- Uma reflexão sobre as descobertas -
por Antonio Carlos de Lima Canto *
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 Fachada da Igreja da Santa Casa de Misericórdia (PB) | |
Introdução
De maneira simultânea à recuperação arquitetônica e artística dos elementos pertencentes à Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba, foram realizadas pesquisas arqueológicas em todo o interior da igreja. Os trabalhos de arqueologia revelaram que igreja da Misericórdia, atualmente configurada por linhas arquitetônica simples e bastante alteradas, teve como origem uma pequena capela erguida no mesmo local, possivelmente nas primeiras décadas do século XVI.
Através do estudo da distribuição espacial dos artefatos e das estruturas arquitetônicas remanescentes na Igreja da Santa Casa de Misericórdia pôde-se avaliar a importância dos achados arqueológicos dentro de um contexto mais geral de forma a produzir conhecimento sobre os processos de ocupação e história da edificação. |
A recuperação dos vestígios arqueológicos da Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba, permitiram traçar um quadro consistente do comportamento social e religioso da população paraibana nos últimos séculos.
O resgate das informações históricas e religiosas deste monumento do século XVI (tombada pelo Patrimônio Nacional desde 1938) reflete uma carga não apenas científica, mas simbólica de um patrimônio que, sem sombras de dúvida, acompanhou importantes momentos da história da Paraíba.
A Pesquisa Arqueológica
Ao se avaliar o significativo material construtivo resgatado das escavações na referida Igreja, percebe-se que, anteriormente a construção da mesma, o espaço em que se encontra implantada tal edificação passou por um processo de alteração bastante significativo. Registros de uma sucessão de pisos, bem como fundações de edifícios dos mais diversificados materiais construtivos (tijolos compactos, blocos de pedra em cantaria) possibilitam inferir descartes de edificações anteriores à construção da Igreja.
Uma análise detalhada das estruturas originais da Igreja evidenciou adaptações (reaproveitamento) das fundações de uma edificação anterior. Durante os trabalhos de arqueologia foram realizadas, também, prospecções nas paredes da Igreja. Tal atividade pautou-se na perspectiva de se identificar o tipo de argamassa utilizada na sua construção. O resultado dessas prospecções indicou argamassas diferenciadas em alguns pontos da Igreja, sugerindo alterações no seu processo construtivo.
A existência recorrente das estruturas em pedra calcária no subsolo da Igreja abriu um leque de hipóteses interpretativas que foram trabalhadas em associação com o material arqueológico recuperado. A configuração atual da Igreja se caracteriza por um monumento muito alterado, acrescido por elementos arquitetônicos severos, incorporados, sobretudo, dos séculos XIX e XX, indicando inúmeras reformas e/ou remodelações.
Durante as escavações arqueológicas na Igreja da Santa Casa de Misericórdia, cujos primórdios arquitetônicos datam do início do século XVI, foram encontradas estruturas em pedra calcária que parecem pertencer a uma “Capela Primitiva”. Associadas às fundações, estão alguns sepultamentos secundários (desarticulados), cerâmicas e fragmentos de faiança. Os trabalhos de prospecção arqueológica na Igreja da Misericórdia revelaram uma série de informações que até então se mostravam encobertas por anos de história e acontecimentos.
Nesta pesquisa implementamos algumas tentativas de superposição de plantas-baixas da Igreja, levantadas a partir da inexpressiva bibliografia disponível e das sistemáticas escavações empreendidas. Com base neste procedimento estamos trabalhando com a hipótese de delimitação preliminar da área interna e externa da edificação no período da “Capela Primitiva”.
Os primeiros dados referentes ao templo anterior, nos revelam uma edificação de menor proporção, construída em cantaria e situada no espaço central da nave da Igreja.
Acreditamos que este templo, de menor porte, tenha sido a edificação idealizada pelo Senhor de Engenho Duarte Gomes da Silveira (1555 - 1644), a partir da doação do seu patrimônio, na perspectiva de que a população pudesse praticar exercícios religiosos.
Como não dispomos de uma documentação sobre esta capela (ermida?), mas de elementos arquitetônicos que permitem delinear uma construção anterior, é de se pensar que tal capela tenha sido destruída no período de ocupação holandesa no Estado da Paraíba (1634-1654).
