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Luiz Henrique Assis Garcia [1] 

Neste Dia Internacional dos Museus o ICOM propôs o tema “Museus hiperconectados: Novas abordagens, novos públicos”. Fiquei particularmente movido pela atenção guardada no texto da proposição em não resumir as conexões ao elemento digital. A ênfase recai, desse modo, nas transformações sobre o trabalho da museologia e dos museus, uma vez que para “(...) engajar esses novos públicos e fortalecer suas conexões com eles, os museus devem encontrar novas formas de interpretar e apresentar seus coleções”. Num dos tremendos paradoxos que constituem o mundo ‘hiper’ em que vivemos, as ferramentas que permitem comunicação instantânea e contatos imediatos, estão longe de garantir a densidade das conexões no plano da sociabilidade e da cultura. Sem desconhecer que as formas efêmeras, evanescentes, são próprias de nossos modos de existência, a expressão ‘hiper’ convida a uma reflexão sobre os critérios a partir dos quais medimos a intensidade do que fazemos. Penso, resumidamente, que nem velocidade nem quantidade dão a melhor medida do que seria uma hiperconexão. Pode ser mais proveitoso considerar a densidade dessa conexão, sua multilateralidade, sua fertilidade, sua relevância para aqueles que dela participam, dentre outros critérios que poderiam ser elencados. Sou assim conduzido a me posicionar, como professor e pesquisador, dentro desse problema que coloco. Onde me situo, portanto, nesse emaranhado? Peço que não confundam o exame a que procedo com algum tipo de ego trip. Motiva-me o desafio de pensar as conexões entre o plano da trajetória individual, o da atuação institucional e da relação com as pessoas, nos espaços públicos em que fui levado a encontrá-las, como forma bastante concreta de promover uma reflexão sobre as conexões e como os museus devem realizá-las. A dimensão transformadora da pesquisa se revela quando aprendemos “(...) os significados sociais dos lugares históricos através da sua discussão com as audiências urbanas (...)” (HAYDEN, 1996, p.13).

Meu trabalho como pesquisador sempre tomou a cidade como o ponto de interseção entre os vários interesses que movem minha curiosidade e me engajam. Quando assumi a função de coordenador de pesquisa do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), de Belo Horizonte, em 2002, foi natural aprofundar essa disposição, partindo do entendimento já estabelecido dentro da instituição que um museu histórico de cidade toma o espaço urbano enquanto artefato, produto e vetor de relações sociais (Meneses,1985). Tal proposição norteou toda uma série de atividades desenvolvidas pelo setor de pesquisa, que redundaram em exposições, catálogos, cadernos e outras produções textuais, e também orientaram minha atuação como membro da Comissão Permanente de Política de Acervo do MHAB. Se pudesse sintetizá-las num mesmo princípio metodológico, diria que foram todas pensadas como forma de levar o museu à cidade e trazer a cidade ao museu, sempre pensando essa conexão como via de mão dupla. Destacarei aqui duas frentes de trabalho que se mostraram bem sucedidas na realização de tal propósito. A primeira é a que envolveu a lida com o público para compor o acervo de exposições realizadas nas dependências do museu, e a segunda os trabalhos no próprio tecido urbano que denominei intervenções museais (GARCIA, 2009).

Desde a primeira exposição em que me envolvi na função de coordenador, e muitas vezes também como curador, acreditei que era importante um maior envolvimento com o público que seria interpelado pela instituição a partir da pesquisa. Isso cobriu um amplo espectro que foi das conversas informais, entrevistas temáticas registradas, consulta a arquivos privados, cessão de acervo por empréstimo, e eventualmente algumas incorporações por doação. Tivemos clareza, como equipe, que o acervo da instituição, mesmo apoiado pelo que pudéssemos conseguir em repositórios públicos e instituições congêneres, não era suficiente para contar as histórias que encontrávamos. Era preciso ir a campo e fazer contato com indivíduos e suas trajetórias ímpares. E estabelecer um diálogo que fosse além da operacionalização dos empréstimos de acervos e assinaturas de termos, capturando em áudio e texto as vozes, que incorporadas na narrativa expográfica falariam, com força simbólica e material, com timbre, tom, vocabulário, intenção, daquilo que estava guardado como pedaço das histórias a serem contadas. Descobrimos ainda que revelar os limites do acervo que o museu guarda não lhe diminui o valor. Ao colocá-lo em diálogo, na exposição, no catálogo, nas ações educativas, multiplicam-se suas possibilidades de significação, e, por consequência, o conhecimento que podemos produzir com ele se amplia. Tratar esse público como colaborador mais que mero informante também reverbera em disposição para que se engaje mais na instituição e sinta-se parte do processo, podendo resultar ainda em incorporação de acervos e outras formas de participação (GARCIA, 2010).

