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A arte de Hilal no Museu Vale do Rio Doce
Com curadoria de Paulo Henkenhoff, exposição revela a poética do artista capixaba contida na delicadeza das obras que falam de suas memórias.
Aos 12 anos, Hilal Sami Hilal, perdia o pai. Essa ausência, que imprimiu em sua existência muito precocemente a noção de vazio, resultou na busca de um novo norte, de um novo caminho, e foi aos poucos sendo substituída pela arte. “Pela arte, enquanto amparo”, diz Hilal, para quem a arte viabilizou a construção do sujeito. Nesta exposição, cujo título é “Seu Sami”, ele presta homenagem ao pai, fala das suas memórias, e estabelece um paralelo entre luz e sombra, o vazio e a matéria. A mostra, que será inaugurada no dia 25 de outubro, no Museu da Vale, em Vila Velha – ES, é uma realização da Fundação Vale do Rio Doce, com o patrocínio da Companhia Vale do Rio Doce e produção da Artviva Produção Cultural. A curadoria é de Paulo Herkenhoff.
A obra de Hilal, construída ao longo de 30 anos, “é uma celebração do fazer”, diz o curador. E caracteriza-se pela leveza das formas em todos os aspectos: nos rendilhados, nascidos do papel elaborado pelo próprio artista a partir de trapos de tecidos, e também nos trabalhos no metal, onde dele retira o peso, transformando-o numa espécie de brocado. Paulo Herkenhoff destaca que a obra de Hilal tem que ser vista como uma poética de construção singular de um discurso de articulação de sentidos específicos. “O artista é o homo faber do símbolo poético. O seu trabalho está impregnado de referências da história da arte, memória psíquica, ação da libido, aspectos teóricos da psicanálise (com especial interesse no pensamento de Lacan), e valores espirituais cristão e islâmico, já que a família Hilal é de origem síria”.
“Seu Sami” irá ocupar o museu com obras criadas especialmente para o espaço. Hilal está dedicado ao projeto a cerca de um ano e pela primeira vez não trabalha sozinho: conta com uma equipe de quatro adolescentes que fazem parte do Programa Aprendiz do MVRD, que capacita jovens em ofícios relativos à montagem das exposições. Para o artista, a experiência é uma oportunidade rara e muito gratificante. “No meu processo de trabalho, o individual sempre foi pleno e dominante (e ainda acho que continuará sendo). Mas sem a participação desta equipe esta mostra não seria possível. O trabalho que o Museu desenvolve com a comunidade é para mim um dos pontos primordiais dessa exposição”.
A mostra
Os nomes da família, dos amigos e dos amigos da família compõem a estrutura de alguns trabalhos. Como o dos livros, de cobre e papel, que estarão na primeira sala do pavilhão de exposições, sobre uma superfície de madeira, lembrando uma biblioteca. Os livros são construídos a partir de placas com nomes, empilhadas como páginas. Todas iguais, intensificando os vazios, aprofundando-se. Nas paredes desta mesma sala, obras de dimensões monumentais, como o Globo, elaborado a partir de moldes de silicone, que também lembram grandes páginas. Mais de cem, penduradas no espaço, uma de frente para a outra, criando perspectiva numa profundidade de 4 metros.
A grande instalação da mostra é a obra título, “Seu Sami”. Um registro simbólico da ausência do pai vivida por Hilal. “Nesta obra, nomeio o meu vazio”, diz o artista. “Seu Sami é o pai que não tive e que a arte realizou em mim”, completa. A instalação é um espaço infinito criado por Hilal, uma seqüência de luz e sombras que ocupa toda a extensão (de 60 metros) da grande sala de exposições. Os pólos são a Sala do Amor (rendilhados florais, românticos, vivos!) e Sala da Dor (ornamentos de linhas tortuosas que lembram arame farpado). Entre os dois momentos, uma zona de absoluta escuridão. No confronto dos extremos, espelhos, que reproduzem imagens de beleza e sofrimento, criando uma profundidade infinita. E ambígua. “Falo da presença e da ausência infinitamente. Como o espelho. A ausência promove a presença da minha criação”, revela Hilal.
