Dia Internacional de Museus 2017

Luiz Henrique Assis Garcia [i]

O espaço que oferece a Revista Museu é salutar para que possamos articular a docência e a pesquisa, o estudo de longo prazo e o comentário de conjuntura. É muito importante que um campo de conhecimento como a museologia possa também desenvolver o hábito de interferir nas arenas em que o debate se colocar, não só na academia, mas na sociedade de modo geral. O tema da 15ª Semana de Museus, Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus mostra-se muito afinado com o tempo em que estamos e demonstra a disposição para romper silêncios e reconhecer esquecimentos, um exercício de crítica e autocrítica indispensável ao amadurecimento do nosso fazer. O questionamento e o dissenso são, indubitavelmente, o oxigênio da democracia. Os museus também não podem respirar bem sem eles.

A Revista Época publicou online agora em abril uma matéria com o seguinte título: 

Lei obriga os museus brasileiros a tomar mais cuidado com seu acervo, acompanhada do subtítulo “muitas peças expostas como relíquias do passado são de origem duvidosa”. A matéria reverberou diretamente temas que vinha debatendo com @s alun@s na disciplina “Metodologia da pesquisa histórica em museus”, e de resto minha própria trajetória como historiador que coordenou um setor de pesquisa em um museu histórico por oito anos. Decidi não só comentá-la no meu blog metamuseu, mas fazer também uma questão de prova, que acabei de preparar logo antes de começar a escrever esse texto, expandindo o que começou como réplica em algo com maior amplitude.

Antes de adentrar no argumento central, queria dizer algumas coisas. Tornou-se um clichê que as matérias que abordam o patrimônio cultural recorrentemente partam de pautas calcadas na polêmica e na denúncia. É desagradavelmente irônico que se mencione o estatuto dos museus numa matéria assim, pois nos oito anos em que está em vigor não deva ter sido citado em matérias que abordassem seus efeitos positivos. Não quero varrer as falhas para debaixo do tapete, mas simplesmente analisar a forma como a grande imprensa cobre esses assuntos. Como formadores de opinião que são, tais veículos perdem sistematicamente a oportunidade de levar ao cidadão uma informação mais qualificada a respeito do trabalho que é feito pelas pessoas que atuam no Ibram, nas instituições museológicas e outros órgãos que atuam no campo do Patrimônio. Adoram também se autopromover lançando mão do que na verdade foi realizado justamente por aqueles que criticam. Vejamos:

"Assim foram criadas relíquias como a forca que matou Tiradentes, a espada que Pedro I ergueu no Grito do Ipiranga, a farda usada por Marechal Deodoro na Proclamação da República, criações que a reportagem de ÉPOCA tenta desmistificar ao longo desta reportagem." [1]

A forma como o texto é redigido dá a entender que a desmistificação dessas relíquias é fruto da reportagem, e não que é um trabalho feito há décadas por inúmeros pesquisadores, ao qual a reportagem está tendo acesso por entrevistas ou pesquisas (não quero generalizar aqui, mas repórter de hoje não faz pesquisa, liga pro pesquisador, pergunta o que quer saber, só escreve se gostou da resposta, nem sempre fala obrigado e muito menos cita quem lhe forneceu a informação). Há um tremendo equívoco na redação mesmo, pois basta ler a matéria para perceber que o questionamento sobre o objeto está sendo feito na própria instituição. Mas aqui sejamos francos. Os museus falham absurdamente em levar esse conhecimento, esse questionamento sobre seu acervo, as lacunas de documentação e inconsistências da aquisição para o público. Não conseguem muitas vezes ver que uma abordagem crítica desses artefatos e da forma como passaram a figurar em seu acervo e exposições seria formadora de uma forma que a reverência acrítica e acobertada por narrativas nebulosas jamais pode ser. Outra coisa irritante é como adoram imputar tudo à instância pública, como se não houvesse várias instituições privadas que incorressem nessas mesmas falhas - e talvez a maioria delas, muitas vezes laudatórias porque foram criadas para exaltar pessoas, empresas, grupos sociais específicos que costumam ser seus patrocinadores.

