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 N.Sª da Piedade, do Mestre Valentim Correa Pais. Séc. XVIII. | |
Cajuru e Correa Pais - A Descoberta de Dois Mestres das Minas Setecentistas
A exposição "Primeira Mostra dos Escultores Setecentistas", que foi excepcionalmente realizada durante os dias 29 a 31 de agosto de 2003 no Museu de Arte Sacra de São João del Rei, em Minas Gerais, teve um objetivo primordial: anunciar a descoberta de novos mestres da escultura, de origem mineira, que, ao produzirem primorosas obras de arte no período colonial, mostram parte da devoção na região do Campo das Vertentes e Sul de Minas.
O ineditismo da exposição fica por conta não apenas do achado e da extensa pesquisa, mas também pelo fato das peças dos autores, ora reconhecidos, estarem sendo expostas ao público pela primeira vez. |
Os mestres mineiros, atuantes no contexto do século XVIII, um deles inicialmente denominado Mestre do Cajuru, em função da região em que atuou, acabou por se tornar ainda mais enigmático pelo domínio da arte revelada nas suas imagens religiosas, estando tão fortemente representado nessa mostra, após tantos anos de anonimato. Por sua vez, o mestre Valentim Correa Pais já teve seu nome desvendado por um dos estudiosos, após uma década de pesquisas, trazendo aos olhos do público a beleza das peças de igrejas, capelas, oratórios e procissões.
 Museu de Arte Sacra de São João del Rei (MG) |
Venha circular conosco pelo espírito da exposição das obras desses Mestres mineiros.
Mestre do Cajuru
O Mestre do Cajuru trabalhou na Comarca do Rio das Mortes, possivelmente na 2ª metade do século XVIII.
Nesta 1ª sala, podemos observar um painel que mostra as principais características para a identificação dos cabelos de santos homens, de virgens, nuvens e perizônios típicos desenvolvidos nos mais diversos exemplares do Mestre Cajuru.
 Conjunto de esculturas do Mestre do Cajuru. Em destaque, ao centro, São Miguel. |
Um magnífico trabalho de exercício do olhar e atribuição foi feito pelo restaurador Carlos Magno de Araújo ao se observar a imagem de São Rafael, que serviu de inspiração para a restauração da N.Sª da Conceição, com policromia de Joaquim José da Natividade.
A N.Sª da Conceição apresentada ao centro da sala, foi propositalmente deixada à mostra no meio do processo de restauração, expondo claramente a forte intervenção ocorrida com a total repintura da imagem. Impressionam, na escultura, a beleza de seus olhos azuis após a restauração.
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 N.Sª da Conceição em processo de restauro. | |
 São Miguel em detalhe. . | |
Na segunda sala, três cristos crucificados e policromados, provenientes da Igreja de N.Sª do Carmo de São João del Rei, demonstram a qualidade técnica e o detalhamento anatômico na rica produção do artista. Em destaque, uma imagem de São Jorge, com típicos traços rococó, que foi encomendada pela Câmara da Vila Rica de São João del Rei, em 1765.
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 São Jorge, Santo Elias e Santa Margarida, do Mestre do Cajuru, na 2ª sala da exposição. | |
 Detalhe da imagem de São Jorge, Mestre do Cajuru. Séc. XVIII. | |
Características
Segundo o restaurador Carlos Magno, a obra do Mestre do Cajuru é revelada em:
- Traços repetitivos quase como uma assinatura, denunciando muitas vezes sua autoria.
- Uso de figuras alongadas, com cabelos em mechas de delicados fios, sempre voltados para trás, caindo às costas como um "rabo de cavalo".
- Olhos grandes e amendoados, posicionados lateralmente nas faces.
- Mãos com dedos longos repetindo quase sempre o gestual.
- Ombros atrofiados e caídos.
- Túnicas com linhas verticais da cintura para baixo, abrindo-se em drapeados na parte inferior e nuvens volumosas com movimentos ondulantes ou entrelaçados como elos.
Mestre Valentim Correa Pais
Na 3ª sala da exposição, agora dedicada ao Mestre Valentim, o visitante pode observar nos banners os perfis do artista, através de 9 exemplares, incluindo N.Sª da Piedade, São Sebastião, entre outros. Num outro painel, a comparação do tratamento dado aos cabelos.
Estudo comparativo dos cabelos de N.Sª da Glória, de Barbacena (A);
N.Sª da Glória, da Catedral do Pilar (B); e de São José (C).
