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José Claudio de Oliveira [i] 

Uma questão que se coloca hoje, quando falamos patrimônio cultural e memória social, é como a Internet é usada pelos museus. Mais do que um veículo de comunicação, a Internet permite uma interação mais universal com o público. Além do uso como uma ferramenta de marketing, mencionada por Lévy nos primórdios da web, na década de 1990, a Internet possibilita a montagem de redes de conexão entre várias instituições afins e com objetivos convergentes. Este uso pode ser feito através das redes sociais, dos websites e do ainda existente email

Em 1994, Fátima Cofan Feijóo da Universidad Complutense de Madrid já fazia um alerta na revista de Museologia aos profissionais dos museus, afirmando que a Internet “afectará las relaciones entre los profesionales del museo, por lo que debería existir una estrecha colaboración entre los museos con funciones similares, manteniendo lazos comunes mediante las discusiones on-line de los miembros y colaboradores para mejorar el producto de su trabajo” [1]. (COFAN FEIJOO, 1994, p. 35)

É desse ponto que reservo criticamente a questão do conteúdo dos acervos dos museus no ciberespaço e em outras formas de conectividade que a meu ver ainda são pífias em se tratando de informação de conteúdo sobre patrimônio e memória.

Em 2004 os museus estavam carentes de informação dos seus bancos de dados sobre os seus objetos expostos na web; como também o baixo nível das informações sobre a completude das suas coleções, insuficientes para pesquisadores de nível superior. E ainda hoje esse problema persiste, sabendo que os caminhos do ciberespaço não se reduzem à web.

Outras formas de uso da tecnologia e da Internet pelos museus, hoje, são feitas de maneiras colaborativas e interativa, como no Google Art and Culture, quando instituições e pessoas comuns participam com conteúdos específicos, criando exposições permanentes na Internet; nos Apps Android e iOS com centenas de museus apresentando os seus acervos e exposições; nos formatos de compartilhamento com os Tagpoints; e na realidade aumentada com a interação 3D. O resultado de tudo isso é um leque aberto para expografias multifacetadas de questões culturais e patrimoniais de vários museus e coleções do mundo. Mas ainda carentes de conteúdo dos sistemas de documentação.

Quando a palavra é informação (de conteúdo), infelizmente, a maioria dos museus ainda não viu a potencialidade de utilizar as TICs e a Internet para a colaboração multi-institucional e de interatividade virtual. Para a grande maioria das instituições, a Internet serve apenas como um grande painel para afixar suas informações institucionais e mencionar o que há nos seus acervos, e não como uma ferramenta de troca e entrelaçamento de referências patrimoniais. E no quesito realidade virtual, ainda se prende no “deslumbre” da interatividade com os objetos e a obra, onde a infocomunicação é reduzida apenas a aproximação daquilo que é exposto ao corpo do espectador.

O advento da cibercultura, na década de 1990, provocou uma mudança radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si. Pierre Lévy (1999) defendia uma inter-relação muito próxima entre subjetividade e tecnologia. Esta influencia aquela de forma determinante, na medida em que fornece referenciais que modelam nossa forma de representar e interagir com o mundo.

Através do conceito de "tecnologia intelectual", o autor supracitado discorre sobre como a tecnologia afeta o registro da memória coletiva e social. O que se compreende é que as noções de tempo e espaço das sociedades humanas são afetadas pelas diferentes formas através das quais esse registro é realizado.

Hoje em dia, nos smartphones e computadores on-line, o patrimônio cultural e o patrimônio que antecede a história humana – os acervos paleontológicos da era jurássica – são fontes de investigação no ciberespaço. Porém, há um grande detalhe a se perceber: o da informação. Não da informação da instituição museu, que deveras existe nos portais, mas da informação do objeto, seja ele uma Vênus de pedra, seja uma ossada de um tiranossauro. Essa informação ainda é insipiente. Não chega à mobilidade, não cria a interface com o presencial em sua totalidade, quiçá em 50% do que tem o museu presencial a oferecer. Nos tags, ela é reduzida somente para o momento expositivo do objeto, termina ali na sala expográfica.

Falamos aqui da memória e do patrimônio cultural para dizermos que não basta a tecnologia de ponta, com lindos sites ou Appsmuseum, com realidade aumentada ou tagpoints nas mãos de qualquer pessoa. Falamos do conteúdo, algo que notabilize o acervo, algo que vai além do aparelho, da rede ou das cores das homes e avanços dos softwares.

Falamos do documento, das produções sobre ele, daquilo que realmente pode proporcionar ao observador. De informações capazes de legar alto conteúdo sobre o objeto museológico. Algo além das exposições. Falamos da imersão do observador no banco de dados iconográfico e textual do museu, fruto de um sistema de documentação museológico atualizado, mas ainda tímido nas suas dimensões digitais. 


[i] Doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Brasil. Pós-doutorado em Comunicação e Tecnologias, pela UMinho, Portugal. (FAPESB BOL2757/2012, CAPES BEX18009/12-3). Professor Associado II do Departamento de Museologia da UFBA. Coordena o Núcleo de Pesquisa dos Ex-votos e o Projeto Ex-votos do México (CNPq). Professor permanente dos Programas de pós-graduação em Museologia (PPGMUSEU), e Ciência da Informação (PPGCI) da UFBA.

[1] Tradução livre: “A Internet afetará as relações entre os profissionais do museu, pelo que deveria existir uma estreita colaboração entre os museus com funções similares, mantendo laços comuns mediante as discussões on-line dos membros e colaboradores para melhorar o produto do seu trabalho”.

Referências

  • COFAN FEIJOO, Fatima. La Revolucion informática: como los avances tecnológicos estan cambiando los Museos. In: Revista de Museología, n. 3, Octubre-Diciembre, 1994. p. 32-41.
  • LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: 34, 1999a. p.
  • ¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬______. As tecnologias da inteligência. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: 34. 1999b. 203 p.
    145-155
  • Google Art and Culture. In: https://artsandculture.google.com . Acesso em 08 de maio de 2018

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