slide 18maio2018 700

Alexandre Matos [i]

O museu foi sempre um local de conexões.

Julgo que esta afirmação não poderá ser contestada por quem conhecer, ainda que brevemente, a história do seu desenvolvimento. É certo que inicialmente essas conexões eram distintas das que hoje são celebradas neste 18 de Maio, Dia Internacional de Museus (DIM), mas existiam e permitiram que os primeiros museus modernos, através de novos sistemas de classificação e organização das evidências materiais que recolhiam, fossem determinantes para a criação de conhecimento e das consequentes transformações sociais verificadas no último século.

Sendo o museu um local de conexões, ainda que inicialmente circunscritas ao conhecimento das coleções e aos eruditos que os frequentavam ou criavam, o que tem mudado de forma drástica e acelerada é a forma e alcance das conexões existentes e, a par, a multiplicidade de novas ligações que o desenvolvimento social, económico, tecnológico e científico, verificado nas últimas sete décadas, potenciou. Vivemos, desde a década de 50 do século passado, um período alargado de desenvolvimento generalizado, no qual a capacidade de comunicação, ou seja, de estabelecer contacto por um qualquer meio, foi elevada a patamares inimagináveis até há pouco tempo atrás.

Tal como o ICOM Portugal refere na notícia sobre o DIM em http://icom-portugal.org/2018/05/07/dia-internacional-dos-museus-2018/  (acedido em 05-05-2018), o termo hiperconectividade foi “criado em 2001 para designar as múltiplas formas de comunicação dos nossos dias, tais como contacto pessoal (face-to-face), correio eletrónico, mensagens instantâneas, telefone ou Internet.”. Este conceito que agora é incluído no mote do Dia Internacional de Museus pelo ICOM, procura refletir a complexidade de conexões, de ligações, criadas dentro e, principalmente, fora dos museus, e a capacidade de resposta por estas instituições aos enormes desafios colocados. Essa resposta exige novas abordagens para responder às necessidades de novos públicos, como o próprio ICOM afirma no mesmo mote. Mas que abordagens são estas? Que desafios são colocados aos museus pelos novos públicos, ou pela transformação dos pré-existentes pelas novas formas de comunicação?

A resposta a esta questão não é simples ou imediata. Exige dos museus, das tutelas e, principalmente, do próprio público, enquanto cidadãos, uma reflexão cuidada e assente num conjunto de dados sobre os recursos (financeiros e humanos) disponíveis, sobre as coleções e sobre os públicos e as suas motivações (ou falta delas), que muitas vezes não estão disponíveis ou se encontram desatualizados. Uma reflexão que precisa, acima de tudo, de se centrar no médio e longo prazo e não na procura de respostas rápidas e irrefletidas à quantidade e complexidade de desafios que são colocados pelo avanço tecnológico e pelas contínuas demandas do público.

Exige, portanto, e desde logo, a necessidade de criação e implementação de políticas de âmbito nacional, ou mesmo internacional, baseadas no resultado dessa reflexão e discussão informada, que possibilitem construir uma resposta efetiva à necessidade de transformação dos museus e das suas coleções em instrumentos ao serviço do ensino, ciência e do desenvolvimento da sociedade.

É o passo que se tem verificado em alguns países, de entre os quais destacaria o Reino Unido, através da constituição de programas de certificação qualitativa dos museus, centrados na qualidade e acesso à informação sobre as suas coleções (Arts Council England, Museums Libraries and Archives Council e Arts and Business, 2010), dos Estados Unidos da América, com o papel de destaque para a Smithsonian Institution e o seu processo de digitalização das coleções (Smithsonian Institution, 2013) e, por fim, a Holanda, através do exemplo da estratégia digital do seu principal museu, o Rijksmuseum (Gorgels, 2017), que tem influenciado e promovido uma mudança de atitude em museus de diversos países relativamente à acessibilidade, partilha e reutilização das suas coleções. Um outro exemplo, de caracter internacional, que é comummente citado é a Europeana, um portal que agrega conteúdos provenientes das bibliotecas, arquivos, museus, televisões, rádios, etc. e providencia ferramentas de pesquisa e curadoria para potenciar o acesso à herança cultural europeia.

Com esta definição de políticas mais abertas tem-se conseguido dar uso e tirar partido de ferramentas e metodologias que promovem a acessibilidade e, acima de tudo, a utilização e reutilização de um significativo número de bens culturais (objetos, livros, documentos, áudios ou vídeos) que de outra forma não estavam sequer acessíveis à maioria das pessoas. Entre elas poderíamos mencionar os tesauros sobre património cultural, a utilização (e melhoria) de um conjunto de normas de catalogação, descrição e interoperabilidade de sistemas, a emergência da disponibilização de dados abertos e interligados pelas instituições culturais, ou ainda a utilização de sistemas de atribuição de direitos que privilegiam o acesso ao património.

Não sendo pretensão deste artigo explorar profundamente qualquer destas ferramentas ou metodologias, há dois excelentes exemplos da aplicação das mesmas que gostaria de destacar usando dois produtos concretos. São eles o Rijks Studio (site de acesso às coleções do Rijksmuseum), disponível em https://www.rijksmuseum.nl/en/rijksstudio (acedido em 05-05-2018) e o site de acesso à coleção do Cooper Hewitt Museum, em Nova Iorque, disponível em https://collection.cooperhewitt.org (acedido em 05-05-2018). O primeiro destaca-se pelo foco na reutilização das coleções do museu por parte dos seus utilizadores, o segundo por uma política de integrada de utilização da informação sobre as suas coleções na preparação da visita, na realização da visita e após a sua conclusão através da articulação do site mencionado com o programa New Experience desenvolvido para a visita ao museu e sobre o qual poderão obter mais informações no seguinte site: https://www.cooperhewitt.org/new-experience/ (acedido em 05-05-2018).

