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Carlos Jotta [1]

Os museus falam. Sempre falaram. A comunicação é um dos preceitos básicos da existência dos museus contemporâneos. Ao longo dos anos, as instituições, que preservam a memória de um povo, pesquisam e comunicam o seu conhecimento, necessitaram rever a forma de se conectar com o público visitante e a população ao seu entorno. O modo de se comunicar e o público para o qual a instituição se dirige evoluíram, trazendo desafios e novas abordagens nos processos museais.

Hoje, as instituições se deparam com a missão de se conectar com a sociedade, trabalhar em rede com outros museus e difundir o seu acervo. Além dessas funções, que se reformularam com a nova museologia, cabe ressaltar que as instituições também continuam com os serviços burocráticos de gestão e salvaguarda do acervo. Sendo assim, nota-se que os museus acumularam funções com o passar dos anos.

Dessa forma, é possível observar, com base na literatura e nas experiências museais ao redor do mundo, que os museus sofreram influência de dois importantes fatores: tecnologia e sociedade.

Para organizarmos o pensamento neste artigo, os pontos descritos acima serão abordados em dois momentos. Entretanto, cabe ressaltar que esses fatores, apresentados de forma dissociada neste trabalho, refletem apenas o percurso metodológico do autor para explanar os argumentos. A tecnologia e a sociedade convergem e estão intimamente relacionadas com a temática que envolve os museus hiperconectados.

De forma a elucidar o que foi exposto acima, a tecnologia será abordada como uma ferramenta incorporada aos museus ao longo das décadas e que contribui para uma aproximação da sociedade, coleção e missão do museu. Nota-se, pela literatura em museologia e pelas experiências museológicas, que o público reformulou seus sentidos e percepções a partir do surgimento de novos museus com características diferenciadas. (WAGENSBERG, 2006). Essa reformulação fez com que os museus iniciassem um processo que culminaria na mudança da forma de comunicar e expor seus objetos, transcendendo as exposições em vitrines fechadas.

Houve uma considerável necessidade de inserção de novas mídias nos processos museais para acompanhar o desejo da sociedade em consumir informação. A linguagem expositiva também foi alterada. Hoje, o visitante pode usar todos os seus sentidos em uma visita a um museu (WAGENSBERG, 2004) e pode vivenciar experiências diferentes no ambiente expositivo, conectando-se com o acervo, com a informação e criando hiperlinks.

Para demonstrar a importância e o avanço dessa conexão e a sua experiência inovadora, cabe citar exemplos bem-sucedidos de museus no Brasil e no exterior. Esses museus utilizaram a tecnologia como ferramenta para expandir as fronteiras da vitrine (WAGENSBERG, 2004) e conectar o seu acervo à sociedade, mesmo em ambientes externos à instituição.

Como um exemplo brasileiro, podemos citar o projeto Digitalização do Acervo do Museu Imperial (DAMI), em Petrópolis. A digitalização da coleção e a sua posterior disponibilização na web demonstram a crescente necessidade de expandir as fronteiras do conhecimento, bem como de diminuir a distância entre a sociedade e o museu. Essas ações criam uma nova experiência para pesquisadores e o público em geral, que passam a conhecer e ter acesso à coleção antes mesmo de ir ao museu.

Para ilustrar com um exemplo europeu, o Museu do Quai Branly, na França, também disponibiliza em banco de dados parte significativa de sua coleção em alta resolução, com dados e informações sobre as peças. Tais objetos não deixam de existir no museu, mas passam a existir também em um ambiente virtual, estando passíveis de diferentes análises, observações e, até mesmo, compartilhamentos.

Em ambos os casos, a tecnologia não substitui o real. A peça não deixou de existir no campo físico para existir no virtual, ela foi conectada a esse campo. O museu não reduziu ou transferiu a experiência do visitante para o universo tecnológico, ele agregou à visitação novos olhares. Nenhum museu substitui a experiência real pela experiência virtual, elas se conectam.

Só um objeto real, mesmo que esteja numa vitrine, pode operar o milagre. O objeto real não substitui o conhecimento, mas pode se erigir num estímulo insubstituível de tal conhecimento. Essa é, por certo, a nobre função de toda boa peça de museu. Só olhar, sim. Mas olhar pode ser muito! Até demais (WAGESNBERG, 2006 p.186).

Para o físico e ex-diretor do Museu de Ciência de Barcelona, Jorge Wagensberg (2006) os museus precisam se conectar com o público, independentemente da sua tipologia. As instituições devem, constantemente, aprimorar a forma de comunicar, apresentando algo novo que faça a sociedade pensar junto. Atualmente, os museus devem desafiar a sociedade. Desafiar o visitante a pensar, criar pontes que conectem o acervo, a missão da instituição e a informação.

O modo de interação do museu com o seu entorno sofreu alterações. Atualmente, as instituições representam uma camada importante da população, dialogando e trazendo para si o discurso de inclusão e o desafio que ainda têm pela frente. A interação se faz não apenas na relação homem – máquina, mas no serviço prestado pela instituição museu. Novos sites, exposições interativas e redes sociais, por exemplo, aproximam novos públicos dos museus, criando um lanço contemporâneo. Entretanto, unir a preservação da memória e o público socialmente menos favorecido é o grande desafio dos museus na contemporaneidade. E é assim que deve-se trabalhar o papel das novas abordagens no setor museal.

Diante deste cenário, o presente trabalho trouxe Jorge Wagensberg como referência inicial para discutir a conexão público e museu. Wagensberg, que faleceu em março de 2018, ofereceu um grande contributo para a comunidade museológica, com o pensamento desafiador de oferecer ao público novas abordagens dentro dos museus. Sua forma de pensar reflete a comunicação interativa para além da tecnologia, centrando no visitante a relação humana com a ciência, arte, história e etc. Por meio do envolvimento do paladar, olfato, visão, tato e audição, Wagensberg (2004) propõe a conexão necessária com o visitante, extrapolando a apresentação de peças nas vitrines.

Cabe ressaltar que o foco aqui descrito chama a atenção para apenas alguns aspectos contemporâneos dos museus. Muitas questões envolvem a conexão entre museu e sociedade. O intuito deste artigo é suscitar discussões que promovam o debate atual: como os museus acompanham a evolução do público que os visita? Como a instituição serve à comunidade ao seu entorno? Tais questionamentos apontam para a evolução na interação atual entre museus, novas mídias e sociedade. O diálogo se faz necessário.


[1] Museólogo. Doutorando em História com ênfase em História da Ciência pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Mestre em Ciência da Informação pela Escola de Ciência da Informação da UFMG(2013-2015). Bacharel em Museologia (2008-2012) pela UFOP. Aperfeiçoamento acadêmico pelo Centro Provincial do Patrimônio Cultural de Granma - Cuba como bolsista do IBRAM em parceria com o Programa Ibermuseus.

Referências Bibliográficas


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