A bibliografia disponível nos informa que o arquivo da Igreja da Santa Casa de Misericórdia se perdeu nesse período. Diante deste fato, é possível conjecturar que a primeira ampliação desta ermida tenha ocorrido em meados do século XVII.
Das prospecções arqueológicas na área em que funcionou a “Capela Primitiva”, pudemos resgatar uma quantidade considerável de artefatos ósseos pertencentes, possivelmente, à aristocracia paraibana dos últimos séculos. Os relatos dos cronistas nos informam que no espaço interno das igrejas ficavam as figuras ilustres, como os governantes, os membros da própria Igreja Católica e as pessoas de posse.
Com base na distribuição espacial das estruturas e fundações em pedra calcária encontradas durante a perícia arqueológica, estamos inferindo, com base nos elementos materiais conservados, as delimitações desta “Capela Primitiva”.
Ao realizarmos esta atividade pudemos identificar que alguns dos sepultamentos recuperados estavam na área externa desta pequena edificação. Os dados históricos registram que do lado de fora das unidades religiosas eram enterrados os cidadãos comuns (cristãos que, apesar de pobres, também adquiriram o direito de estar mais próximos de Deus), os escravos, os indigentes e os doentes.
Como não dispomos de uma amostra óssea confiável para datação, levando em consideração que a Igreja da Misericórdia da Paraíba passou por sucessivas alterações arquitetônicas ao longo da sua existência, não podemos associar se os sepultamentos que estão sendo, arqueologicamente recuperados, estão vinculados ao período da “Capela Primitiva”.
No que concerne às informações referentes ainda aos artefatos ósseos, algumas informações precisam ser, detalhadamente, discutidas. As reformas sofridas, sem critério, na Igreja da Misericórdia nos dois últimos séculos dificultam não apenas o reconhecimento do que foi a Capela Primitiva proposta por Duarte Gomes da Silveira, como também escondem muitas das informações referentes aos seus restos mortais.
Os registros históricos e os sites de turismo que divulgam o Estado da Paraíba na internet atestam que, na Capela Salvador do Mundo (erguida na primeira metade do século XVII, também por Duarte Gomes da Silveira) encontram-se, em sua arcada subterrânea, os restos mortais e alguns pertences do referido Senhor de Engenho e da sua esposa Sra. Fulgência Tavares.
As prospecções arqueológicas no referido local refutam essa informação. Na mencionada arcada subterrânea foram realizadas escavações que atingiram mais de 2m de profundidade. A perícia arqueológica resultou numa estratigrafia totalmente estéril, ou seja, sem nenhuma informação material que pudesse atestar as informações difundidas à população pessoense através dos livros de história e outros veículos de comunicação.
Diante deste impasse, será necessário rever algumas informações disponíveis na história da Paraíba para que os dados desta natureza não sejam divulgados de maneira equivocada.
A nossa pesquisa tem por objetivo analisar as informações arqueológicas recuperadas da Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba. Neste sentido o cruzamento dos dados históricos, arqueológicos e cartográficos pode funcionar como elementos-chave de um quebra cabeça interpretativo.
Em 1635, a Paraíba já contava com seis templos, ainda que alguns tivessem sido contabilizados sem estar concluído. Para a nossa surpresa descobrimos que a Igreja da Misericórdia, passados mais de 50 anos da sua fundação ainda se encontrava em processo construtivo.
Os dados contidos nos relatos do holandês Elias Herckmans, governador da capitania ocupada, fazem um balanço sobre as edificações religiosas da chamada Friederikstadt, referindo-se inclusive, a Igreja da Misericórdia:
”Além desses três conventos, há nesta cidade três igrejas, a principal das quais é a matriz. É uma obra que promete ser grandiosa, mas até o presente não foi acabada, e assim continua, arruinando cada vez mais de dia em dia. (...)”.
"SEGUE-SE A IGREJA DA MISERICÓRDIA. ESTÁ QUASE ACABADA:
OS PORTUGUESES SERVEM-SE DELA EM LUGAR DA MATRIZ. (...)".
