CARTA DO RESTAURO 1972
MINISTÉRIO DE INSTRUÇÃO PÚBLICA
GOVERNO DA ITÁLIA
CIRCULAR Nº 117 DE 6 DE ABRIL DE 1972
ANEXO
C
Instruções
para a execução de
restaurações pictóricas e escultóricas
Operações
preliminares
A
primeira operação a realizar, antes da intervenção em
qualquer obra de arte pictórica ou escultórica, é um
reconhecimento cuidadoso de seu estado de conservação.
Em tal reconhecimento se inclui a comprovação dos diferentes
estratos materiais de que venha a estar composta a obra
e se são originais ou acréscimos e, ainda, a determinação
aproximada das diferentes épocas em que se produziram
as estratificações, modificações e acréscimos. Para
isso, redigir-se-á um inventário que constituirá parte
integrante do programa e o começo do diário de restauração.
Em continuação, deverão ser feitas as indispensáveis
fotografias da obra para documento seu estado precedente
à intervenção restauradora, devendo essas fotografias
serem obtidas, além de sob luz natural, sob luz monocromática,
com raios ultravioletas simples ou filtradas e com raios
infravermelhos, conforme o caso. É sempre aconselhável
tirar radiografias, inclusive nos casos em que, a simples
visão, não se percebam superposições. No caso de pinturas
móveis, também se deve fotografar o reverso da obra.
Se,
a partir dos documentos fotográficos - que serão detalhados
no diário da restauração - se observarem elementos problemáticos,
ficará explicada sua problemática.
Depois
de haver tirado as fotografias, dever-se-ão retirar
amostras mínimas, que abarquem todos os estratos até
o suporte, em lugares não capitais da obra, para efetuar
as secções estratigráficas, sempre que existirem estratificações
ou houver que constatar o estado de preparação.
Deverá
ser assinalado na fotografia de luz natural o ponto
exato das provas e, além disso, registrar-se no diário
da restauração uma nota de referência à fotografia.
No
que se refere às pinturas murais, ou sobre pedra, terracota
ou outro suporte (imóvel), será preciso ter conhecimento
preciso das condições do suporte em relação à umidade,
definir se se trata de umidade de infiltração, condensação
ou de capilaridade, efetuar provas da argamassa e do
conjunto dos materiais da parede e medir seu grau de
umidade.
Sempre
que se percebam ou se suponham formações de fungos,
também se realizarão análises microbiológicas.
O
problema mais peculiar das esculturas, quando não se
trata de esculturas envernizadas ou policromadas, será
certificar-se do estado de conservação da matéria de
que se realizaram e, eventualmente, obter radiografias.
Providências a serem efetuadas na execução da intervenção
restauradora
As
análises preliminares deverão ter proporcionado os meios
para orientar a intervenção na direção adequada, quer
se trate de uma simples limpeza, de um assentamento
de estratos, de eliminação de repintagens, de um traslado
ou de uma reconstrução de fragmento. O dado que seria
mais importante no que diz respeito à pintura, entretanto
- determinação da técnica empregada, nem sempre poderá
ter uma resposta científica e, portanto, a cautela e
a experimentação com os materiais a serem utilizados
na restauração não deverão ser consideradas questões
supérfluas, de um reconhecimento genérico, realizado
sobre base empírica e não científica da técnica utilizada
na pintura em questão.
No
que concerne à limpeza, poderá ser realizada, principalmente,
de dois modos: por meios mecânicos ou por meios químicos.
Há de se excluir qualquer sistema que oculte a visualização
ou a possibilidade de intervenção ou controle direto
sobre a pintura, como a câmera Pethen Koppler e similares.
Os
meios mecânicos (bisturi) deverão sempre ser utilizados
com o controle do pinacoscópio, mesmo que nem sempre
se trabalhe sob sua lente.
Os
meios químicos (dissolventes) deverão ser de tal natureza
que possam ser imediatamente neutralizados e também
que não se fixem de forma duradoura sobre os estratos
da pintura e sejam voláteis. Antes de usá-los, deverão
ser realizadas experimentações para assegurar que não
possam atacar o verniz original da pintura, nos casos
em que das secções estratigráficas haja resultado um
estrato ao menos presumível como tal.
Antes
de proceder à limpeza, qualquer que seja o meio empregado,
é necessário, ainda, controlar minuciosamente a estabilidade
da capa pictórica sobre seu suporte e proceder ao assentamento
das partes desprendidas ou em perigo de desprendimento.
Esse assentamento poderá ser realizado, conforme o caso,
de forma localizada ou com aplicação de um adesivo estendido
uniformemente, cuja penetração seja assegurada com uma
fonte de calor constante e que não apresente perigo
para a conservação da pintura. Mas, sempre que se tenha
realizado um assentamento, é regra estrita a eliminação
de qualquer resto do fixador da superfície pictórica.
