CARTA DO RESTAURO 1972
MINISTÉRIO DE INSTRUÇÃO PÚBLICA
GOVERNO DA ITÁLIA
CIRCULAR Nº 117 DE 6 DE ABRIL DE 1972
ANEXO
B
Instruções
para os critérios das restaurações arquitetônicas
No
pressuposto de que as obras de manutenção realizadas
no devido tempo asseguram longa vida aos monumentos,
encarece-se o maior cuidado possível na vigilância contínua
dos imóveis para a adoção de medidas de caráter preventivo,
inclusive para evitar intervenções de maior amplitude.
Lembra-se,
ainda, a necessidade de considerar todas as obras de
restauração sob um substancial perfil de conservação,
respeitando os elementos acrescidos e evitando até mesmo
intervenções de renovação ou reconstituição.
Sempre
com o objetivo de assegurar a sobrevivência dos monumentos,
vem-se considerando detidamente a possibilidade de novas
utilizações para os edifícios monumentais antigos, quando
não resultarem incompatíveis com os interesses histórico-artísticos.
As obras de adaptação deverão ser limitadas ao mínimo,
conservando escrupulosamente as formas externas e evitando
alterações sensíveis das características tipológicas,
da organização estrutural e da seqüência dos espaços
internos.
A
realização do projeto para a restauração de uma obra
arquitetônica deverá ser precedida de um exaustivo estudo
sobre o monumento, elaborado de diversos pontos-de-vista
(que estabeleçam a análise de sua posição no contexto
territorial ou no tecido urbano, dos aspectos tipológicos,
das elevações e qualidades formais, dos sistemas e caracteres
construtivos, etc), relativos à obra original, assim
como os eventuais acréscimos ou modificações. Parte
integrante desse estudo serão pesquisas bibliográficas,
iconográficas e arquivísticas, etc, para obter todos
os dados históricos possíveis. O projeto se baseará
em uma completa observação gráfica e fotográfica, interpretada
também sob o aspecto metrológico, dos traçados reguladores
e dos sistemas proporcionais e compreenderá um cuidadoso
estudo específico para a verificação das condições de
estabilidade.
A
execução dos trabalhos pertinentes à restauração dos
monumentos, que quase sempre consiste em operações delicadíssimas
e sempre de grande responsabilidade, deverá ser confiada
a empresas especializadas e, quando possível, executada
sob orçamento e não sob empreitada.
As
restaurações devem ser continuamente vigiadas e supervisionadas
para que se tenha segurança sobre sua boa execução e
para que se possa intervir imediatamente no caso em
que se apresentarem fatos novos, dificuldades ou desequilíbrios
nas paredes; e também, especialmente quando intervêm
o piquete e o maço, para evitar que desapareçam elementos
antes ignorados ou eventualmente desapercebidos nas
investigações prévias, mas, certamente, bastante úteis
para o conhecimento do edifício e do sentido da restauração.
Em particular, antes de raspar uma camada de pintura,
ou eliminar um eventual reboco, o diretor dos trabalhos
deve constatar a existência ou não de qualquer marca
de decoração, tais como os grumos e coloridos originais
das paredes e abóbadas.
Uma
exigência fundamental da restauração é respeitar e salvaguardar
a autenticidade dos elementos construtivos. Este princípio
deve sempre guiar e condicionar a escolha das operações.
No caso de paredes em desaprumo, por exemplo, mesmo
quando sugiram a necessidade peremptória de demolição
e reconstrução, há que se examinar primeiro a possibilidade
de corrigi-los sem substituir a construção original.
Do
mesmo modo, a substituição de pedras corroídas só deverá
ocorrer para satisfazer às exigências de gravidade.
A eventual substituição de paramentos murais, sempre
que se tornar estritamente necessárias e nos limites
mais restritos, deverá ser sempre distinguível dos elementos
originais, diferenciando os materiais ou as superfícies
de construção recente; mas, em geral, resulta preferível
realizar em toda a extensão do contorno da reintegração
uma sinalização clara e persistente, que mostre os limites
da intervenção. Isso poderá ser conseguido com uma lâmina
de metal adequado, com uma série contínua de pequenos
fragmentos de ladrilho, ou com frestas visíveis, mais
ou menos largas e profundas, segundo o caso.
A
consolidação da pedra e de outros materiais deverá ser
experimentada quando os métodos amplamente comprovados
pelo Instituto Central da Restauração oferecerem garantias
efetivas. Deverão ser tomadas todas as precauções para
evitar o agravamento da situação; deverão ser postas
em prática, igualmente, todas as intervenções necessárias
para eliminar as causas dos danos. Enquanto, por exemplo,
se observarem silhares rasgados por grampos ou varas
de ferro que se incham com a umidade, convém desmontar
a parte deteriorada e substituir o ferro por bronze
ou cobre, ou, melhor ainda, por aço inoxidável, que
apresenta a vantagem de não manchar a pedra.
As
esculturas em pedra colocadas no exterior dos edifícios,
ou nas praças, devem ser vigiadas, intervindo-se sempre
que seja possível adotar, a partir da prática anteriormente
descrita, um método comprovado de consolidação ou de
proteção, inclusive temporal. Quando isso for impossível,
convirá transferir a escultura para um local fechado.
Para a boa conservação das fontes de pedra ou de bronze,
é necessário descalcificar a água, eliminando as concreções
calcárias e as inadequadas limpezas periódicas.
A
pátina da pedra deve ser conservada por evidentes razões
históricas, estéticas e também técnicas, já que ela
desempenha uma função protetora como ficou demostrado
pelas corrosões que se iniciam a partir das lacunas
da pátina. Podem-se eliminar as matérias acumuladas
sobre as pedras - detritos, pó, fuligem, fezes de pombo,
etc, usando apenas escovas vegetais ou jatos de ar com
pressão moderada. Dever-se-ão evitar, portanto, as escovas
metálicas e raspadores, ao mesmo tempo em que se devem
excluir, em geral, os jatos de areia, de água e de vapor
com forte pressão, sendo, ainda, desaconselháveis as
lavações de qualquer natureza.
>
Carta do
Restauro 1972
> ANEXO
A - Instruções para a salvaguarda e a restauração
dos objetos arqueológicos
> ANEXO
B - Instruções para os critérios das restaurações
arquitetônicas
> ANEXO
C - Instruções para a execução de restaurações
pictóricas e escultóricas
> ANEXO
D - Instruções para a tutela dos centros históricos
Fonte: PRIMO, Judite. Museologia
e Patrimônio: Documentos Fundamentais – Organização
e Apresentação. Cadernos de Sociomuseologia/ nº
15, Págs.90-93; ULHT, 1999; Lisboa, Portugal.
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