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Parque Nacional do Caraça, MG

 
 

- O Paraíso Escondido nas Montanhas de Minas Gerais -

Claudia Soares,
jornalista.


Catas Altas
Rugendas - Séc. XIX

“Só o Caraça paga
toda a viagem a Minas.”

D. Pedro II,  1881

          O Parque Nacional do Caraça, localizado na Serra do Espinhaço, no município de Catas Altas, que já foi colégio e seminário, hoje abriga a Hospedaria do Caraça, além de manter todo seu entorno natural, transformado em Reserva Particular de Patrimônio Natural, através do Decreto 98.914, de 31/01/1990, garantindo que esse santuário ecológico não venha sofrer futuros danos.

          O santuário é mais um local especial de observação do rico patrimônio do Brasil, com seus rios, cascatas, matas, grutas e riachos, escondido entre as montanhas que compõem a típica paisagem da região que um dia serviu de passagem a muitos bandeirantes na época do ciclo do ouro no Brasil, durante o século XVIII.

          Não só o Caraça, como toda a região de Catas Altas serviu de inspiração para muitos pintores viajantes, como foi o caso de Johann Moritz Rugendas, que esteve em Minas Gerais, em 1824, registrando a paisagem local no século XIX. Outra obra de arte, de autoria anônima, que retrata a beleza do Colégio do Caraça também no século XIX, faz parte do acervo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Vê-se, assim, que a paisagem possibilita, aos atuais visitantes, um real resgate do passado, ao sentirem a mesma fascinação causada aos desbravadores do século XVIII e XIX que se dirigiam a esse paraíso ambiental em suas expedições.


Vista do Colégio do Caraça - Séc. XIX
(Acervo do Museu da Inconfidência)

          Tendo noção da importância do Caraça em nossa história, o Revista Museu convidou a jornalista Cláudia Soares para expor aos leitores um outra visão de sua recente viagem, feita a essa enigmática região, onde ela dá especial destaque à flora e fauna, sobretudo ao famoso lobo-guará, sem deixar de relatar o encantamento que é proporcionado por um passeio ecológico e cultural no Brasil.

          Venha conosco conhecer um pouco mais sobre esse paraíso ecológico brasileiro.

A LENDA DO SANTUÁRIO

          A vida do fundador do Caraça está envolta em lendas e mistérios. A lenda, conhecida em Minas, diz que o português Carlos Mendonça pertencia à família Távora.

          Sendo Portugal, no século XVIII, um estado absolutista, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, acreditava que os jesuítas representavam uma séria ameaça à nobreza dominante da época, passando, então, a perseguí-los impiedosamente.


D. José I


Marquês de Pombal

          No ano de 1758, quando o Rei D. José foi vítima de um atentado, a suspeita recaiu sobre os Távoras, levando o Marquês de Pombal a castigar a família, queimando onze de seus membros em praça pública. Um deles, queimado em efígie, seria o jovem Carlos Mendonça Távora, que conseguiu fugir em um navio para o Brasil, escondendo sua origem sob um hábito religioso franciscano e utilizando o nome de Irmão Lourenço.

          Ao chegar a Minas Gerais, encontrou uma região isolada e protegida por montanhas.  Numa delas era possível enxergar os contornos do rosto de um gigante, batizado de Serra do Caraça.

          Encantado pelo lugar, o Irmão Lourenço se estabeleceu na região e fundou, em 1774, a Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.  Assim, nascia o Santuário do Caraça, que se constitui em um rico patrimônio religioso, artístico e ecológico, localizado a 100 quilômetros de Belo Horizonte.

A PAIXÃO DA FAMÍLIA IMPERIAL


Cachoeira dos
Campos de Fora

          D. Pedro I,  assim como seu pai, D. João VI, tinha um grande carinho pelo Caraça.  Tendo que assinar uma lei – contra os frades e padres estrangeiros - , ele defendeu os amigos de seu pai e conferiu, em 1824, o título de Imperial à Casa do Caraça.  No dia 16 de fevereiro de 1831, acompanhado da Imperatriz D. Amélia, foi visitar a Serra. No dia 7 de abril deste mesmo ano, assinava a abdicação e voltava para Portugal.

          Como o pai, D. Pedro II visitou o Caraça em 1881, com a Imperatriz D. Teresa Cristina.  Durante um passeio, na ladeira das sampaias, Sua Majestade escorregou em uma pedra batendo os assentos reais. Ainda hoje está registrado o tombo, onde podem ser vistas, gravadas na pedra, a data e as armas reais.