Para isso, atrás do assentado, deverá ser feito um exame
minucioso com a ajuda do pinacoscópio.
Quando
for necessário proceder à proteção geral do anverso
da pintura por causa da necessidade de realizar operações
no suporte, é imprescindível que tal proteção se realize
depois da consolidação das partes levantadas ou desprendidas,
e com uma cola de dissolução muito fácil e diferente
da empregada no assentamento da cor.
Se
o suporte é de madeira e está infestado por carunchos,
térmitas, etc, a pintura deverá ser submetida à ação
de gases inseticidas adequados, que não possam danificar
a pintura. Deve-se evitar a impregnação com líquidos.
Sempre
que o estado do suporte ou da imprimação, ou ambos -
em pinturas de suporte móvel - exijam a destruição ou
o arranque do suporte e a substituição da imprimação,
será necessário que a imprimiação antiga seja levantada
integralmente à mão com o bisturi, já que adelgaçá-la
não seria suficiente, a menos que seja apenas o suporte
a parte debilitada e a imprimação se mantenha em bom
estado. Sempre que possível, é aconselhável conservar
a imprimação para manter a superfície pictórica em sua
conformação original.
Na
substituição do suporte lenhoso, quando for indispensável,
deve se evitar substituí-lo por um novo suporte composto
de peças de madeira e só é aconselhável efetuar o traslado
para um suporte rígido quando se tiver absoluta certeza
de que ele não terá um índice de dilatação diferente
do suporte eliminado. Ainda assim, o adesivo do suporte
para a tela da pintura trasladada deverá ser facilmente
solúvel, sem danificar a capa pictórica nem o adesivo
que une os estratos superficiais à tela do traslado.
Quando
o suporte lenhoso original em bom estado, mas seja necessário
retificá-lo ou colocar reforços ou rebocos, deve-se
ter presente que, como não é indispensável para a própria
fruição estética da pintura, é sempre melhor não intervir
em uma madeira antiga e já estabilizada. Se se intervier,
é preciso fazê-lo com regras tecnológicas muito precisas,
que respeitem o movimento das fibras da madeira. Dever-se-á
retirar uma amostra, identificar a espécie botânica
e averiguar seu índice de dilatação. Qualquer adição
deverá ser realizada com madeira já estabilizada e em
pequenos fragmentos, para que resulte o mais inerte
possível em relação ao suporte antigo em que se inserir.
O
reboco, qualquer que seja o material de que for feito,
deve assegurar principalmente os movimentos naturais
da madeira a que estiver fixado.
No
caso de pinturas sobre tela, a eventualidade de um traslado
deve ser efetuada com a destruição gradual e controlada
da tela deteriorada, enquanto que para a possível imprimação
(ou preparação) deverão ser seguidos os mesmos critérios
utilizados para as pranchas. Quando se tratar de pinturas
sem preparação, nas quais se tenha aplicado uma cor
muito diluída diretamente sobre o suporte (como nos
esboços de Rubens), não será possível o traslado.
A
operação de reentelar, se for realizada, deve evitar
compressões excessivas e temperaturas altas demais para
a película pictórica. Excluem-se sempre e taxativamente
operações de aplicação de uma pintura sobre tela em
um suporte rígido (maruflagem).
Os
teares deverão ser concebidos de modo a assegurar não
apenas a justa tensão, mas, também, a possibilidade
de restabelecê-la automaticamente quando a tensão vier
a ceder por causa das variações termo-higrométricas.
Providências
que se devem ter presentes na execução de restaurações
em pinturas murais
Nas
pinturas móveis a determinação da técnica pode, às vezes,
gerar uma investigação sem conclusão definitiva e, atualmente,
irresolúvel, inclusive em relação às categorias genéricas
de pintura a têmpera, a óleo, a encáustica, a aquarela
ou a pastel; nas pinturas murais, realizadas sobre preparação,
ou mesmo diretamente sobre mármore, pedra, etc, a definição
do aglutinante utilizado não será às vezes menos problemática
(como no que se refere às pinturas murais da época clássica),
mas, ao mesmo tempo, ainda mais indispensável para proceder
a qualquer operação de limpeza, de assentamento, de
arranque do estrado de cor (strappo), ou de arranque
em que também se desprendam os rebocos de preparação
(distacco). No que diz respeito especialmente
ao arranque, antes da aplicação das telas protetoras
por meio de um adesivo solúvel, é necessário assegurar-se
de que o diluente não dissolverá ou atacará o aglutinante
da pintura a ser restaurada.
Além
disso, se se tratar de uma têmpera e, de um modo geral,
das partes em têmpera de um afresco, em que certas cores
não podiam ser aplicadas a fresco, será imprescindível
um assentamento preventivo.
Ocasionalmente,
quando as cores da pintura mural se apresentarem em
um estado mais ou menos avançado de pulverulência, será
também necessário um tratamento especial para conseguir
que a cor pulverizada se perca ao mínimo.
