Dia Internacional de Museus 2017

Ana Silvia Bloise [1]

Neste ano o Conselho Internacional de Museus- ICOM sugere uma reflexão sobre histórias controversas, assuntos que são tabus e que, portanto, geralmente não são explorados nas exposições. Neste momento em que tudo parece indicar um recrudescimento da violência e da intolerância social, a reflexão é mais que bem vida; ela é muito necessária!

Histórias existem para serem contadas em todos os museus do mundo. No entanto os objetos testemunho estão calados; dormem um silencioso sono, sem roncos ou estardalhaços. Imóveis, debruçam-se em estantes e caixas nas reservas técnicas.

São os nossos temas ausentes. Eles nunca ousam sair dos bastidores e dos armários, ou melhor, quase nunca. Talvez devido à injusta fama de serem os museus locais onde as grandes verdades estão reunidas e preservadas. Para o leigo tudo o que está no museu “é verdade verdadeira”... E tanta responsabilidade nos imobiliza para tratar de assuntos mais difusos, menos óbvios, contraditórios em relação ao estabelecido.

Só quem acompanha o dia a dia de um museu e está em contato direto com seu acervo sabe que haveria muito a ser explorado, caso quiséssemos contra mais histórias, contá-las com mais liberdade de interpretação, nos desprendendo de cânones consagrados e nos inspirando em intelectuais e pensadores que ainda ousam criar.

Objetos poderiam contar histórias ainda inéditas ou nem tanto, talvez apenas esquecidas pelo grande público.

Querida Nenê, querido tio Quim... Um abraço amoroso da sua... Quantas cartas ricas em afeto e informações sobre o nosso país dormem um sono dos séculos nos arquivos dos museus. Estão silenciadas pela escrita difícil de ser lida, pela conservação duvidosa, pela falta de pesquisadores, pelo desconhecimento quase geral de que elas existem. Espera-se que um dia tenham a chance de trazer à tona antigos personagens, grandes desconhecidos, temas inovadores e polêmicos.

Nas bibliotecas encontramos antigos livros guardados por muitas décadas, aparentemente “sem razão”, cujas dedicatórias sugerem afetos proibidos e que fazem nossa imaginação, sempre curiosa, voar.

Pesquisas interdisciplinares são necessárias para uma boa exposição sobre o acervo, mas quem ainda pesquisa em museus? Mais fácil agora contar com um “curador” de fora da instituição, que traga recursos para tal.

Nossos museus estão cada vez mais carentes de profissionais de carreira e, a meu ver, eles são insubstituíveis. Sem eles o indizível continuará silenciado por mais algumas décadas, cá entre nós.

[1] museóloga. Sócia Diretora da empresa Oficina 3

 

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