CARTA DO RESTAURO 1972
MINISTÉRIO DE INSTRUÇÃO PÚBLICA
GOVERNO DA ITÁLIA
CIRCULAR Nº 117 DE 6 DE ABRIL DE 1972
ANEXO
A
Instruções
para a salvaguarda
e a restauração dos objetos arqueológicos
Além
das regras gerais contidas nos artigos da Carta do Restauro,
é necessário, no campo da arqueologia, ter presentes
exigências particulares relativas à salvaguarda do subsolo
arqueológico e à conservação e restauração dos achados
durante as prospecções terrestres e subaquáticas relacionadas
no artigo 3º.
O
problema de maior importância da salvaguarda do subsolo
arqueológico está necessariamente ligado à série de
disposições e leis referentes à expropriação, à aplicação
de vínculos especiais, à criação de reservas e parques
arqueológicos. Concomitantemente às diferentes medidas
a serem tomadas nos diversos casos, será sempre necessário
efetuar um cuidadoso reconhecimento do terreno para
recopilar todos os possíveis dados localizáveis na superfície,
os materiais cerâmicos esparsos, a documentação de elementos
que houverem eventualmente aflorado, com recorrência
também à ajuda da fotografia e das prospecções elétricas,
eletromagnéticas, etc. do terreno, de modo que o conhecimento
o mais completo possível da natureza arqueológica do
terreno permita diretrizes mais precisas para a aplicação
das normas de salvaguarda, da natureza e dos limites
das relações, para o estabelecimento de planos reguladores
e para a vigilância, no caso de execução de trabalhos
agrícolas ou de urbanização.
Para
a salvaguarda do patrimônio arqueológico submarino,
vinculadas às leis e disposições que afetam as escavações
subaquáticas e que se destinam a impedir a violação
indiscriminada e irresponsável dos restos dos navios
antigos e de seu carregamento, de ruínas submersas e
de esculturas fundidas, impõem-se medidas muito precisas,
que começam pela exploração sistemática das costas italianas
por pessoal especializado, com o objetivo de chegar
à consecução de uma forma maris com indicação
de todos os restos e monumentos submersos, seja para
efeito de sua tutela ou para o da programação das pesquisas
científicas subaquáticas. A recuperação dos restos de
uma embarcação antiga não deverá ser iniciada antes
que hajam sido dispostos os sítios e o necessário acondicionamento
especial, que permita o resguardo dos materiais recuperados
do fundo do mar, todos os tratamentos específicos requeridos,
principalmente pelas partes lenhosas com grandes e prolongadas
lavações, banhos em peculiares substâncias consolidantes,
com conhecimento preciso da atmosfera e da temperatura.
Os sistemas de extração e recuperação de embarcações
submersas deverão ser estudados caso a caso, em função
do estado concreto dos restos, levando-se também em
conta as experiências adquiridas internacionalmente
nesse campo, sobretudo nos últimos decênios. Entre essas
condições concretas do resgate - assim como nas habituais
prospecções arqueológicas terrestres - deverão ser consideradas
as especiais exigências de conservação e de restauração
dos objetos de acordo com sua categoria e sua matéria;
com os materiais cerâmicos e com os utensílios, por
exemplo, tomar-se-ão todas as precauções que permitam
a identificação de eventuais vestígios ou restos de
seu conteúdo, que constituem dados preciosos para a
história do comércio e da vida na antigüidade; além
disso, dever-se-á dedicar especial atenção ao exame
e fixação de possíveis inscrições pintadas, especialmente
no corpo do utensílio.
