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Pedro Paulo A. Funari [1]

Os museus surgidos na modernidade, no contexto dos nascentes estados nacionais, estiveram, desde o início, associados ao avanço tecnológico do capitalismo e da indústria. As coleções anteriores, aristocráticas e de acesso limitado, tornavam-se públicas e passaram a visar a conquista de cada vez mais pessoas. O turismo de massa, também resultante da aceleração dos transportes e da ampliação das classes médias, levou a uma multiplicação exponencial da visitação dos museus no século XX. Ao final do século, pouco antes da generalização da comunicação numérica ou virtual, os museus passaram a ser frequentados por verdadeiras multidões. Já nessa altura, introduziram-se recursos cibernéticos, como reconstruções e maquetes em tela, de acesso local.

A ampliação da internet deu-se apenas a partir da última década do século XX e a aceleração tecnológica permitiu um aumento exponencial do espaço virtual. A progressão de usuários foi de 0,4 % da população mundial, em 1995, para 54,4% em 2017. A hiperconectividade, em só vinte anos, passou de irrisória a majoritária! Isso acarretou uma série de mudanças comportamentais, em particular no que se refere à expectativa de acesso das pessoas a tudo, inclusive aos museus. Isso é o resultado das práticas de outras instituições, públicas ou privadas, ao estabeleceram políticas de amplo acesso a informações. As bibliotecas passaram a possuir grande parte do acervo disponível on-line, muitas revistas científicas tornaram-se de livre acesso, muitos jornais e revistas fizeram o mesmo com os seus acervos. Em poucos anos, quase tudo, texto, imagem ou som, passou a estar disponível, de graça ou a pagamento, on-line.

Os museus não deixaram de ser afetados por essas mudanças vertiginosas. Parte do acervo tem sido colocado on-line, com foto e, às vezes, informações adicionais. Mesmo quando são numerosas, uma imensa maioria de peças da Reserva Técnica, não está disponível. Tendo em vista as possibilidades técnicas, muitas outras ações podem ser permitidas à distância, como a reprodução holográfica, algo que pode ser de especial utilidade para os estudiosos. Para o público leigo, o acesso parcial representa já uma revolução, ao permitir que pessoas que nunca teriam condições de visitar um museu em particular, pela distância, condições econômicas e outras limitações. Mais de quatro bilhões de pessoas podem, dessa forma, ter acesso ao que apenas algumas centenas de milhões de pessoas têm a possibilidade.

Os museus estão, pois, diante de uma mudança rápida e que se acelera das suas condições de existência. Desde os inícios, a visita às instalações físicas, tanto para estudiosos como para o público em geral, esteve e está no centro da atividade dessas instituições. Isso continua mais válido para os museus do que para outras instituições contemporâneas, criadas como parte do arsenal do estado nacional, como os arquivos e bibliotecas, que formavam uma tríade (Arquivos, Bibliotecas e Museus). Isso se deve a diversos fatores, mas talvez determinante seja que os arquivos e bibliotecas são, por definição, voltados para estudiosos. Não há fila turística para entrar nessas instituições, mas isso pode ocorrer com os museus, em particular aqueles mais paradigmáticos, simbólicos da nação, do seu prestígio e riqueza, como o Louvre e o Museu Britânico, ou de instituições, como os Museus Vaticanos ou o Metropolitan. Mas, a imensa maioria não está nos percursos turísticos.

Os desafios da hiperconexão são, assim, diferentes para esses diversos tipos de instituições museológicas. Para aqueles que vivem de visitações rentáveis, a necessidade de manter a aura da proximidade do original pode tender a acentuar-se. Para todos, a possibilidade de acesso virtual abre novas formas de gestão, com ênfase crescente no serviço à distância. Arquivos e bibliotecas avançaram muito nesse aspecto, de modo que tudo o que está liberado de direitos está, a cada dia, mais disponível. No caso dos museus, para além da questão dos direitos, já em si complexos, há as sutilezas da materialidade, bem mais profundas do que a reprodução de conteúdo em duas dimensões. Os museus acolhem objetos tridimensionais, cuja materialidade compreende, ainda, aspectos como peso, dimensão real e localização concreta no espaço, entre outros, que nem mesmo a holografia consegue sanar de maneira completa, quando se tenta transpor à distância.

Há, pois, desafios técnicos que ainda não foram superados de maneira integral. Mesmo assim, a supremacia da hiperconexão representa uma mudança epistemológica e pragmática particular para os museus e para os que aí militam. Se o mundo caminha a passos acelerados para a hiperconexão, como lidar com a materialidade de acervos e exposições? Essa é uma questão de fundo que afeta todas as atividades humanas, mas de maneira mais aguda tudo que se refere à materialidade. Por um lado, isso constitui uma particularidade única e, até o momento, insubstituível. Por outro, a crescente atração pela virtualidade pode diminuir (ou não) o apelo e interesse pelo contato direto permitido pelos museus. Esses desafios são também oportunidades, na medida em que as necessidades e anseios humanos não se resumem a soluções tecnológicas e abrem-se, assim, novos caminhos e possibilidades. O que seria mais estimulante? 


[1] Professor Titular do Departamento de História, IFCH, Unicamp, pesquisador de produtividade do CNPq.


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