Mas essas não são, nem de longe, as principais controvérsias a serem abordadas quando se trata dos museus brasileiros. Por mais que tente a matéria não consegue evitar o senso comum e uma visão meio fetichista, concentrada na suposta autenticidade que poderia ser apurada dos itens que elenca. Ora, sendo assim, se a espada fosse comprovadamente de D.Pedro I, por exemplo, a construção de uma dada interpretação sobre a Independência poderia continuar sendo validada por ter lançando mão da relíquia 'autenticada'? Mesmo picotadas pela impiedosa edição que comumente as redações aplicam às falas dos especialistas, podemos entrever nos trechos que restaram que o posicionamento dos profissionais é crítico e revela, ao contrário do que a matéria insinua desde a manchete, que não é ter ou não a lei que faz o museu reinterpretar seu acervo, e sim a atuação de pessoal capacitado e comprometido, especialmente se tiver boas condições de trabalho. O que a matéria apura, em relação a isso?

A controvérsia mesmo, a meu ver, recai sobre o sentido social e político das instituições, no caso com o foco da matéria recaindo um pouco mais para os museus históricos, e, portanto, para as interpretações da História do Brasil que eles ajudam a produzir e difundir. Seria realmente querer demais que a revista conseguisse elucidar para o leitor a compreensão atual que historiadores, museólogos e demais profissionais envolvidos nesse trabalho desenvolveram sobre o que é o resultado das investigações em História e como a controvérsia e o embate de interpretações são constitutivas do que será a sua narração, e que, muito mais que autenticar o que quer que seja, o objetivo maior é auxiliar o público a desenvolver a capacidade de refletir sobre como e porque uma determinada versão do passado é produzida, como os artefatos compõem as tramas, e como o conhecimento da História é transformado por meio de incessantes contestações baseadas no estudo das evidências (Meneses, 1994; Santos, 2006).

Provavelmente muitos artigos, inclusive escritos para esse mesmo número da Revista Museu, irão, com toda pertinência, ressaltar grupos silenciados e acervos descontextualizados e invariavelmente ‘higienizados’, no sentido de que estão apartados dos conflitos e contradições que marcam sua biografia como integrantes da cultura material, ou até mesmo após terem sido incorporados às coleções de museus. Entretanto, na controvérsia a que quero me ater, o que adentra a ordem do indizível é a própria História. Com isso quero dizer essencialmente de uma forma de saber que Carlo Ginzburg (1993) classificou como ‘indiciária’ e ‘conjetural’, e que Foucault (1996, p.18), dialogando com a obra de Nietzsche define como genealógico:

O que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem − é a discórdia entre as coisas, é o disparate. (...) A história ensina também a rir das solenidades da origem.

A História nos dá perspectiva, disse certa feita a historiadora Lynn Hunt, ecoando as lições de tantos outros mestres do ofício. Não podemos, definitivamente, dar sentido à nossa própria existência sem o conhecimento que a História nos propicia. O papel dos museus aí se mostrará particularmente relevante se puderem romper o falso dilema entre relíquia e artefato, para contextualizar o objeto a partir de uma problematização histórica (Meneses, 1994). Pressupondo-se aí o exercício crítico na pesquisa, cabe ao museu revelar a convenção enquanto tal, ou seja, dar a ler não exclusivamente a narrativa pronta da História, mas o modo mesmo pelo qual a História narra. Isso se tornou particularmente difícil face à nossa experiência do tempo, marcada por aquilo que François Hartog (2013, p.245) conceituou como ‘presentismo’:

O futuro (...) não é mais um horizonte luminoso rumo ao qual caminhamos, mas uma linha de sombra que colocamos em movimento em nossa direção, enquanto parecemos patinar no campo do presente e ruminar um passado que não passa.

Nessa leitura podemos imaginar o que David Harvey (1992) denominou compressão do espaço-tempo – de tal modo que o presente promove um achatamento da percepção do nosso entendimento sobre o passado e nossa perspectiva de futuro. Fortuna (1997, p.137) discute muito bem os desdobramentos crônicos disso para o cenário museológico:

a procura de solução para essa crise tem forçado a revisão dos objetivos e das funções dos museus. A pretensão de servirem à comunidade, local ou nacional, e ao passado tem sido posta em causa e substituída por uma outra perspectiva mais individualista e presentista, de acordo com a qual os museus servem hoje ao indivíduo e ao presente (MacDonald & Silverstone, 1990). Aquilo que essa deslocação de objetivos, da coletividade para o indivíduo e do passado para o presente, testemunha é a ofuscação do cidadão e o surgimento do consumidor.