Já apresentei em trabalho anterior um detalhamento sobre o embasamento e a realização das ações que denominei intervenções museais no espaço urbano em Belo Horizonte (GARCIA, 2009; GARCIA, 2013). De forma sintética, a proposta consistia em implantar em “lugares” (um conceito fundamental) de grande circulação que constituem referência para habitantes de Belo Horizonte, como a Praça Sete e o Parque Fazenda Lagoa do Nado (sobre este projeto, especificamente, há um estudo mais detalhado em GARCIA, 2013), expositores em aço e vidro com base de concreto, posicionados de forma a configurar o sentido narrativo elaborado, e contendo painéis plotados em que o material pesquisado era exposto. Isso era feito após exaustivos “trabalhos de campo que visaram promover o envolvimento dos cidadãos na investigação dos registros materiais e simbólicos da história da cidade” (GARCIA, 2009, p. 65), realizando entrevistas, conhecendo acervos particulares, conduzindo investigações em arquivos privados e públicos e registrando em aparatos digitais as formas de apropriação do espaço por seus frequentadores. Desse modo:

as intervenções museais dialogam com o próprio espaço urbano em que são instaladas, possibilitando a reflexão sobre os significados atribuídos e ações protagonizadas, de modo a articular a produção de memória e sentido às práticas e relações dos grupos sociais no contexto da cidade” (GARCIA, 2009, p.70)

Ressalto assim que apenas com esse nível de engajamento dos frequentadores é possível que a narrativa da exposição descortine “(...) o significado da construção coletiva da cidade a partir da leitura crítica de sua história e seu patrimônio” (GARCIA, 2013, p. 102). Nas pesquisas posteriores que desenvolvi, a partir de meu desligamento do MHAB em 2009, e ingresso na Univale e logo a seguir na UFMG em outubro de 2010, o conceito de ‘lugar’, ferramenta muito útil na compreensão das relações entre pessoas e espaços, continuou no centro das minhas investigações sobre museus, patrimônio urbano e cultura. Investiguei especialmente o diálogo entre os museus, o patrimônio cultural, o espaço urbano e o citadino a partir dos lugares associados à música popular (GARCIA 2012; GARCIA; PARANHOS, 2016; GARCIA, 2017), às praças (GARCIA; RODRIGUES, 2016) e às paisagens (GARCIA, 2015; GARCIA; MACIEL, 2017). Atuando na graduação em museologia, sobretudo nas discussões teóricas e atividades práticas da disciplina Função social dos museus, que já venho lecionando há alguns anos, orientei junto aos estudantes vários trabalhos cujo objetivo era intensificar as conexões do público com os museus. Muitos foram transformados em postagens do meu blog Metamuseu [ http://metamuseuufmg.blogspot.com.br/ ], que mantenho desde 2013. Na medida do possível os resultados destas atividades vão sendo comunicados à comunidade acadêmica e ao público em geral.

Nestes e noutros trabalhos venho reforçando minha convicção de que a museologia deve investigar a fundo a atribuição de sentido, não apenas a considerada no momento em que um dado objeto foi deslocado de seu uso corrente em decorrência da musealização, mas igualmente as que a precedem e também as que lhe são posteriores, quando o mesmo já se encontra inserido no contexto museológico. Reconhecer o público como sujeito que atribui sentido é a premissa para interpelá-lo não como espectador, mas colaborador de instituições museais e seus projetos. Nesse sentido, o domínio das tecnologias poderá efetivamente ser útil para promover hiperconexões, mas sobretudo o será na medida em os profissionais atuando no campo da museologia e da cultura estiverem preparados para fazê-lo a partir da compreensão das relações humanas que definem o modo como as conexões se realizam.


[1] Professor. ECI/UFMG.

Referências

  • GARCIA, Luiz Henrique A. 2009. “O lugar da História: intervenções museais no espaço urbano em Belo Horizonte” In: Anais da VII Semana dos Museus USP, São Paulo, p.62-70.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico. Cadernos de Pesquisa do CDHIS (Online), v. 23, p. 21-37, 2010.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Patrimônio urbano e música popular: narrativas plurais na cidade e no museu. In: IV SIAM (Seminário de Pesquisa em Museologia dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola) / 21° ICOFOM LAM, 2012, Petrópolis. Anais... Rio de Janeiro: MAST/UFRJ, 2012. v. 1. p. 309-322.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Intervenção museal no espaço urbano: história, cultura e cidadania no Parque "Lagoa do Nado". História . 2013, vol.32, n.2, p.87-104.
  • GARCIA, Luiz Henrique A.. Tempo e memória na cidade. In: Guilherme Maciel Araújo. (Org.). A casa em debate. 1ed. Belo Horizonte: Fundação Municipal de Cultura, 2015, v. 2, p. 45-52.
  • GARCIA, Luiz Henrique A. Há lugares que eu me lembro: encenando o espaço urbano na exposição permanente do museu The Beatles Story. In: II Seminário Brasileiro de Museologia, 2016. Anais... Recife: MUHNE/Fundaj, 2017. v. 1. p. 1-16.
  • GARCIA, Luiz Henrique A.; PARANHOS, Julianne. O Museu Clube da Esquina e os lugares da cidade: breve reflexão sobre ações museológicas no espaço urbano. Museologia e Patrimônio, v. 9, p. 134-152, 2016.
  • GARCIA, Luiz Henrique A.; RODRIGUES, Rita. L. O Tempo, a Carne e a Pedra: Reflexões sobre o patrimônio em Belo Horizonte. In: Regina Helena Alves da Silva; Paula Ziviani. (Org.). Cidade e Cultura: rebatimentos no espaço público. 1ed.Belo Horizonte: Autêntica, 2016, v. 1, p. 234-252.
  • GARCIA, Luiz Henrique A.; MACIEL, Rosilene. Paisagem, identidade, museus e patrimônio cultural. In: Oliveira, Márcio; Custódio, Marluce; Lima, Carolina. (Org.). Direito e paisagem: a afirmação de um direito fundamental, individual e difuso. 1ed. Belo Horizonte: D'Plácido, 2017, v. 1, p. 153-178.
  • HAYDEN, Dolores. The power of place: urban landscapes as public history. Cambridge, Massachusetts: The MIT press, 1996.
  • MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. 1985. “O museu na cidade x a cidade no museu. Para uma abordagem histórica dos museus de cidade”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 5, n. 8/9, p. 197-206.

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