-5.

Este contraponto é marcante ...

Não há como responder a pergunta “Por que os museus devem existir” sem adicionar “Para quem são os museus”.

A realidade é que o próprio meio museológico não chega a um conceito definitivo; não porque não se tenha discutido incessantemente definições e sentidos que entidades como o ICOM deram (dão) para a palavra “museu”, mas pela própria fluidez do fazer museológico, da sua razão de ser, da sua importância para a sociedade, de suas “metamorfoses ambulantes”. 

De comum, todos os museus deveriam ter três funções básicas: preservar, pesquisar e divulgar. Enquanto há muita discussão acadêmica e técnica sobre como e o que preservar e pesquisar, diálogos necessários e vitais, é na função de “tornar público” estes acervos, e as informações produzidas através deles, que tornam os museus verdadeiras portas destrancadas para o mundo. 

Estas portas não só devem estar acessíveis, mas incentivar que as pessoas busquem o outro lado, democraticamente, sem reforçar juízos de valor ou hierarquização, afastando preconceitos e desconstruindo barreiras.

Talvez, junto com a arte, o sentido de musealizar algo seja uma das expressões mais marcantes da condição humana, do sapiens. Talvez venha daí essa “tradição” quase atávica representada nos museus de arte.

O MCH pretendeu, desde sua abertura, atingir múltiplos públicos: a comunidade vassourense, historiadores e diletantes, românticos apaixonados (pela história de Eufrásia Teixeira Leite), escolares, turistas, pessoas que só querem “dar uma olhada” e outras que escrevem dissertações acadêmicas... 

Para cumprir esta meta (ou missão) há que se desdobrar em outras tantas funções: conservar, catalogar e pesquisar o acervo, proporcionar um espaço para a fruição e o deleite, estimular a reflexão do encadeamento dos fatos históricos e o papel do indivíduo (público), tanto para si como para a sociedade. Devemos levar em conta também (e sempre) os aspectos sociais envolvidos: importância do Museu para a cultura e economia local (não necessariamente relacionadas), a participação de todos os profissionais que trabalham diuturnamente para seu funcionamento, a “construção-reconstrução-desconstrução” de uma memória histórica coletiva e a indispensável sensação de pertencimento.

Juntando tudo isso, no MCH podemos integrar a história do imóvel (uma “chácara urbana” ao redor de um casarão senhorial do séc. XIX) às pessoas que ali viveram por relativamente pouco tempo (três décadas), na figura do patriarca Joaquim José Teixeira Leite, próspero comissário de café, sua esposa Ana Esméria e as filhas Francisca e Eufrásia. Indispensável neste contexto a presença e o trabalho dos negros escravizados e seus descendentes; nomes como Manoel Rebelo, Cecília e Ramiro figuram associados a manutenção da Casa e da Chácara praticamente até que essas fossem legadas em testamento e mesmo ganhassem a alcunha “da Hera” pelas suas mãos.

A particular maneira que a Casa da Hera se manteve praticamente intacta, por um desejo explícito de Eufrásia, sua última proprietária, que faleceu solteira e sem descendentes, faz desta construção um raro exemplar da vida da aristocracia imperial no período áureo da produção de café no Vale do Paraíba Sul Fluminense. Verdadeira “máquina do tempo” que não poderia resultar em outra coisa que um museu-casa, que passou a ser cuidado pelo governo federal logo depois de seu tombamento como Patrimônio Histórico Nacional, em 1952. Hoje o MCH é um dos museus federais ligados, desde 2009, ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), autarquia do Ministério da Cultura.

Os museus, ao contrário do senso comum, não tratam do passado, pois eles não o modificam (apesar de tentativas de “re-criar” os fatos, como nas novas/velhas fake news)... museus tratam do que está por vir, do que pretendemos para nós e para os que vierem depois.

Assim, o MCH, no bojo do PAC – Cidades Históricas, está projetando um futuro onde a preservação de seus acervos museológico, documental, arquitetônico e paisagístico esteja aliada aos aspectos de integração com o público, proporcionando a ampliação de atividades e a melhoria de recursos técnicos e administrativos, possibilitando pelo menos mais meio século de prazer e conhecimento para todos que passem suas portas e portões.

Voltando aos idos de 1968, a função “democrática” dos museus vai muito além de estarem abertos para todos que os procurem; eles devem também entender porque algumas pessoas “não os procuram”, já que são portais de uma cidadania associada a História, a(s) memória(s) e os saberes coletivos.

Desta forma, a hiperconectividade vai muito além do uso de tecnologias digitais, de redes de informação, de inovações em ritmo acelerado, mas saber como aliá-las aos acervos, à presença física, as sensações e aromas, ao contato das pessoas. Museus não são só acervos, mas essencialmente a interação das pessoas consigo mesmas, repensando seu passado, atuando no presente, imaginando um futuro.


[1] Historiador e Diretor do Museu Casa da Hera/Ibram/MinC


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