Herckmans, 1639: 65-67, in: ALCANTARA, 1983
Em nossa pesquisa na Igreja da Misericórdia esta constatação do século XVII pode ser um atestado de que a Capela Primitiva ou um Templo de menor proporção, descoberto durante as prospecções arqueológicas, tenha funcionado por um período considerável. Nesse caso estamos trabalhando com a seguinte hipótese: após a sua demolição, já no século XVII, passa a ser construído e/ou ampliada uma nova edificação em escala superior e mais vultuosa, com alguns poucos traços e linhas arquitetônicas remanescentes, já que a referida Igreja encontra-se totalmente descaracterizada em função das suas inúmeras reformas.
Esta seria a teoria mais plausível para explicar a referência do holandês Elias Herckmans sobre a Igreja da Misericórdia, no início do século XVII, já que acreditamos que a sua construção não levaria aproximadamente 50 anos. Ainda que se considere a informação de que em 1595 a Santa Casa de Misericórdia da Paraíba já existia, o tempo referido seria de 40 anos.
Trabalhamos com a hipótese de que a configuração ampliada da Igreja tenha ocorrido em concomitância com a construção da Capela Salvador do Mundo, construída em 1639. Assim o limite temporal torna-se coerente e explicável, já que não chegamos ao consenso de que a referida capela pudesse ser parte integrante de uma edificação de pequeno porte.
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 G - Igreja e Convento de São Bento; L - Igreja de São Francisco/Convento de Sto Antônio; M - Igreja Matriz; N - Igreja da Misericórdia; O - Igreja de São Gonçalo. Detalhe de “Carta da Barra do Rio Paraíba ou Rio de São Domingos”, do Livro que Dá Razão do Estado do Brasil (Moreno, 1612).
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 1) Igreja e Convento de São Francisco; 2) Igreja e Mosteiro de São Bento; 3) Igreja e Convento de N. Sra. do Carmo; 4) Igreja da Misericórdia; 5) Porto, Casa da Companhia e Alfândega; 6) Igreja de São Gonçalo. Detalhe do Prospetto della Cittá di Paraiba (1698). (in: ALCANTARA, 1983)
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Datações
Constatou-se nesta pesquisa alguns registros de fundações que não pertencem à configuração atual da referida Igreja. Informações como tijoleiras, fragmentos de madeira, vidros, faianças e cerâmicas também puderam ser coletados. Em algumas partes da pedra calcária que completa todo o subsolo da nave da Igreja (a que estamos atribuindo como parte de uma edificação anterior), puderam ser encontradas, em superfícies polidas, algumas inscrições em caracteres latinos.
Amostras de tijolos vinculados a esta construção anterior foram coletadas e encaminhadas à FATEC/SP para datação por termoluminescência, a fim de uma melhor caracterização temporal do monumento em estudo.
A idade revelada foi 490+-50 anos BP (LVD 1252). Com este dado fica evidente que a Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba foi edificada com material importado que certamente chegavam ao Brasil como lastro dos navios mercantes europeus durante o século XVI.
Inscrições Latinas
Durante as etapas de trabalho na Igreja da Misericórdia, encontramos em algumas partes das estruturas em pedra calcária que estavam soterradas (associadas ao templo anterior), uma seqüência de letras gravadas numa área polida das referidas estruturas.
Em um primeiro momento trabalhamos com a hipótese da ocorrência de lápides, fator recorrente em templos religiosos. Entretanto, realizamos algumas sondagens e constatamos que não havia sepultamentos relacionados a estas inscrições.
Estamos analisando as letras e os caracteres gravados na pedra, procurando associar a estes algum valor religioso ou simbólico, pois sabemos que muitas ordens religiosas se utilizavam de códigos (criptografia) para registrar algumas informações secretas.
Muitos desses códigos, por sua vez, encontram-se embaralhados como forma de confundir a sua interpretação por pessoas que não pertencessem à ordem a que correspondessem os criptogramas. E, em sua grande maioria, eram escritos em lugares pequenos aproveitando-se, ao máximo, os espaços disponíveis.
As letras foram fotografadas e copiadas em papel vegetal. A partir da técnica do decalque conseguimos ter uma maior aproximação do tamanho e detalhes da fonte que, em análise preliminar, parece corresponder ao latim gótico.
