slide 18maio2018 700

Alejandra Saladino [1]

Uma vez mais a Revista Museu me apresenta a oportunidade de pensar sobre o tema selecionado pelo ICOM para celebrar o Dia Internacional dos Museus. E mais uma vez aproveito a chance de refletir sobre questões pertinentes à nossa área de atuação com a leveza da inexistência de normativas e enquadramentos restritivos característicos do campo acadêmico. Esse conforto possibilita mergulhar mais profundamente sobre o tema, explorá-lo sem o peso das referências incontornáveis e expectativas e exigências institucionais; apenas com o oxigênio das ideias decorrentes de ilações.

Muito acertadamente, em minha opinião, o ICOM escolheu o tema da hiperconectividade para provocar os museus. Justo nestas épocas marcadas pela liquidez das relações (BAUMAN, 2001; 2004), onde carece a identificação, a empatia e a solidariedade entre os aparentemente diferentes.

Paradoxalmente, nos tempos da hiperconectividade possível pelo avanço tecnológico e da compressão espaço-temporal levada às últimas consequências, corremos o risco das rupturas, das cisões. É neste momento que emerge o primeiro questionamento sobre o tema: qual o sentido dessas conexões todas das quais dispomos atualmente? Seriam um fim em si mesmas?

Irrompe então o caudal de questões, relacionadas diretamente, vale ressaltar, à razão de ser e à missão institucional dos museus: Qual o mote para provocar conexões entre pessoas e entre cultura material musealizada? A que e a quem os museus podem e devem conectar? Que tipos de experiências advêm dos variados meios de conexões? É possível, viável e exequível criar e manter canais de conexões virtuais nos museus? Quem cria e como cria os caminhos dessas conexões?

Poderia seguir com este listado de questões até exaurir o tempo e o espaço do qual disponho para expor algumas notas sobre o assunto. Todavia, objetivo refletir sobre o tema proposto pelo ICOM a partir de uma experiência que resulta da vontade de conexões entre os museus da Iberoamérica, institucionalizada no Programa Ibermuseus [i].

Graças a uma bolsa do Programa Ibermuseus de Capacitação, pude desenvolver um projeto de residência no Museo Arqueológico Nacional da Espanha, doravante nominado MAN, cujo tema era o planejamento institucional tendo o plano museológico como instrumento de gestão. Tal proposta foi construída desde as conexões entre as áreas onde atuo e os temas sobre os quais me dedico [ii]. A própria escolha do tema e do país para desenvolver a residência também considerou o tema das conexões, pois graças às articulações entre Brasil e Espanha [iii] foi possível instituir o plano museológico como ferramenta de gestão dos museus brasileiros, conforme a Lei nº 11.904/09 e o Decreto nº 1.824/13.

A escolha do museu a desenvolver o projeto também levou em consideração o tema das conexões. O MAN, uma instituição criada na era dos museus (SCHWARCZ, 1993) [iv], tem o vultoso desafio de conectar, com seu discurso e coleções, as comunidades autonômicas e as múltiplas memórias, identidades e patrimônios polifônicos que constituem a unidade conhecida como Espanha. O MAN foi também minha escolha por ser hoje o resultado da elaboração e da execução do plano museológico realizado entre os anos de 2004 e 2005.

Na residência, realizada entre os dias 19 de fevereiro e 5 de março de 2018, pude observar de perto o imenso esforço da instituição para adequar-se às demandas e expectativas relativas aos museus do século XXI e, claro, atendê-las da melhor forma possível. O MAN, cuja execução do plano museológico iniciou com um projeto arquitetônico e um projeto museográfico ao despontar a crise econômica que assolou a União Europeia [v], parece seguir a cartilha dos museus ocidentais. Em outras palavras, seu discurso e suas ações estão em consonância com aquilo que Ignacio Díaz Balerdi denomina de velhas utopias e novos mitos. Para o professor titular da Universidad del País Vasco, as velhas utopias relacionam-se à imagem do museu como uma “potente ferramenta de comunicação, de educação, de transformação social, de prazer” (BALERDI, 2008:159) e, desde a sua perspectiva, foram derrotadas por lastros e mitos. Os primeiros dizem respeito ao lugar que cada ator – obras, visitantes, museólogos – ocupam no cenário museal, no qual os distintos componentes não encaixam de forma ágil e harmônica, pelo qual os resultados obtidos não são os esperados (BALERDI, 2008:159). No tocante aos segundos, o autor destaca aquele que se relaciona diretamente à “sacrossanta quantificação numérica, segundo a qual o sucesso ou o fracasso é medido unicamente em função do público” (BALERDI, 2008:159).

O MAN, assim como os demais museus estatais da Espanha, está comprometido com o Plan Museos + Sociales, uma proposta de concretizar os ideais que Balerdi reconhece de forma provocativa como velhas utopias. Podemos caracterizar tal proposta, ainda que de forma reducionista, como um conjunto de linhas estratégicas para efetivar as instituições museológicas como espaços de inclusão e integração social [vi], resumidas em um decálogo que marca o compromisso social dos museus [vii] e que, por sua vez, pode ser sintetizado na equação “museos + personas = museos + sociales”.

