CARTA DO RESTAURO 1972
MINISTÉRIO DE INSTRUÇÃO PÚBLICA
GOVERNO DA ITÁLIA
CIRCULAR Nº 117 DE 6 DE ABRIL DE 1972
ANEXO
D
Instruções
para a tutela dos centros históricos
Para
efeito de identificar os centros históricos, levam-se
em consideração não apenas os antigos centros urbanos,
assim tradicionalmente entendidos, como também, de um
modo geral, todos os assentamentos humanos cujas estruturas,
unitárias ou fragmentárias, ainda que se tenham transformado
ao longo do tempo, hajam se constituído no passado ou,
entre muitos, os que eventualmente tenham adquirido
um valor especial como testemunho histórico ou características
urbanísticas ou arquitetônicas particulares.
Sua
natureza histórica se refere ao interesse que tais assentamentos
apresentarem como testemunhos de civilizações do passado
e como documentos de cultura urbana, inclusive independentemente
de seu intrínseco valor artístico ou formal, ou de seu
aspecto peculiar enquanto ambiente, que podem enriquecer
e ressaltar posteriormente seu valor, já que não só
a arquitetura, mas também a estrutura urbanística, têm
por si mesmas um significado e um valor.
As
intervenções de restauração nos centros históricos têm
a finalidade de garantir - através de meios e procedimentos
ordinários e extraordinários - a permanência no tempo
dos valores que caracterizam esses conjuntos. A restauração
não se limita, portanto, a operações destinadas a conservar
unicamente os caracteres formais de arquiteturas ou
de ambientes isolados, mas se estende também à conservação
substancial das características conjunturais do organismo
urbanístico completo e de todos os elementos que concorrem
para definir tais características.
Para
que o conjunto urbanístico em questão possa ser adequadamente
salvaguardado, tanto em relação a sua continuidade no
tempo como ao desenvolvimento de uma vida de cidadania
e modernidade em seu interior, é necessário principalmente
que os centros históricos sejam reorganizados em seu
mais amplo contexto urbano e territorial e em suas relações
e conexões com futuros desenvolvimentos; tudo isso,
além do mais, com o fim de coordenar as ações urbanísticas
de maneira a obter a salvaguarda e a recuperação do
centro histórico a partir do exterior da cidade, através
de um planejamento físico territorial adequado. Por
meio de tais intervenções (a serem efetuadas com os
instrumentos urbanísticos), poder-se-á configurar um
novo organismo urbano, em que se subtraiam do centro
histórico as funções que não serão compatíveis com sua
recuperação em termos de saneamento e de conservação.
A
coordenação se posicionará também em relação à exigência
de salvaguarda do contexto ambiental mais geral do território,
principalmente quando lhe houver assumido valores de
especial significado, estreitamente unidos às estruturas
históricas tal como têm chegado até nós (como, por exemplo,
a cercadura de colinas em torno de Florença, a laguna
veneziana, as centúrias romanas de Valpadana, a zona
trulli de Apulia, etc.).
No
que respeita aos elementos individuais através dos quais
se efetua a salvaguarda do conjunto, há que serem considerados
tanto os elementos idílicos como os demais elementos
que constituem os espaços exteriores (ruas, praças,
etc) e interiores (pátios, jardins, espaços livres,
etc) e outras estruturas significativas (muralhas, portas,
fortalezas, etc) assim como eventuais elementos naturais
que acompanharem o conjunto, caracterizando-o de forma
mais ou menos acentuada (entornos naturais, cursos fluviais,
singularidades geomórficas,etc.).
Os
elementos idílicos que formam parte do conjunto devem
ser conservados não apenas quanto aos aspectos formais,
que determinam sua a expressão arquitetônica ou ambiental,
como ainda quanto a seus caracteres tipológicos enquanto
expressão de funções que também têm caracterizado, ao
longo do tempo, a utilização dos elementos favoráveis.
Com
o objetivo de certificar-se de todos os valores urbanísticos
, arquitetônicos, ambientais, tipológicos, construtivos,
etc., qualquer intervenção de restauração terá que ser
precedida de uma atenta leitura histórico-crítica, cujos
resultados não se dirigirão tanto a determinar uma diferenciação
operativa - posto que em todo o conjunto definido como
centro histórico dever-se-á operar com critérios homogêneos
- quanto, principalmente, à individualização dos diferentes
graus de intervenção a nível urbanístico e a nível idílico,
para determinar o tratamento necessário de saneamento
de conservação.