Esta não é, no entanto, a situação que se verifica no espaço da lusofonia onde pretendo suscitar um debate apresentando alguns argumentos sobre a situação dos países deste espaço relativamente ao mote do Dia Internacional de Museus que relembro é “Museus hiperconectados: novas abordagens, novos públicos”. Procuro, neste texto fazê-lo, porque trabalhando diretamente com museus em Portugal e no Brasil e tendo contactos com alguns museus e profissionais de Angola, Moçambique e Cabo Verde, estranho por completo a pouca articulação e concretização no sector museológico entre os diversos países das políticas em que se baseiam, como mostrei acima, a capacidade de criação de hiperconexões entre museus, coleções e, ainda mais importante, públicos.

O primeiro argumento que trago para a discussão é a inexistência de políticas nacionais, com âmbito internacional através da CPLP, por exemplo, que dessem voz a uma estratégia de disseminação da cultura de cada país envolvido, usando para isso todo o património cultural, não só a língua portuguesa, capaz de hiperconectar as diferentes realidades desta comunidade, explorando fraquezas e pontos fortes, e abrindo espaço ao debate das questões que poderão ser mais polémicas ou sensíveis [1].

A este primeiro argumento, junta-se um segundo, mais prático, que se prende com a inexistência também de projetos de criação de hiperconexões através de processos de documentação, estudo e divulgação das coleções dos diversos países envolvidos por meio digital. Poderei estar a ser injusto na análise, mas tirando o caso da construção do importante Thesaurus de Acervos Científicos em Língua Portuguesa, disponível em http://thesaurusonline.museus.ul.pt (acedido em 06-05-2018), por uma rede de instituições portuguesas e brasileiras, desconheço outros exemplos concretos da criação destas hiperconexões.

Por fim, um terceiro argumento que se prende com a utilização e criação de instrumentos capazes de nos ajudar a concretizar esses projetos é a fraca implementação que as normas internacionais têm nos países lusófonos. Em Portugal e Brasil, países que têm já algum trabalho nesta matéria, ainda estamos longe de uma generalização da utilização destes instrumentos nos museus, nos restantes países da lusofonia o quadro é consideravelmente mais preocupante. O quadro geral é, no entanto, muito preocupante e coloca-nos, bem como no caso dos anteriores argumentos, desafios consideráveis.

O primeiro dos quais seria, no âmbito da recentemente criada Comissão de Património Cultural da CPLP (CPC CPLP) (Resolução sobre a criação da Comissão de Patrimônio Cultural da CPLP, 2017), constituir um conjunto de políticas, a implementar com meios reais nos diversos países, que promovessem o acesso aberto às coleções dos museus dentro daqueles territórios. Em Portugal e Brasil, uma vez mais, já foram anunciados passos concretos nesta direção, mas estabelecer uma política no âmbito da CPLP traria, a meu ver, um conjunto de benefícios aos outros países interessados.

O segundo, talvez o mais importante, seria responder ao desafio da implementação de normas comuns promovendo uma rede de instituições e profissionais que pudesse servir como elemento aglutinador e promotor de um conjunto de boas práticas relativamente aos processos de gestão, documentação, conservação e divulgação de coleções, nomeadamente, nas terminologias, processos e interoperabilidade necessárias para criar projetos interconectados, ou dizendo de outra forma, que permitisse a criação das hiperconexões que celebramos este ano.

Ultrapassados esses desafios poderia afirmar, sem grande margem de erro, que os museus do espaço lusófono estariam dispostos a nos surpreender com projetos que mostrassem as culturas que as suas coleções representam, não evitando as diferenças, mesmo as mais polémicas, e potenciando a sua utilização no espaço de uma língua comum como um instrumento essencial para o desenvolvimento cultural, social e económico e para a criação/melhoria de hiperconexões com outros países e culturas que se foram cruzando com as nossas ao longo dos últimos séculos.

O caminho a traçar é longo, estou ciente disso, mas quanto mais tarde for dado o primeiro passo, mais tarde chegaremos a bom porto.


[i] Alexandre Matos é doutorado em Museologia pela Universidade do Porto. É, atualmente, diretor do Departamento de Investigação e Formação da Sistemas do Futuro e Professor Afiliado do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Sempre gostou de Museus, mas ficou completamente apaixonado por eles quando trabalhou num pela primeira vez e percebeu a capacidade que ali existe para contar histórias com um simples objeto. Trabalha em documentação de museus porque considera que é a melhor forma para manter essas histórias vivas. Escreve sobre isso no Mouseion. É investigador do CITCEM, membro dos órgãos sociais do ICOM Portugal e membro da direção do CIDOC. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[1] Seria importante, na nossa opinião, ver a questão do Museu das Descobertas debatida com esta perspetiva tendo em conta as diferentes visões do espaço lusófono sobre o tema. Para acompanhar o debate recomendo o texto (e as hiperligações ali colocadas) da Maria Vlachou disponível em http://musingonculture-pt.blogspot.pt/2018/04/o-museu-das-minhas-descobertas_44.html (acedido em 05-05-2018).

Referências Bibliográficas


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31