Ao fundo da sala, um conjunto composto por N.Sª da Assunção, N.Sª da Glória, N.Sª das Dores e N.Sª da Boa Morte, expôe maiores peculiaridades da obra do artista. Ao centro, outro belíssimo conjunto de São Sebastião e São Manoel, Mártir.
Dando continuidade ao circuito, duas magníficas imagens de N.Sª da Piedade revelam a delicadeza do Mestre Valentim mineiro, além dos demais exemplares que compõem a exposição inédita no país e no mundo.
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 Conjunto de esculturas, tendo ao fundo Cristo Crucificado e, ao centro, São Manuel, Mártir e São Sebastião. Séc. XVIII. | |
 N.Sª da Assunção, N.Sª da Glória, N.Sª das Dores e N.Sª da Boa Morte. Séc. XVIII. | |
Para relatar maiores detalhes, reproduzimos abaixo o bate-papo que Janine Ojeda teve com os restauradores e curadores da mostra, Carlos Magno de Araújo e Edmilson Barreto Marques.
CARLOS MAGNO
 O restaurador Carlos Magno ao lado de São Rafael e Tobias, de autoria do Mestre do Cajuru |
RM: Como tem sido a sua trajetória como restaurador?
Carlos Magno: Eu nasci e fui criado em São João del Rei, e talvez pelo fato de morar numa cidade histórica, acabei me interessando por imagens, até mesmo pelo contato constante com as igrejas. Desde o início, eu me "aventurava" a restaurar santos de gesso da família e passei a gostar desse tipo de trabalho. A partir daí, eu tomei conhecimento que havia um curso de conservação na Fundação de Artes de Ouro Preto, e segui para os meus estudos nessa área do restauro, passando pelo curso do CECOR, em Belo Horizonte, além de fazer um curso de especialização de Cultura e Arte Barroca. Aproveitando essa fase de formação, estudei também História na Universidade Federal de Ouro Preto.
RM: De que forma você chegou à região desses "novos" mestres mineiros?
Carlos Magno: Como nós trabalhamos na área há muitos anos, acabamos conquistando um espaço nessa região de Minas Gerais. Então, quando existe algum trabalho de conservação ou restauração, principalmente na região dos Campos das Vertentes e no sul de Minas, normalmente os padres nos procuram, em função de referências de outros trabalhos já realizados.
RM: Qual o trabalho mais marcante na sua carreira?
Carlos Magno: Muitos trabalhos foram importantes, mas eu destacaria dois deles: o trabalho de restauração do forro da Capela de N.Sª do Rosário, em Santa Rita Durão (próxima à cidade de Mariana), que tinha sido desmontado há muitos anos, estando sem mapeamento e sem numeração, e nós conseguimos remapear as tábuas soltas, colocar o forro no lugar e reintegrar toda sua pintura, devolvendo o forro restaurado à comunidade; o outro trabalho foi o de recuperação da pintura original, em estilo rococó, da Igreja de São Brás do Suassuí, que estava toda repintada, e que levou quase 2 anos para ser concluída.
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 Interior da Igreja de São Francisco de Assis de São João del Rei em fase de restauração (set/2003) | |
RM: Como está o restauro da Igreja de S. Francisco de Assis de São João del Rei?
Carlos Magno: O trabalho de restauro da Igreja de São Francisco de Assis foi iniciado no ano passado, com recursos do Ministério da Cultura. Na 1ª etapa, nós recuperamos a capela-mor, um lustre de cristal baccarrat muito importante para a cidade e fizemos a limpeza da escadaria da fachada. Com a saída de mais de verba, nós estamos terminando a 2ª etapa do projeto, que inclui a cantaria das laterais da igreja e dos fundos e a recuperação dos altares e da nave da igreja. |
RM: Como se processou o estudo e a atribuição de obras ao Mestre do Cajuru?
Carlos Magno: Na verdade, em São Miguel do Cajuru, havia um grupo com 5 imagens, e parte delas já tinha sido restaurada em 1999. A partir dessa restauração, foi revelada a pintura original que estava escondida sob a mesma. É importante destacar que essa policromia original tinha coerência com o restante da igreja, tanto com relação aos forros como aos retábulos. Além disso, a pintura dos forros já tinham sido atribuídas ao Joaquim José da Natividade por Myriam Ribeiro há muitos anos atrás. Logo, com a recuperação da policromia original das 4 imagens, chegou-se à conclusão que o pintor do forro era o policromador das imagens.
