Alejandra Saladino [1] 

O futuro chegou. Mais especificamente, chegou finalmente aquele futuro que conformava o conteúdo programático da cadeira “Estudos Sociais”, uma das que mais me interessava quando ingressei nas escolas brasileiras, no fim dos anos 1970 e nos estertores de uma outra ditadura civil-militar. O futuro onde a água, por mais improvável que parecesse àquela altura, escassearia a tal ponto de tornar-se um indicador de desigualdade social. O futuro onde veríamos, não apenas nas notícias sobre Cubatão ou no início de cada episódio do Spectreman [i], mas de perto (sentindo os odores e eventualmente sofrendo as mazelas) a água poluída, imprópria para consumo e para banho [ii].

Chegou o futuro onde efetivamente ninguém pode pretender a ser “sócio da Light”, deixando inocente ou negligentemente as luzes acessas dos cômodos não ocupados. Chegou o futuro onde, para não viver na escassez de recursos energéticos e na abundância de rejeitos, é necessário cada um, independente de qualquer distinção, assumir o seu papel na sociedade para garantir um mínimo de qualidade de vida à coletividade.

Na era da informação (informação resulta em experiência?), não mais estamos restritos ao conteúdo da disciplina Estudos Sociais para tomarmos ciência (e tenência) a respeito das condições ambientais e das boas práticas sobre os recursos naturais. Inúmeros são os vídeos, curtos ou longos, divertidos ou dramáticos, que bombardeiam “a rede” diariamente, alertando sobre as alterações climáticas que, alguns cientistas atribuem a responsabilidade pela velocidade e intensidade à nossa simples existência; seria uma nova era geológica. Estaríamos em uma fase de transição entre o Holoceno e o Antropoceno [iii]. Aqueles pais que, inconscientemente abrem a janela do carro para atirar a guimba do cigarro (pais ainda fumam ao lado de seus filhos?) certamente ja foram criticados por seus rebentos, que detêm hoje um conhecimento sobre educação ambiental e uso consciente dos recuros naturais que sequer imaginaríamos existir quando tínhamos a mesma idade. Dito de outra forma, chegou o futuro onde o tema da sustentabilidade, que implica consumo sensível e consciente de recursos e de bens (inclusive os patrimoniais, mas isto já é tema para outro artigo) não é mais restrito aos “ecochatos” e radicais de organizações como a Greenpeace, mas permeia o cotidiano da humanidade, por bem ou por mal.

E os museus com isso? Essas monolíticas ou camaleônicas, e por vezes esquizofrênicas, organizações buscam o seu lugar no mundo transformando-se na reflexão e abandono de sua natureza colonizadora e doutrinária e assumindo o papel de fórum, de instrumento de mudança do status quo para um meio mais alinhado com a realidade multicultural, multivocal e multifocal da sociedade. Por isso a mais que pertinente proposição do ICOM de dedicar este ano ao tema Museus para uma sociedade sustentável.

O Prof. Dr. Hinz, Presidente da organização máxima dos museus, percebe a importância estratégica dos museus para a tomada de consciência do nosso futuro mais que presente da escassez da água e de recursos energéticos e do vertiginoso processamento de recursos que o insano consumismo leva à assombrosa produção de residuos, cada vez mais tóxicos e poluentes. Essa potência advêm da capacidade dos museus se tornarem autênticos laboratórios de práticas exemplares [iv].

No entanto, para que os museus contribuam para a consicentização do público sobre a necessidade de atuarmos como uma sociedade menos dilapidadora, mais solidária e que aproveite os recursos de uma forma mais respeitosa com os sistemas biológicos [v], é necessário coerência. Tal e qual os pais, os museus têm de dar exemplo para não ocuparem o lugar da incongruência, arriscando esvaziar os seus discursos e não atingir seus objetivos estratégicos. Ou seja, para se tornarem elementos importantes e estratégicos na construção de um futuro sustentável, os museus têm de ser sustentáveis. Para serem efetivamente fóruns de discussão sobre as boas práticas sobre os recursos naturais e sobre o consumo consciente, os museus não podem deixar a água escoar de torneiras velhas, não podem deixar de coletar adequadamente os resíduos, nem deixar de criar alternativas para captar água da chuva e diminuir o consumo de energia. Por isso insisto também neste artigo, tal e qual no artigo referente ao tema do ICOM de 2013 [vi], na qualificação da gestão dos museus [vii].