A mostra se completa no segundo andar do edifício sede do museu, na sala de exposições temporárias. Lá estará Sherazade, título que corresponde ao nome da narradora de As Mil e Uma Noites. A obra tem a forma de um grande livro ramificado. Capas de livros e corpo de livros (maiores do que as capas) se emendam em outras capas e corpos de livros, infinitamente, onde cada capa busca um corpo e cada corpo encontra sua capa, e mais um outro corpo e uma nova capa... Que se relacionam, se multiplicam, como uma história sem fim. “O espectador se confronta como um labirinto de Borges, mas sobretudo com a noção de negociação com o tempo inexorável”, explica Henkenhoff.
O artista Hilal Sami Hilal, descendente de família síria, nasceu em Vitória – ES, em 1952. O artista, que fundou a cadeira de Estudo do Papel na Faculdade Federal do Espírito Santo, constrói sua própria matéria prima, seu material de trabalho, e desde sempre confeccionou o papel para a sua obra e trabalha com a memória afetiva. Para fazer o papel, Hilal utiliza basicamente a fibra de algodão, vinda de trapos, roupas velhas de família. O artista conta que transformava em papel as roupas que ganhava de presente!
As trocas entre os contrastes – oriente x ocidente, passado x presente, corpo x alma, o visível x o invisível - são referências recorrentes em seus trabalhos. Seus rendados, quase transparências, têm a leveza dos movimentos mais sutis de alguns dos mais belos passos de dança. Hilal é o artista do gesto, da mutação e do movimento constantes. “Meu trabalho é como uma partitura onde vou escrevendo os ritmos”, diz o artista.
O Museu O Museu Vale do Rio Doce é um projeto da Fundação Vale do Rio Doce (FVRD), que tem como objetivo proporcionar à população capixaba um espaço de excelência em arte contemporânea, incentivar os jovens a usar a criatividade na busca do conhecimento e preservar a memória da centenária Estrada de Ferro Vitória a Minas – EFMV. Inaugurado em 15 de outubro de 1998, já sediou 27 importantes exposições e recebeu mais de 500 mil visitantes. Atualmente exibe a mostra Ficções, de Regina Silveira. Em 2006, a exposição itinerante Babel, de Cildo Meireles, realizada pelo Museu Vale do Rio Doce na Pinacoteca do Estado em São Paulo, foi premiada como melhor exposição do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).
Exposições Individuais
- Galeria de Arte do Teatro Carlos Gomes - Vitória (ES) - 1974
- Galeria Usina - Vitória (ES) - 1986/87
- Galeria Tina Zápoli - Porto Alegre (RS) - 1988
- Galeria UFF - Niterói (RJ) -198
- Galeria de Arte e Pesquisa da UFES - Vitória (ES) - 1990
- Galeria Marília Razuk - São Paulo - 1998/2000/2003
- Museu Vale do Rio Doce - V.Velha (ES) - 1998
- Galeria HAP - Rio de Janeiro (RJ) - 2001/2004
- Galeria Manuel Macedo - Belo Horizonte (MG) - 2002
- Galeria referência - Brasília (DF) - 2003
- Galeria Spectrum - Alemanha - 2003
- Museu Vale do Rio Doce - V.Velha (ES) - Out/ 2007
Coletivas
- Panorama de arte brasileira - MAM-SP -1984
- Papéis do papel - FUNARTE (RJ) - 1984
- Salão Nacional - MAM (RJ) - 1984
- Um olhar sobre Beuys - DF - 1993
- Mostra Brasil-Papel feito à mão - Equador - 1996
- Mostra Brasil-Papel feito à mão - Índia - 1997
- Mostra Brasil - Líbano - 1997
- Panorama de arte brasileira - MAM (SP) - 1997
- Arte/identidade - Siegburg / Alemanha - 2000
- O fio da trama - El Museo del barrio - NY -EUA - 2001
- 8ª Bienal do papel - Duren - Alemanha - 2002
- O sal da terra - Museu Vale do Rio Doce - ES - 2003
- Arquivo geral - RJ - 2004
- Paralela Bienal - SP - 2004
- A linha - casa de cultura de Israel - SP - 2005
- Espaço Brasil - Carreau de Temple - Paris - 2005
