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o movimento hip hop conectando museus a novos públicos

Vânia Dolores Estevam de Oliveira [1]

O tema escolhido pelo ICOM para as comemorações do Dia Internacional de Museus de 2018 - “Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos” – traz à mente de imediato as novas conexões digitais que a internet propiciou e o uso de novas tecnologias e formatos, tanto para a comunicação quanto para a consecução das demais funções museológicas de pesquisa e preservação. As tecnologias certamente trazem grandes possibilidades de ampliação de alcance e de conquista de novos públicos, sobretudo os mais jovens, apesar dos grandes desafios financeiros e humanos que são postos para sua utilização eficaz e constante (CUNHA, 2012). Contudo, não devemos nos ater ao significado imediato que a palavra hiperconexão induz a pensar. Tecnologias não aproximam os públicos – no plural porque não é de um tipo único - que não conhecem o museu; que não se enxergam nele representados nem veem ali a exposição de suas memórias; que não possuem dinheiro para pagar seu ingresso, caro para a realidade brasileira. Há até instituições privadas que não oferecem o dia de gratuidade que é comum oferecer-se e que, muitas vezes, são beneficiárias dos editais de fomento financiados pelo dinheiro público, em última análise. Não é possível falar em museus hiperconectados, quando estes não cumprem sua função social de participação nas questões da vida das cidades que os cercam, virando as costas e fechando seus espaços para novos grupos sociais urbanos e suas demandas e necessidades. 

Para falar de outras conexões possíveis trago aqui uma experiência recente que teve origem em outubro de 2016. Nesse ano ocorreram ocupações em diversos espaços da Universidade Federal de Goiás, em oposição às decisões decorrentes do golpe de estado que destituiu a presidenta eleita Dilma Roussef. Dentre os estudantes que ocupavam o Museu Antropológico da UFG (doravante denominado apenas Museu neste texto) havia dois participantes do movimento Hip Hop.

Em maio de 2017, por ocasião da XV Semana Nacional de Museus, em comemoração ao 18 de maio, o Dia Internacional de Museus, a Coordenação de Intercâmbio Cultural do Museu, responsável pela organização da programação, convidou os participantes da ocupação para falar sobre o Museu” na mesa redonda “Ocupe seu Museu”, que abriu os eventos da Semana, em conformidade com a temática escolhida pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) para aquele ano: “Museus e historias controversas: dizer o indizível nos museus”. Ao final da apresentação esses convidados fizeram uma apresentação de algumas canções de rap, com uma curta batalha do conhecimento (competição de rimas improvisadas entre músicos do rap).

Wilton Escafandrista, um dos palestrantes e produtor cultural,propôs a realização de uma batalha do conhecimento no espaço externo do Museu, o que foi imediatamente aceito. A Batalha realizou-se no dia 16 de junho de 2017, numa sexta feira à noite, horário em que o Museu não está aberto ao público, reunindo cerca de 300 pessoas.

Houve um estranhamento por parte da equipe, pouco afeita a solicitações e eventos desse gênero, onde costuma haver uso de bebidas alcoólicas, consumo de drogas ilícitas e excessos nas condutas sociais, sobretudo sexuais. Houve até situações em que os jovens colocavam em risco a própria segurança, subindo em parapeitos e locais arriscados.

Imediatamente o caso foi levado ao Conselho Diretor do Museu, composto por docentes de diversas unidades acadêmicas da UFG, incluindo dois representantes do bacharelado em Museologia, pelos coordenadores das diversas áreas do Museu, e por dois representantes dos estudantes e estagiários da instituição. A despeito das apreensões da equipe responsável com a segurança e preservação do acervo, e da direção, preocupada com a integridade física dos jovens envolvidos, votou-se pela continuidade do evento. O argumento pela continuidade – que foi defendido no Conselho veio pela necessidade de alinhar o discurso teórico museológico atual com a prática museal. Além disso, não é gentil abrir os espaços apenas quando é da conveniência e vontade do Museu, ocasião em que os integrantes do movimento são sempre muito receptivos.

Evidentemente, o Conselho sugeriu que fossem tomadas algumas medidas de proteção do acervo sob a guarda do Museu e das pessoas presentes, em negociação conjunta de normas e limites com os organizadores do evento: possibilidade de visitas mediadas especialmente para os participantes antes das batalhas, fechamento dos acessos à parte interna do Museu após o início do evento, proibição de entrada de bebidas alcoólicas e liberação para uso apenas dos banheiros externos.

Com a sua continuidade aprovada pelo Conselho Diretor, o evento aconteceu mais uma vez, no dia 25 de agosto de 2017, com grande sucesso de público e sem maiores incidentes (chegou a contar com 150 pessoas).

Em novembro de 2017 a realização das batalhas foi interrompida, após acontecimento trágico envolvendo uma festa organizada por estudantes em outras dependências da Universidade. Com o assassinato de um jovem durante a festa, a reitoria baixou a Resolução nº 40 do Conselho Universitário que “dispõe sobre a regulamentação do uso de espaços da UFG para a realização de atividades festivas, de lazer, culturais e eventos de maior porte”. A Resolução não chegou a proibir eventos nas áreas da UFG mas estabeleceu muitos limites e formalidades burocráticas para sua realização, justificando assim a interrupção das Batalhas.

Passados alguns meses, na reunião do Conselho Diretor do Museu do dia 30 de abril de 2018 decidiu-se que as batalhas do conhecimento seriam retomadas, tendo sido realizada a última no dia 3 de maio. Antes da Batalha, foi realizada uma Oficina de Poesia, onde os rappers presentes enfatizaram a importância da escrita, sobretudo poética, e da leitura, tanto para a aquisição de mais vocabulário para o improviso das batalhas, quanto para a aquisição de conhecimento, como forma de libertação.

Em um país em que apenas uma pequena parcela da população tem hábitos espontâneos de leitura, é muito promissor ver que há jovens estimulando o hábito de ler para a aquisição de conhecimentos e para a tomada de consciência e libertação de um povo. Após a Oficina, a Batalha transcorreu em um clima bastante tranquilo, contou com a presença de aproximadamente 80 pessoas, entre elas uma criança e um bebê de colo, sem qualquer incidente de proporções e/ou repercussões negativas. O intento agora é a realização mensal das batalhas do conhecimento.

O Museu Antropológico da UFG segue vivo – e viver é arriscar-se. Localizado de frente para a Praça Universitária, na região central da cidade de Goiânia, posta-se assim de frente também para a arte, para os problemas de uso de drogas e de violência que ali se manifestam mas também para a necessidade de espaços gratuitos para expressões artísticas urbanas, além da possibilidade de lazer e sociabilidades, tão carentes em Goiânia. O Museu mantém-se assim, hiperconectado com as denúncias e demandas sociais da juventude ligada ao movimento hip hop, envolvido em suas discussões ena busca compartilhada por soluções. 


[1] Museóloga e professora do Bacharelado em Museologia e do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Performances Culturais da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

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