A
esse propósito, é necessário precisar que por saneamento
de conservação deve-se entender, sobretudo, a manutenção
das estruturas viárias e idílicas em geral (manutenção
do traçado, conservação da rede viária, de perímetro
das edificações, etc.); e, por outro lado, a manutenção
dos caracteres gerais do ambiente, que comportam a conservação
integral dos perfis monumentais e ambientais mais significativos
e a adaptação dos demais elementos ou complexos idílicos
individuais às exigências da vida moderna, consideradas
apenas excepcionalmente as substituições, ainda que
parciais, dos elementos, e apenas na medida em que sejam
compatíveis com a conservação do caráter geral das estruturas
do centro histórico.
Os
principais tipos de intervenção a nível urbanístico
são:
-
Reestruturação urbanística - Tende a consolidar as
relações do centro histórico e, eventualmente, a corrigi-las
onde houver necessidade, com a estrutura territorial
ou urbana com as quais forma unidade. É de particular
importância a análise do papel territorial e funcional
que tenha sido desempenhado pelo centro histórico
ao longo do tempo e no presente. Nesse sentido é preciso
dedicar especial atenção à análise e à reestruturação
das relações existentes entre centro histórico e desenvolvimento
urbanístico e idílico contemporâneos, principalmente
a partir do ponto-de-vista funcional e, particularmente,
com referência às compatibilidades de funções diretoras.
-
A intervenção de reestruturação urbanística deverá
tender a liberar os centros históricos de finalidades
funcionais, tecnológicas, ou de uso que, em geral,
vier a provocar-lhes um efeito caótico e degradante.
-
Reordenamento viário - Refere-se à análise e à revisão
das comunicações viárias e dos fluxos de tráfego a
que a estrutura estiver submetida, com o fim primordial
de reduzir seus aspectos patológicos e de reconduzir
o uso do centro histórico a funções compatíveis com
as estruturas de outros tempos.
-
É preciso considerar a possibilidade de integração
do mobiliário moderno e dos serviços públicos estreitamente
ligados às exigências vitais do centro.
-
Revisão dos equipamentos urbanos - Isso afeta as ruas,
as praças e todos os espaços livres existentes (pátios,
espaços interiores, jardins, etc.) com o objetivo
de obter uma conexão homogênea entre edifícios e espaços
exteriores.
-
Os principais tipos de intervenção a nível idílico
são:
.
1.
Saneamento estático e higiênico dos edifícios, que
tende à manutenção de suas estruturas e a uma utilização
equilibrada; essa intervenção se realizará em função
das técnicas, das modalidades e das advertências a
que se referem as instruções procedentes para a realização
de restaurações arquitetônicas. Nesse tipo de intervenção
é de particular importância o respeito às peculiaridades
tipológicas, construtivas e funcionais do edifício,
evitando-se qualquer transformação que altere suas
características.
2.
Renovação funcional dos elementos internos, que se
há de permitir somente nos casos em que resultar indispensável
para efeitos de manutenção em uso do edifício. Nesse
tipo de intervenção é de fundamental importância o
respeito às peculiaridades tipológicas e construtivas
dos edifícios, proibidas quaisquer intervenções que
alterem suas características, como o vazado da estrutura
ou a introdução de funções que deformarem excessivamente
o equilíbrio tipológico-estrutural do edifício.
São
instrumentos operativos dos tipos de intervenção enumerados,
especialmente:
-
planos de desenvolvimento geral, que restituírem as
relações entre o centro histórico e a cidade em seu
conjunto;
-
planos parciais relativos à reestruturação do centro
histórico em seus elementos mais significativos;
-
planos de execução setorial, referentes a uma edificação
ou a um conjunto de elementos reagrupáveis de forma
orgânica.
>
Carta do
Restauro 1972
> ANEXO
A - Instruções para a salvaguarda e a restauração
dos objetos arqueológicos
> ANEXO
B - Instruções para os critérios das restaurações
arquitetônicas
> ANEXO
C - Instruções para a execução de restaurações
pictóricas e escultóricas
> ANEXO
D - Instruções para a tutela dos centros históricos
Fonte: PRIMO, Judite. Museologia
e Patrimônio: Documentos Fundamentais – Organização
e Apresentação. Cadernos de Sociomuseologia/ nº
15, Págs.125-151; ULHT, 1999; Lisboa, Portugal.
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