Durante
as explorações arqueológicas terrestres, já que as normas
de recuperação e documentação abordam mais especificamente
o esquema das normas relativas à metodologia das escavações,
no que concerne à restauração devem se observar as precauções
que durante as operações de escavação garantirem a conservação
imediata dos descobrimentos, especialmente se são suscetíveis
de uma deterioração mais fácil, e a ulterior possibilidade
de salvaguarda e de restauração definitivas. No caso
de serem encontrados elementos desprendidos de uma decoração
de estuque, ou de pintura, ou mosaico ou de opus
sectile, é necessário, antes e durante o seu traslado,
mantê-los unidos com encolados de gesso, com ataduras
e adesivos adequados, de modo que seja facilitado sua
recomposição e restauração no laboratório. Na recuperação
de vidros, é aconselhável não proceder a limpeza alguma
durante a escavação, por causa da facilidade com que
podem quebrar-se. No que respeita às cerâmicas e terracotas
é indispensável não prejudicar com lavações ou limpezas
apressadas a eventual presença de pinturas, vernizes
e inscrições.
Particular
delicadeza se requer na extração de objetos ou fragmentos
de metal, principalmente se estão oxidados, devendo-se
recorrer não apenas aos sistemas de consolidação, mas
também a eventuais suportes adequados ao caso. Especial
atenção deve ser prestada a respeito de possíveis vestígios
ou reproduções de pedaços de tecidos. No esquema da
arqueologia pompeiana se utiliza principalmente, com
ampla e brilhante experiência, a obtenção de decalques
dos negativos das plantas e de materiais orgânicos suscetíveis
de deterioração através de pastas adesivas de gesso
aplicadas nas cavidades que tenham permanecido no terreno.
Para
os efeitos da aplicação destas instruções é preciso
que, durante o desenvolvimento das escavações, seja
garantida a presença de restauradores preparados para
uma primeira intervenção de recuperação e fixação, quando
for necessário.
Deverá
ser considerado com especial atenção o problema de restauração
das obras destinadas a permanecerem ou a serem reinstaladas
em seu lugar original, particularmente as pinturas e
mosaicos. Têm sido experimentados com êxito vários tipos
de suportes, de entelado e encolados em função das condições
climáticas, atmosféricas e higrométricas, que permitem
a recolocação das pinturas nos espaços convenientemente
cobertos de um edifício antigo, evitando o contato direto
com a parede e proporcionando, em troca, uma montagem
fácil e uma conservação segura. Ainda assim, devem-se
evitar as integrações, dando às lacunas uma entonação
similar à do reboco grosso, assim como há que evitar
o uso de vernizes ou ceras para reavivar as cores, pois
sempre são suscetíveis de alteração, sendo suficiente
uma limpeza cuidadosa das superfícies originais.
Quanto
aos mosaicos, é preferível, sempre que possível, sua
reinstalação no edifício de que provêm e de cuja decoração
constituem parte integrante e, em tal caso, depois de
sua retirada - que, com os métodos modernos pode ser
feita inclusive em grandes superfícies sem realizar
cortes - o sistema de cimentarão com recheio metálico
inoxidável resulta, até agora, no sistema mais idôneo
e resistente aos agentes atmosféricos. Para os mosaicos
que, ao contrário, destinam-se a serem expostos em museu,
já é amplamente utilizado o suporte em sanduíche
de materiais ligeiros, resistente e manejável.
Requerem
especiais exigências de proteção diante dos perigos
advindos da alteração climática, os interiores com pinturas
parietais in situ (grutas pré-históricas, tumbas,
pequenos recintos); nesses casos, é necessário manter
constantes dois fatores essenciais para a melhor conservação
das pinturas: o grau de umidade ambiental e a temperatura
ambiente. Esses fatores se alteram facilmente por causas
externas e estranhas a tais ambientes, especialmente
a aglomeração de visitantes, a iluminação excessiva,
as fortes mudanças atmosféricas do exterior. É necessário,
portanto, adotar cuidados especiais, inclusive na admissão
de visitantes, através de aparelhos de climatização
interpostos entre o ambiente antigo a ser protegido
e o exterior. Tais precauções têm sido tomadas no acesso
a monumentos pré-históricos pintados na França e na
Espanha e seria de desejar que o fossem em muitos de
nossos monumentos (tumbas da Tarquínia).