          A admiração de D. Pedro II foi à primeira vista: “Não posso descrever tanta beleza!”... “passei por uma das mais belas cascatas que conheço... Admirei as montanhas, entre as quais a chamada Carapuça”.

A CONSTRUÇÃO E O ACERVO HISTÓRICO

          A antiga ermida é hoje uma igreja em estilo neogótico, que teve sua construção iniciada em 1876 e consagrada em 1883. Seu arquiteto foi o Pe. Jules Clavelin, que era o diretor do Colégio e do Seminário e viu que na igrejinha não cabiam os 400 alunos.

          O santuário sediou um seminário e um colégio interno, que funcionou durante 150 anos.  O colégio foi aberto oficialmente no começo de 1821, e manteve suas atividades até 1968. Por lá passaram mais de 10 mil alunos, entre eles: 500 sacerdotes, 21 bispos e 120 deputados ou senadores por Minas Gerais, e 28 altos postos do Governo do País ou dos Estados, destacando-se Afonso Pena e Artur Bernardes, ex-presidentes do Brasil.


Vista do Mosteiro e Casa das Sampaias

          No mosteiro, o visitante pode apreciar a igreja, o claustro, o calvário com túmulos, a livraria cheia de exemplares raros, as ruínas do colégio e o museu com objetos que eram usados no mosteiro décadas atrás, além do órgão e dos vitrais. Nos arredores, podem ser vistos o muro da antiga senzala e a casa das sampaias, onde dormiam as funcionárias do seminário.

          Em 1828, a obra-prima conhecida como “A Ceia de Ataíde” foi comprada pelos padres lazaristas por 324$000, revelando a arte do pintor Manoel da Costa Ataíde, (1762-1837). Ainda hoje, podemos admirá-la na igreja neogótica, em perfeito estado de conservação.

          Outra grande obra é o órgão construído artesanalmente pelo Padre Luis Boavida, em 1881.  A madeira empregada saiu toda da Serra do Caraça e a peça contém 700 tubos e 700 notas.

          O turista que entrar na igreja se surpreenderá com a beleza de seus cinco vitrais. O vitral do meio, de 5 metros de atura, que representa o Menino Jesus no Templo, foi doação de D. Pedro II.  Como sinal, aos pés do Menino Deus, está gravada a Coroa Imperial, tendo abaixo o escudo do Império.


Vitrais (doação de D. Pedro II)

          Outra doação de Sua Majestade está exposta na sala de visitas: um quadro a óleo, com o Colégio do Caraça retratado na raiz da serra, de autoria do pintor alemão Jorge Grimm, professor da Academia de Belas Artes.

          Boa parte do que restou da biblioteca, após o incêndio de 1968, está muito bem protegida no mosteiro. São 25 mil volumes que contam com raridades como, por exemplo, o mais antigo livro do Caraça : História Natural, de Plinius, de 1489.

          Do que sobrou do prédio incendiado, que servia aos alunos do colégio, foi feito um belíssimo museu, onde pode-se admirar objetos que pertenceram ao Irmão Lourenço, as camas de D. Pedro II e sua esposa D.Teresa Cristina, as palmatórias, o fogareiro que ocasionou o incêndio, entre outros.

O INCÊNDIO

          A noite de 28 de maio de 1968 pôs fim ao tradicional colégio e seminário do Caraça.

          Um aluno, que ficou até mais tarde fazendo serviços de encadernação, esqueceu ligado o fogareiro elétrico, que era usado para manter em banho-maria a lata de cola. O prédio que servia de dormitório para os alunos e o prédio da escola onde tinha a biblioteca com 30 mil livros (14 mil foram salvos), a farmácia e a enfermaria, foram destruídos pelo fogo.

TRILHAS ECOLÓGICAS

          O Parque Natural do Caraça é um bem-sucedido exemplo de como é possível manter, no Brasil, reservas privadas para a exploração do ecoturismo.  Esse parque oferece as trilhas de mountain biking, trekking e off-road mais bonitas de Minas Gerais.


Paisagem com a Serra do Caraça ao fundo

          Um dos trekkings mais tradicionais da região é o que conduz ao Pico do Inficionado, a 2068 metros.  São 9 quilômetros que levam cerca de 4 horas para ser percorridos, só de ida. No topo do pico tem-se uma visão panorâmica de toda a região.  Também o Pico da Verruginha e Campo das Antas (7 km da sede), além da cachoeira do Campo Grande, a 1 km do Pico, e o Pico do Cajerana (10 km), trekking para o Pico do Sol (9 km). Mountain biking para o Campo de Fora (6 Km) finaliza o percurso com uma cachoeira de 50 metros.

