slide 18maio2018 700

Juliana Monteiro [1] 

Mutação. substantivo feminino.
2. tendência, facilidade para mudar de ideia, opinião, atitude etc.; inconstância, mutabilidade, volubilidade

Quando me vi diante da nova oportunidade de contribuir com um artigo para a edição do dia 18 de maio da Revista Museu, pensei longamente sobre qual caminho tomar para falar dos museus hiperconectados.

A primeira ideia que tive foi de abordar o tema pela ótica do impacto das tecnologias digitais no dia a dia das instituições e como isso tem transformado seu papel e sua relação com os diferentes públicos. É uma ideia que, por si só, é bastante conhecida e debatida dentro e fora do ICOM.

Porém, conforme fui me debruçando um pouco mais sobre o assunto, meu desejo foi de poder explorar o tema para além de questões do impacto. Depois de alguns dias daquele famoso vazio pouco inspirado, e após verificar que a trilha mais óbvia não era mesmo a que eu queria seguir logo de cara, eis que uma questão se colocou para mim: quando falamos em museus hiperconectados, estamos falando do que exatamente? O que faz um museu se tornar ou se assumir hiperconectado?

Estaríamos falando do museu que busca diferentes formas de comunicar sua programação e seu acervo por meio de ferramentas digitais? Seria o museu que manifesta publicamente, por meio de redes sociais, seu pensamento a respeito de acontecimentos do nosso tempo, compartilhando, assim, um pouco da sua visão de mundo? Seriam os museus profundamente conectados com seus públicos locais, buscando, por meio dessa relação, construir um diálogo igualitário entre todas as partes envolvidas? Talvez não haja resposta certa ou errada a essas indagações e todos estes museus sejam, à sua maneira, hiperconectados. Porém, cabe aqui apontar uma dimensão comum entre todas as variações: a capacidade de mudar, de abraçar ideias novas e de fazer algo concreto a partir disso.

A mutação, nesse sentido, é relativa menos ao uso de uma tecnologia ou metodologia X ou Y, e mais à incorporação de novos modos de pensar e de agir. Entendo, portanto, que um museu hiperconectado é fundamentalmente um museu capaz de fazer novas conexões com suas coleções e seus públicos, usando ou não ferramentas eletrônicas. Posso dizer ainda que, um museu hiperconectado, é aquele que consegue aproveitar os ventos da mudança para rever suas posturas, suas visões e, principalmente, o modo como se relaciona com as pessoas.

Tal relação me faz lembrar de uma frase que escutei no ano passado, durante a Conferência Anual do COMCOL-ICOM – Comitê para Desenvolvimento de Coleções do Conselho Internacional de Museus: os museus precisam mais das pessoas do que as pessoas precisam dos museus. Considerando a realidade brasileira, onde dados – ainda que antigos – do IBGE demonstram que temos um percentual de 92% da população que nunca visitou uma instituição museológica, a frase faz mais sentido ainda. O que isso nos leva a pensar? Que os museus, em pleno século XXI, precisam aprender cada vez mais a entender (e a participar) dos fluxos da contemporaneidade, lidando com sua liquidez ou com suas tendências, sejam elas efêmeras ou não. No fim, fica a consideração de que as pessoas estão mudando, assim como seus hábitos, suas formas de interpretar o mundo ao redor, e os museus precisam – se quiserem fazer sentido – estar atentos e conectados a isso.

Mas cabe aqui um esclarecimento: quando penso em “museus mutantes”, penso sobretudo nas pessoas que atuam neles. Afinal, museus, como já dito, precisam de pessoas e isso se estende aos seus bastidores. O famoso e ainda assim tão pouco investigado “público interno” é justamente onde a real mutação precisa acontecer.

Os profissionais de museus, em minha opinião, precisam se adaptar ao mundo que os cerca. E isso, claro, depende dos cursos de formação e dos ambientes organizacionais onde atuam. Mas depende também de uma predisposição pessoal para abraçar tais movimentos de mudança.

Para tornar tal fala mais clara, uso aqui o exemplo do envolvimento de instituições culturais com a Wikipédia, com vistas a disponibilizar imagens das suas coleções para ilustrar artigos na maior enciclopédia online do mundo. Muitas instituições – por meio de seus profissionais, é claro – declaram que, além de questões de falta de infraestrutura e de uma política externa que as incentive na direção da ampla e livre divulgação dos acervos, também possuem medo. Medo do que?, podemos pensar.

Primeiramente, medo de perder o controle sobre a qualidade da informação amplamente disponibilizada, medo de expor falhas e, com isso, “manchar” a imagem da instituição como algo detentor de um saber acurado. E aqui vemos a força de uma tradição que nos conduz, enquanto trabalhadores de museus, a perpetuar, ainda que inconscientemente, a percepção do museu como um detentor da verdade absoluta e que está acima das falhas. Ou ainda a visão do museu como algo que não pode e nem deve se envolver demais com agendas contemporâneas devido ao risco de desagradar a alguém.

Pois bem, acredito que museus vão sempre desagradar a alguém. Por motivos louváveis e outros nem tanto. E museus não detêm, nem que queiram, poder absoluto sobre tudo que produzem e conceituam. Afinal, as tecnologias digitais podem ser usadas para diferentes fins, incluindo aqueles com os quais não concordamos de imediato ou nunca. Logo, não há segurança ou controle absolutos na era do domínio digital.

Nesse sentido, os profissionais de museus podem eventualmente lidar com isso de duas formas: ou se recusam a aceitar tal cenário e continuam a reproduzir posturas e comportamentos que pouco favorecem à revisão do papel do museu na contemporaneidade ou abraçam o novo cenário, com seus riscos e potencialidades, e tentam fazer disso o melhor possível. E, claro, participam do movimento de pressão para que consigam ter maior incentivo por parte de suas próprias instituições e governos para alterar cenários de fragilidade. Afinal, nós somos agentes de mudança tanto quanto nossas instituições.

Penso que o museu mutante é aquele que consegue dialogar, de fato, com seus diferentes públicos – incluindo o interno. Em outras palavras, é aquele museu que consegue, com que seus posicionamentos e ativismo, se fazer mutante não só da rede social para fora, mas sobretudo da rede social para dentro. Este é o museu que todos desejamos e pelo qual lutamos para que um dia se torne possível. 


[1] Museóloga pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Membro da Comissão Editorial da Coleção “Gestão e Documentação de Acervos: textos de referência”, responsável por traduzir e localizar a norma SPECTRUM 4.0 para o contexto brasileiro. Membro também do Comitê para Desenvolvimento de Coleções (COMCOL-ICOM) e coordenadora voluntária de projetos GLAM do Grupo Wiki Educação Brasil. Atua na área de gestão de coleções há 10 anos, com forte ênfase em questões de organização e acesso à informação. Foi museóloga do Museu da Energia de São Paulo (2007-2008); assistente de coordenação da Unidade de Preservação Museológica da Secretaria de Estado da Cultura (2008-2015), onde coordenou o Comitê de Política de Acervo dos Museus. Foi também gestora do Núcleo de Preservação do Museu da Imigração de São Paulo (2015-2016). É professora do curso técnico de Museologia da ETEC Parque da Juventude desde 2010. Presta consultoria para projetos culturais variados como freelancer desde agosto de 2016.


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31