- Casa Andrade Murici - PR - 2006
- Radical Lace & Subversive Knitting - Museum of Arts & Design NY - EUA - 2007
- Participação em feiras internacionais - ARCO / BASEL – Miami / FIAC
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Texto de Paulo Herkenhoff
Hilal Sami Hilal: Seu Sami
Ao longo de três décadas, Hilal Sami Hilal desenvolveu uma obra consistente, marcada pela sensibilidade com relação aos materiais: a forma é gerada por meio de atos físicos orientados por determinados princípios e conceitos. Antes de tudo, a obra de Hilal é uma celebração do fazer. O artista é o homo faber dos símbolos poéticos. Aquela ação física sobre o mundo implica em impregnar referências da história da arte, memória psíquica, ação da libido, aspectos teóricos da psicanálise (com especial interesse no pensamento de Lacan), a idéia de escritura e valores espirituais cristãos e islâmicos, já que a família Hilal é de origem síria. Por isso, cada uma de suas obras deve ser vista como uma poética de construção singular de um discurso de articulação de sentidos específicos. “O trabalho é como se fosse uma partitura e eu estivesse escrevendo um ritmo”, diz o artista.
Ao lado da caligrafia árabe, a noção espiritual de ornamento é básica para a obra de Hilal. Na arte brasileira, é motivo pictórico para pintores como Guignard, Milhazes, Caetano de Almeida e Varejão.
A exposição está dividida em três áreas. Sherazade ocupa a Sala de Exposições Temporárias do Museu Vale do Rio Doce. O título corresponde ao nome da narradora de As mil e uma noites, a obra da cultura árabe que trata da construção e da negociação com o tempo inexorável. Sherazade tem a forma de um grande livro ramificado que ocupa todo o espaço da galeria. O espectador confronta-se com um labirinto de Borges, mas sobretudo com a noção de negociação com o tempo inexorável. No pavilhão de exposições, a primeira sala se organiza como uma biblioteca, que reúne dezenas de obras esparsas de todos os formatos (livros, folhas esparsas, esfera, escritas, fotografia), entre elas o Atlas e o Globo de dimensões monumentais.
Por uma razão precisa, a mostra no Museu da Vale do Rio Doce tem o inesperado título Seu Sami, para a grande instalação. É uma homenagem do artista ao pai, seu Sami, mas se refere também à questão lacaniana do nome do pai. Com uma doença cardíaca, seu Sami passou seus últimos anos de vida na cama e morreu quando Hilal tinha doze anos de idade. Assim, o trabalho de Hilal tem o sentido de dar nome a esta ausência do pai. Na cultura islâmica, o ornamento toma lugar daquilo que não pode ser representado. A obra passa, portanto, pelo “vazio da ausência” (perda e falta), simbolizado nas grandes superfícies de ornamentos vazados. O trabalho é a busca de certificar a presença do pai. Pendurados nas paredes, essas superfícies são um abrigo no vazio.
A instalação é um registro simbólico daquela questão da ausência do pai na modernidade. Assim, este Seu Sami é toda ausência do pai. Os pólos são a Sala do amor e a Sala da dor e, entre eles, uma zona fantasmal de escuridão. No confronto dos espelhos nos extremos (alusões ao desejo mimético do pai, à fase do espelho na criança), Hilal cria um espaço infinito. A dor representa-se nos ornamentos feitos de arame farpado, modo de estabelecer uma sofrida beleza.
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Museu Vale do Rio Doce Antiga Estação Pedro Nolasco s/n - Argolas Vila Velha - ES - Brasil Tel: 55 27 3333-2484 De terça a domingo, das 10h às 18h Sexta, das 12h às 20h Período: de 26 de outubro a 17 de fevereiro Abertura: dia 25 de outubro, para convidados
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