Essa tentativa de embalar tudo num pacote com parâmetros estéticos e sociais estabelecidos em reuniões de marketing embute uma perspectiva de não-tempo, e portanto traz implícita a substituição do cidadão sujeito que faz a História pelo consumidor passivo que assiste ou apenas age dentro do programa de modo repetitivo e desprovido de protagonismo dentro de um espaço sem tempo e sem memória. Talvez devamos nos questionar porque foi feito recentemente um investimento tão alto na construção de um “Museu do Amanhã” que sintomaticamente revela o ostracismo, quiçá a obsolescência programada, dos “museus de ontem”. Preciso reparar que escrevo essas palavras enquanto participo do enfrentamento da ameaça de um ‘apagão’ no cenário museológico da cidade de Belo Horizonte, onde resido e trabalho, uma vez que a prefeitura vem demonstrando um intenso descaso para com as instituições municipais, seus acervos e trajetórias históricas.

Tudo isso coaduna com a constatação feita pelos Oxford Dictionaries de que a palavra do ano de 2016 foi “pós-verdade”, ou seja, o feito de produzir uma retórica interpretativa de um acontecimento cuja eficácia dispensa a apuração de evidências ou informações que contém. A indigência de História, o aquém-História, é o duplo que complementa o regime da pós-Verdade. De modo mais imediato ‘aquém-história’ remete ao desconhecimento da História, que o senso comum costuma resumir à associação entre datas e eventos, ou ao menos à verificação das fontes. Se a pós-verdade viceja sem maiores preocupações em relação ao que é ou não verificável, isso é possível porque desaparece a preocupação com a verossimilhança. Daí não espanta serem justamente os que beneficiam com o advento desta os que menos se incomodam com a escassez daquela. Quem fala em pós-verdade e esquece da aquém-história fica perdido naquela floresta onde as arvores não caem, não caíram e não cairão. A História embasa o exercício de apuração e discernimento que coíbe a forja retórica disposta a sobrepujar até mesmo a sensatez. O contraponto que os museus podem oferecer, portanto, é justamente o de franquear a seu público o entendimento da História como um problema cuja compreensão demanda a investigação e análise crítica. A controvérsia, nesse sentido, é eminentemente constitutiva dessa forma própria de saber, e não um elemento alienígena a ser evitado, ou, quando muito, a tomar lugar em palestras ou atividades de mediação, enquanto o acervo e a exposição permanecem incólumes. É o caso de fazer com aqueles mesmos objetos, o pedaço da forca, a espada, a farda, e tantos outros, perguntas diferentes, inclusive algumas cujas respostas implicam a revelação das entranhas, dos bastidores da própria instituição. Finalmente, que fique explícito que para nós eles só podem significar outras coisas, pois no limite que se pode traçar para que não nos dissolvamos todos – e tudo – na lógica homogeneizadora do presentismo, não somos os mesmos e não vivemos como nossos pais.

[i] Professor. ECI/UFMG.

[1] MARCELO BORTOLOTI. Lei obriga os museus brasileiros a tomar mais cuidado com seu acervo: muitas peças expostas como relíquias do passado são de origem duvidosa. Época [online]. 07/04/2017 - 08h00 – 07/04/2017 14h54. Acesso em 08/04/2017.

Bibliografia

  • FORTUNA, Carlos. As cidades e as identidades: narrativas, patrimônios e memórias. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Rio de Janeiro: Anpocs, ano 12, n. 33, 1997, PP.127-141.
  • FOUCAULT, M. Nietzsche, a genealogia e história. in: Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. 12.ed. Rio de Janeiro : Graal, 1996, pp. 15-37.
  • HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
  • HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
  • MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. Nova Série, São Paulo, v.2, p. 9-42, jan./dez. 1994.
  • SANTOS, Myrian Sepulveda dos. A escrita do passado em museus históricos. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2006. 142 p.

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