Para
a restauração dos monumentos arqueológicos, além das
normas gerais contidas na "Carta do Restauro" e nas
Instruções para os critérios das Restaurações Arquitetônicas,
dever-se-iam ter presentes algumas exigências em relação
às peculiaridades técnicas antigas. Em primeiro lugar,
quando para a restauração completa de um monumento -
que comporta necessariamente seu estudo histórico -
seja necessário efetuar prospecções de escavação para
o descobrimento das fundações, as operações terão que
se realizar com o método estatigráfico, que pode oferecer
dados preciosos sobre a vida e as fases do próprio edifício.
Para
a restauração de muros de opus incertum, quasi
reticulatum, reticulatum et vittatum, se
utiliza a mesma qualidade de pedra e os mesmos tipos
de peças; as partes restauradas deverão se manter em
um plano ligeiramente retrancado, enquanto que para
os muros de ladrilho será oportuno marcar com incisões
ou raias a superfície dos ladrilhos modernos. Para a
restauração de estruturas do aparelho de silharia tem
sido experimentado favoravelmente o sistema de reproduzir
os silhares nas medidas antigas, utilizando lascas do
mesmo material para obter uma entonação cromática.
Como
alternativa à retrancagem da superfície das reintegrações
de restaurações modernas, pode-se fazer uma fresta que
siga o seu contorno e delimite a parte restaurada ou
inserir uma franja sutil de material distintos. Da mesma
forma pode ser recomendável em muitos casos um tratamento
superficial de novos materiais, diferenciado pela lavradura
de incisões nas superfícies modernas.
Finalmente,
será adequado colocar em todas as zonas restauradas
placas com as datas, ou gravar siglas ou marcas especiais.
O
uso do cimento com sua superfície revestida do pó do
mesmo material do monumento a ser restaurado pode se
mostrar útil para a reintegração de tambores de colunas
antigas de mármore, de calcário, ou de caliça, visando
à obtenção de um aspecto mais ou menos rústico em relação
ao tipo de monumento; na arte romana, o mármore branco
pode ser reintegrado com travertino ou calcário em combinações
já experimentadas com êxito (restauração de Valadier,
no Arco de Tito). Nos monumentos antigos e particularmente
nos da época arcaica ou clássica, deve se evitar a combinação
de materiais diferentes e anacrônicos nas partes restauradas,
que resulta ostensiva e agressiva, inclusive do ponto-de-vista
cromático, ao mesmo tempo em que se podem utilizar diversos
sistemas para diferenciar o uso do mesmo material com
que foi construído o monumento e que é preferível manter
nas restaurações.
Constitui
um problema peculiar dos monumentos arqueológicos a
forma de cobrir os muros em ruínas, sobretudo nos em
que é preciso manter a linha irregular do perfil da
ruína; foi experimentada a aplicação de uma capa de
argamassa de alvenaria que parece dar os melhores resultados,
tanto do ponto-de-vista estético, como de sua resistência
aos agentes atmosféricos. Quanto ao problema geral da
consolidação dos materiais arquitetônicos e das esculturas
ao ar livre, devem-se evitar experimentações com métodos
não suficientemente comprovados, que possam produzir
danos irreparáveis.
Finalmente,
as medidas para a restauração e a conservação dos monumentos
arqueológicos também devem ser estudadas em função das
variadas exigências climáticas dos diferentes locais,
particularmente diversificados na Itália.
>
Carta do
Restauro 1972
> ANEXO A
- Instruções para a salvaguarda e a restauração
dos objetos arqueológicos
> ANEXO
B - Instruções para os critérios das restaurações
arquitetônicas
> ANEXO
C - Instruções para a execução de restaurações
pictóricas e escultóricas
> ANEXO
D - Instruções para a tutela dos centros históricos
Fonte: PRIMO, Judite. Museologia
e Patrimônio: Documentos Fundamentais – Organização
e Apresentação. Cadernos de Sociomuseologia/ nº
15, Págs.125-151;
ULHT, 1999; Lisboa, Portugal.
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