O MAN, ainda que restringido e constrangido pelas limitações de não ser uma unidade gestora [viii], potencializa os vínculos entre instituições para impulsionar as conexões entre públicos distintos, coleções e a própria entidade. Nos últimos tempos tem logrado expandir o leque de conexões nas quais a tecnologia e até mesmo a Arqueologia Digital [ix] são instrumento-chave, como por exemplo na criação de diversos audiovisuais recriando sítios arqueológicos e na disposição de estações táteis, nas quais o público pode tocar réplicas elaboradas respeitando técnicas originais de confecção e de reprodução de relevos para leitura de pessoas com deficiência visual, na instalação de estações de realidade aumentada ao longo do circuito expositivo e na criação de um aplicativo com múltiplas possibilidades de visitação (com propostas de diversos roteiros temáticos que expandem as informações sobre as peças expostas) [x].

O Departamento de Difusão do MAN também explora as formas mais tradicionais de conexões entre pessoas e objetos promovendo uma vertiginosa e diversificada agenda de atividades variadas, que vão desde oficinas temáticas para núcleos familiares (que estimulam as conexões entre os parentes nas vivências partilhadas nos distintos espaços museais) a teatralizações no auditório do museu e em alguns pontos da exposição de longa duração.

Na última exposição temporária realizada, de título El Poder del Pasado: 150 años de Arqueología em España, o MAN celebrou o seu próprio sesquicentenário, apresentando a história e o desenvolvimento dessa disciplina científica e conectando 68 instituições museológicas, que emprestaram suas peças icônicas e representativas do tema tratado na exposição.

A intensa experiência vivida nos quinze dias de residência no MAN me leva a refletir sobre a importância estratégica do investimento em hiperconectar desde os museus. Faz-se mister uma reflexão e uma sincera avaliação sobre as conexões promovidas desde a, sedutora para alguns e enfadonha e aterrorizante para outros, parafernália tecnológica. A experiência desde a hiperconexão deveria ir além do encantamento e assombro diante daquilo que é disponibilizado pela tecnologia de ponta. Neste patamar, não afetaríamos mais que uma bela e impressionante queima de fogos de artifício. Tudo muito lindo, impressionante, mas o que fica dessa experiência?

Sejam virtuais ou não, as conexões propostas pelos museus deveriam ser mais que um fim em si mesmas, um item a inserir no relatório anual de atividades e mais visitantes a computar. O desafio, me parece, está mais no mote, na justificativa e também na forma das conexões que no meio. Considerando a residência no MAN, é possível observar que o argumento das hiperconexões nos museus parece estar fundado nas velhas utopias, parte das quais constituem o já citado Plan Museos + Sociales, e ao mito do número de visitantes, num círculo cambiante, ora vicioso, ora virtuoso. O sentido dependeria da consistência dos passos em direção ao ideal de museu inclusivo, integrador, emancipador, transformador. O ponto de inflexão estaria na mudança de padrão institucional na elaboração das ações museais participativas, ou seja, como parte de um processo bottom-up. Mas, claro, essas são apenas ilações partilhadas com vistas a conectar nossas miradas.


[1] Professora adjunta da escola de Museologia da Unirio e Professora do mestrado profissional em preservação do patrimônio cultural do IPHAN.

[i] Criado em 2008, o Programa Ibermuseus tem como objetivo “fomentar a articulação de políticas públicas para a área dos museus e da museologia”. Para aprofundar sobre o tema, ver: http://www.ibermuseus.org/instit/conheca-o-programa-ibermuseus/ 

[ii] Como museóloga dedicada ao tema das memórias, dos museus e dos patrimônios, acerquei-me das questões relativas à preservação e à gestão dos bens arqueológicos, o que me levou a conectar a Museologia com a Arqueologia.

[iii] No início do século XXI, a Subsirección General de Museos do Ministerio de Educación, Cultura y Deporto da Espanha havia desenvolvido uma metodologia de gestão para os museus estatais que foi tema de debates e parcerias com o Departamento de Museus e Centros Culturais do IPHAN. Entre 2004 e 2009 foram realizadas três jornadas, duas no Brasil e uma na Espanha, para refletir e trocar experiências sobre o planejamento de museus a partir do plano museológico pois, vale ressaltar, de a Portaria IPHAN nº 1, de 5 de julho de 2006, dispôs sobre a elaboração do Plano Museológico dos seus museus, designadamente as unidades especiais (unidades gestoras) e os museus regionais.

[iv] O MAN foi criado por Isabel II no ano de 1.867.

[v] Ambos os projetos foram executados entre 2008 e 2014, quando o MAN foi reinaugurado.

[vi] Maiores informações em https://www.mecd.gob.es/museosmassociales/presentacion.html 

[vii] http://www.mecd.gob.es/dms/microsites/cultura/museos/museosmassociales/presentacion/Decalogo-museos.pdf 

[viii] O MAN é vinculado à Subdirección de Museos Estatales do Ministerio de Educación, Cultura y Deporte da Espanha.

[ix] Arqueologia Digital é uma metodologia a partir da qual é possível reconstruir e compreender o contexto arqueológico (MARTIRE, 2016:72).

[x] Ver em http://www.man.es/man/actividades/agenda.html 

 

Referências

  • BALERDI, Ignacio Díaz. La memoria fragmentada. El museo y sus paradojas. Gijón: EdicionesTrea, 2008
  • BAUMANN, Zigmunt.Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
  • BAUMANN, Zigmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
  • MARTIRE, Alex da Silva. Ciberarqueologia: imersão e interatividade digitais no domínio arqueológico (I). FLEMING, Maria Isabel D’Agostino (org.) Perspectivas da Arqueologia Romana Provincial no Brasil. São Paulo: Annablume, 2016, p.65-83.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das. Letras, 1993.

Outras Fontes


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31