A seqüência de letras (simetria das inscrições) e símbolos identificados na pedra calcária polida é a seguinte:
Seqüência 1: Đ H A I A
R A R Đ
AS ζ E
Ε R Đ I R
I
Seqüência 2: A R
V S
Lápide do Século XIX (Capitão-Mor João Coelho Vianna)
No processo final dos trabalhos de arqueologia e de restauração da Igreja da Santa Casa de Misericórdia, foi descoberta uma lápide pertencente ao Capitão-Mor João Coelho Vianna, falecido no início do século XIX. O sepultamento está situado em frente ao Altar Colateral direito da Igreja, numa profundidade de 0,15m do piso atual e apresenta as seguintes dimensões: 1,80m de comprimento e 0,70m de largura.
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Em levantamento histórico que realizamos sobre o Capitão-Mor João Coelho Vianna, pudemos constatar que além dos seus poderes políticos na Capitania, ou seja, de governança, também foi eleito irmão da Santa Casa no dia 19 de fevereiro de 1769. No período de 1769 à 1770 foi Conselheiro da Santa Casa, passando a Escrivão entre 1772 e 1773. Ainda em 1773 foi eleito irmão da Bolsa em 02 gestões, sendo a primeira entre 1773-1774 e a segunda entre 1774-1775. Foi novamente eleito Conselheiro entre 1776-1777, voltando a ocupar a função de irmão da Bolsa entre 1777 e 1778.
Consta na área polida da pedra calcária a seguinte inscrição: “Aqui esta sepultado o Cap (am) Mor João Coelho Vianna faleceo em 26 de Abril de 1808”. |
 Lápide do Capitão-Mor João Coelho Vianna | |
Tentando relacionar esta importante descoberta, escondida no interior da Igreja por quase 200 anos, aos demais sepultamentos secundários recuperados no decorrer da pesquisa arqueológica, retomamos a discussão inicial deste artigo (hierarquia social) e constatamos que no espaço interno das igrejas ficavam as figuras ilustres, como os governantes, os membros da própria Igreja e as pessoas de posse, enquanto no espaço periférico e/ou externo da instituição religiosa estariam as pessoas de menor projeção social (sepultadas diretamente no chão) - os escravos, os indigentes e os doentes.
Ressaltamos que os 10 sepultamentos secundários, recuperados arqueologicamente na parte externa da Igreja, estavam associados a frascos de remédios que certamente pertenceram ao ambulatório que funcionou, durante o século XIX e início do século XX, na Antiga Sacristia da Igreja da Misericórdia.
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Bibliografia Consultada:
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ALCÂNTARA, Marco Aurélio (ed.). 1983. Iconografia da Paraíba: cartas, fortificações, aspectos urbanos. Recife: Pool Editorial.
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CANTO, A. C. L. 2005. A contribuição da Arqueologia nas Obras de Restauração dos Monumentos do Centro Histórico de João Pessoa / PB. In: XIII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira, 2005, Campo Grande – MS. Anais do XIII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Campo Grande - MS.
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CANTO, A.C.L. 2005. Igreja da Santa Casa de Misericórdia da Paraíba: Pesquisas Arqueológicas. Relatório de Atividades / IPHAN/DF. 37p.
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MELLO, J. O. A. 1994. História da Paraíba: lutas e resistência. João Pessoa: Conselho Estadual de Cultura/ SEC. A União.
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MORENO, D. C. 1612. Livro que dá razão do Estado do Brasil - 1612. Edição crítica, com introdução e notas de Hélio Vianna. Recife: Arquivo Público
Estadual, 1955.
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OLIVEIRA. C.M.S. 2000. Imagens e traçados: a Parahyba dos primeiros séculos. Caos - Revista Eletrônica de Ciências Sociais, João Pessoa, DCS-UFPB, n. 1.
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(*) O autor do artigo é Arqueólogo, Mestre em Geociências (UFPE), Doutorado em Arqueologia (Universidade de Coimbra). Professor Universitário; Arqueólogo da Oficina-Escola de Revitalização do Patrimônio Cultural de João Pessoa; Presidente do Núcleo de Pesquisas Arqueológicas e Sociais (NUPAS).
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