Quanto
ao assentamento da cor, deve-se procurar um fixador
que não seja de natureza orgânica, que altere o mínimo
possível as cores originais e que não se torne irreversível
com o tempo. A cor pulverulenta será analisada para
ver se contém formações de fungos e a que causas se
podem atribuir o seu desenvolvimento. Quando se puderem
conhecer essas causas e se encontrar um fungicida adequado,
será preciso certificar-se de que não danificará a pintura
e de que possa vir, facilmente, a ser eliminado.
Quando
houver necessidade de se proceder ao arranque da pintura
de seu suporte original, entre os métodos a serem escolhidos
com probabilidades equivalentes de bom êxito é recomendável
o strappo, pela possibilidade de recuperação
da sinopia preparatória no caso dos afrescos e também
porque libera a película pictórica de restos do estuque
degradado ou em mau estado.
O
suporte em que se instalará a película pictórica tem
que oferecer garantias máximas de estabilidade, inércia
e neutralidade (ausência de ph); além disso, será necessário
que ele possa ser construído nas mesmas dimensões da
pintura, sem junções intermediárias, que, inevitavelmente,
viriam à superfície da película pictórica com o passar
do tempo. O adesivo com que se irá fixar a tela grudada
à película pictórica sobre o novo suporte terá que poder
dissolver-se com a maior facilidade com um dissolvente
que não traga danos à pintura.
Quando
se preferir manter a pintura trasladada sobre tela,
naturalmente reforçada, o bastidor deverá ser construído
de tal modo - e com materiais tais - que tenha a máxima
estabilidade, elasticidade e automatismo para restabelecer
a tensão que, por qualquer razão, climática ou não,
possa mudar.
Quando,
em vez de pinturas, trate-se de arrancar mosaicos, deverá
ficar assegurado que onde as tesselas não constituem
uma superfície completamente plana, seja fixadas e possam
ser dispostas em sua colocação original. Antes da aplicação
do engaste e da armadura de sustenção é preciso certificar-se
do estado de conservação das tesselas e, eventualmente,
consolidá-las. Deverá ser dedicado cuidado especial
à conservação das características tectônicas da superfície.
Providências
a serem observadas na execução de restaurações de obras
escultóricas
Depois
de assegurar-se do material e, eventualmente, da técnica
com que se realizaram as esculturas (se em mármore,
em pedra, estuque, cartão-pedra, terracota, louça vidrada,
argila crua e pintada, etc) em que não haja partes pintadas
e seja necessária uma limpeza, deve ser excluída a execução
de aguadas que, apesar de deixarem intacta a matéria,
ataquem a pátina. Por isso, no caso de esculturas encontradas
em escavações ou na água (mar, rios, etc), se houver
incrustações, deverão ser separadas preferivelmente
através de meios mecânicos, ou, se com dissolventes,
de natureza tal que não ataquem o material da escultura
e tampouco se fixem sobre ele.
Quando
se tratar de esculturas de madeira degradada, a utilização
de consolidantes deverá ser subordinada à conservação
do aspecto original da matéria lenhosa.
Se
a madeira estiver infectada por caruncho, cupins, etc.
será preciso submetê-la à ação de gases adequados, mas
sempre que possível, há de se evitar a impregnação com
líquidos que, mesmo na ausência de policromia, poderiam
alterar o aspecto da madeira.
No
caso de esculturas fragmentadas, para uso de eventuais
dobradiças, ligaduras, etc. deverá ser escolhido metal
inoxidável. Para os objetos de bronze, recomenda-se
um cuidado particular quanto à conservação da pátina
duplo (atacamitas, malaquitas, etc.) sempre que por
debaixo dela não existirem sinais de corrosão ativa.
Advertências
gerais para a instalação de obras de arte restauradas
Como
linha de conduta geral, uma obra de arte restaurada
não deve ser posta novamente em seu lugar original,
se a restauração tiver sido ocasionada pela situação
térmica e higrométrica do lugar como um todo ou da parede
em particular, ou se o lugar ou a parede não vierem
a ser tratados imediatamente (saneados, climatizados,
etc) de forma a garantirem a conservação e a salvaguarda
da obra de arte.
>
Carta do
Restauro 1972
> ANEXO
A - Instruções para a salvaguarda e a restauração
dos objetos arqueológicos
> ANEXO
B - Instruções para os critérios das restaurações
arquitetônicas
> ANEXO
C - Instruções para a execução de restaurações
pictóricas e escultóricas
> ANEXO
D - Instruções para a tutela dos centros históricos
Fonte: PRIMO, Judite. Museologia
e Patrimônio: Documentos Fundamentais – Organização
e Apresentação. Cadernos de Sociomuseologia/ nº
15, Págs.125-151; ULHT, 1999; Lisboa, Portugal.
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