O Museu da República, meu locus museal de atuação, tem procurado adequar-se ao futuro que já cá está [viii]. Em 2011, quando da revisão de seu Plano Museológico, o Setor de Museologia propôs a complementação da estrutura do mesmo com a criação do Programa Socioambiental o qual, três anos depois, foi instituído no decreto de regulamentação do Estatuto de Museus – designadamente o Decreto nº 8.124/13 – como um programa que abrange um conjunto de ações articuladas, comprometidas com o meio ambiente e áreas sociais, que promovam o desenvolvimento dos museus e de suas atividades, a partir da incorporação de princípios e critérios de gestão ambiental [ix].

Desde então, o Museu da República tem procurado identificar para transformar seus próprios padrões institucionais com o fito de lograr atingir as metas do Programa Socioambiental [x]. À luz do institucionalismo histórico, uma corrente do neoinstitucionalismo do campo da Teoria Política, compreendemos que as organizações formais são dependentes de suas trajetórias, ou seja, de suas primeiras escolhas institucionais, que conformam suas práticas, com o tempo rotinizadas e mesmo ritualizadas. Reconhecemos também a tendência à manutenção dessas práticas, que se tornam padrões institucionais, que por mais nocivos que possam ser, garantem a permanência do status quo das organizações. Dito de outra forma, mudar comportamentos e práticas parece mais difícil na dimensão institucional [xi].

Mas difícil não significa impossível. Para admnistrar e transformar o futuro que nos foi legado, e para assumir realmente o papel de autênticos laboratórios de práticas exemplares, para além da reflexão e proposição de boas práticas, faz-se necessário materializá-las nas ações institucionais dos museus. Portanto, à guisa de proposição, e não conclusão, ressalto a indelével relação entre a atuação dos museus para uma sociedade sustentável e o planejamento estratégico dessas instituições, voltado para a gestão racional de todos os recursos (sejam humanos, financeiros, energéticos e naturais). Que o futuro nos museus não se restrinja a 2015, mas que permaneça nas suas ações planejadas e em novas práticas e padrões institucionais.

 

[1] Professora adjunta da escola de Museologia da Unirio e Professora do mestrado profissional em preservação do patrimônio cultural do IPHAN.

[i] Seriado japonês da década de 1970, cujo herói tentava proteger a Tóquio fragilizada pela poluição de monstros alienígenas.

[ii] Para aprofundar as reflexões sobre o futuro que chegou, ver LOVELOCK, J. (2006) A Vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca.

[iii] Para iniciar as leituras sobre o tema, ver http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/46770-do-holoceno-ao-antropoceno-por-outra-forma-de-organizacao-de-vida-entrevista-especial-com-wagner-costa-ribeiro

[iv] http://network.icom.museum/international-museum-day/dim-2015/discurso-del-presidente/L/1/

[v] http://network.icom.museum/international-museum-day/dim-2015/discurso-del-presidente/L/1/

[vi] http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=36506

[vii] Para iniciar as leituras sobre o tema, ver CÂNDIDO, Manuelina M. D. (2013). Gestão de museus, diagnóstico museológico e planejamento: um desafio contemporâneo. Porto Alegre: Medianiz.

[viii] http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=32816

[ix] Art. 23, inc.IV, alínea K do Decreto 8.124, de 17 de outubro de 2013.

[x] Para conhecer um pouco mais sobre o Programa Socioambiental do Museu da República, ver SALADINO, A. (2012). The Republic Museum's Social and Environmental Programme: Proposals and Action for Social Change. Museum International, Volume 64, Issue 1-4, p.80-87.

[xi] Para aprofundar a leitura sobre o institucionalismo histórico e ampliar o olhar sobre as instituições museológicas a partir de uma perspectiva diferente, ver HALL, Peter; TAYLOR, Rosemary (2003). As três versões do neo-institucionalismo. Scielo Brasil.http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452003000100010 (último acesso: 102/05/2015)

 

Referências

 

Nota do editor:
Artigo publicado originalmente no Revista Museu em 18/05/2015.
Resgatado para a nova versão em 30/04/2020.

 

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