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RM: Que aspectos foram ressaltados na peça da N.Sª da Conceição?
Carlos Magno: A N.Sª da Conceição, que também pertence ao grupo, e que passou pelo processo de restauração e conservação, incluindo da parte estrutural e do suporte, veio a confirmar, mais uma vez, que todo o conjunto era policromado pelo mesmo pintor. Através da remoção da repintura dessa imagem, além de descobrir a policromia original em bom estado, foi resgatada, de certa forma, a qualidade da talha, facilitando a atribuição a um único escultor.
N.Sª da Conceição do Mestre do Cajuru, em madeira entalhada, policromada e dourada. Séc. XVIII |
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RM: Como você chegou a essa denominação de Mestre do Cajuru?
Carlos Magno: Bem, foi justamente na localidade de São Miguel do Cajuru, que nós encontramos o maior grupo de imagens concentrado dentro da mesma igreja, nos levando a chamá-lo de Mestre do Cajuru para facilitar o início das pesquisas. Após essa fase, será necessário ampliar a pesquisa a fim de encontrar alguma documentação que faça referência ao nome verdadeiro do artista, como um recibo ou qualquer outro documento que seja achado. No início, era importante que fosse dado um nome ao artista para que nós pudéssemos avançar nos trabalhos.
RM: Por quanto tempo as obras dos mestres estarão expostas no museu?
Carlos Magno: Na realidade, essa exposição foi aberta para o Congresso do Centro de Estudos da Imaginária Brasileira (CEIB), que aconteceu esse ano aqui em São João del Rei, ou seja, a função da mostra era apresentar esse trabalho de pesquisa para os congressistas. Mas, como a população das comunidades emprestaram as imagens, assim como as irmandades, a melhor opção foi estender a mostra por mais dois dias, permitindo, assim, que ela pudesse ser vista no fim-de-semana.
EDMILSON MARQUES
 O restaurador Edmilson Barreto Marques na mostra, tendo, ao fundo, duas imagens de N.Sª da Piedade do Mestre Valentim, do séc. XVIII. |
RM: De onde partiu o interesse pela arte do inédito Mestre Valentim mineiro?
Edmilson: A princípio, esse trabalho foi decorrente do próprio trabalho de restauração, já que atuamos muito em capelas e igrejas dessa região de Minas Gerais. A partir da observação dos santeiros, até mesmo ao restaurar peças isoladas, passei a reconhecer as suas características. O avanço desse trabalho até a pesquisa foi de certa forma simples, praticamente como consequência da facilidade que nós tínhamos para localização das imagens, a realização do registro específico e detalhado das peças (fotografia) e início das comparações estilísticas.
RM: Quanto tempo você se dedicou até chegar à descoberta do santeiro?
Edmilson: Todo o processo começou há uns 10 anos atrás, e de lá para cá, a busca pela confirmação e maiores detalhes voltados para essa pesquisa praticamente se tornou um vício.
RM: Quais são os locais de origem dessas imagens?
Edmilson: O conjunto de obras do Mestre Valentim vem de uma região chamada Rezende Costa e de São Miguel do Cajuru, local de onde também são provenientes peças do Mestre do Cajuru. São obras que saíram de igrejas e coleções particulares.
 Conjunto de esculturas de autoria do Mestre Valentim Correa Pais. Séc. XVIII. |
RM: Essa foi a 1ª apresentação da atribuição de peças ao Mestre Valentim?
Edmilson: Na realidade, ao realizar o curso de restauração do CECOR, em Belo Horizonte, a minha monografia foi desenvolvida encima da restauração de uma peça do mestre Valentim, já com o intuito de realizar o aprofundamento da pesquisa sobre o santeiro. E, após a apresentação no congresso do Centro de Estudos de Imaginária Brasileira (CEIB), que aconteceu exatamente em São João del Rei, eu e o Carlos Magno optamos em montar essa exposição temporária para a apresentação das peças dos dois santeiros tão representativos da arte colonial mineira.
Obs: A exposição "Primeira Mostra dos Escultores Setecentistas" aconteceu no Museu de Arte Sacra de São João del Rei, local onde funcionou a 1ª Cadeia Pública construída na cidade, de 1743 a 1853.
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ANIMA Conservação e Restauração
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