          Os que preferem caminhadas mais leves devem fazer a Trilha da Cascatinha.  Em menos de meia hora chega-se a 4 piscinas naturais.  Já a Cascatona fica um pouco mais longe (outros 6 quilômetros de caminhada). Algumas dessas trilhas podem ser percorridas de bike.  A mais tradicional é a que vai à Gruta da Bocaina. A cachoeira do mesmo nome, que fica a 6 km da sede, é lindíssima.  A água dos córregos e cachoeiras têm coloração avermelhada por causa do ferro contido nelas, em decorrência das rochas de quartizito presentes no solo.


Cascatinha


Cascatona

          Há também trilhas para o Mirante (2,5 km), com piscina natural a 500 m do local, e o Banho do Belchor ( 3 km), com poço natural para banho.

          Os atrativos não se resumem apenas ao Parque do Caraça.  A região, formada pelos municípios de Catas Altas, Barão de Cocais e Santa Bárbara, oferece mais de 50 trilhas.

OS LOBOS DÃO AS BOAS VINDAS

          Há na região pelo menos uma família de lobos-guarás, animais ameaçados de extinção.  Todos os dias, ao anoitecer, um ou dois deles se aproximam do santuário, sobem a escadaria da igreja e comem na mão de um dos padres.


lobo-guará

          É um ritual.  Basta sentar-se na varanda em frente à igreja, comendo pipoca e bebendo um chá caseiro oferecido pelos padres,  e esperar, com as máquinas fotográficas em punho.

          O hábito surgiu há algumas décadas quando para evitar que os lobos atacassem o galinheiro, um dos padres passou a deixar pedaços de carne para eles, que se acostumaram com a mordomia e acabaram não se importando com a presença das pessoas que assistiam seu “jantar” .  Os primeiros lobos morreram de velhice e hoje são seus filhotes já adultos, às vezes levam a sua prole.

          Os lobos não são os únicos animais que freqüentam o parque.  Por volta das 6 horas da manhã, aves como mutuns, jacus, gaviões e papagaios reúnem-se, para o êxtase dos visitantes. No mesmo horário, macacos fazem algazarra no Tanque Grande.  Jaguatiricas, quatis, tamanduá-bandeira, sagüis, tucanos e saracuras também fazem parte da rica fauna.


hospedaria

COMO CHEGAR:

  • Saindo da cidade de São Paulo deve seguir pela BR-381 (Rodovia Fernão Dias) até Belo Horizonte.
    De lá, siga 120 Km pela BR-262, no sentido Vitória.
    Depois da cidade de Barão de Cocais, são mais 25 km até o Caraça.
  • Quem sai do Rio de Janeiro deve pegar a BR-040 até Belo Horizonte.
    Desse ponto em diante o caminho é o mesmo de quem vem de São Paulo.
    Se não estiver de carro, tome um ônibus até Santa Bárbara ou Barão de Cocais, cidades 25 km de distância do parque, de onde se vai de táxi.

ONDE FICAR:

  • Hospedaria do Caraça - há no local quartos disponíveis para 140 hóspedes, sala de convenções para 90 pessoas e refeitório. Os preços variam para apartamentos, quartos e alojamentos, todos com as três refeições incluídas.
    Tel.: (31) 3837-2698
    Site: 
    http://www.acesso.com.br/aealac
    Horário de funcionamento do parque: todos os dias, das 7h às 17h.

QUANDO IR:

Em qualquer época do ano, mas os meses de maio a setembro são propícios para caminhadas.  No verão, quando está mais quente, a temperatura chega aos 25º C.  De maio a agosto, surgem geadas e nevoeiros pela manhã; de dezembro a abril, há chuvas repentinas e violentas.  Prefira visitar o mosteiro fora dos períodos de férias ou feriados, quando o número de turistas é menor.

QUEM LEVA:

Não deixe de procurar o João Júlio e Toninho, tel.:  (31) 832-1889 e (31) 3832-1380, respectivamente. Eles conhecem cada palmo do lugar, além de serem companhias muito agradáveis. Não se aventure sozinho, não é raro pessoas se perderem por lá.

ONDE COMER: 

Na própria hospedaria. Self-service de comida caseira. As verduras são todas da própria horta.  O café da manhã é colonial, com ovos caipiras,  pães caseiros e frutas.

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- Postado em 19 de agosto de 2003 \ 22:11 por Editoria RM

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