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Cíntia Gomide, Pedagoga e Pesquisadora . . . < A r t i g o s > .
. <
Cíntia Gomide Tosta > .
Pedagoga e Pesquisadora

- Breve ensaio sobre Civilização e Cultura -


Cíntia Gomide Tosta


O Phartenon na Acrópole de Atenas.
Um dos símbolos da civilização grega antiga

          Os termos civilização e cultura referência constante, direta ou indireta, em textos, estudos e artigos relacionados ao campo das ciências sociais, frequentemente encontram-se envolvidos em tal emaranhado de significações, que a sua compreensão, não raro, torna-se ambígua a diversos leitores. Isto se dá até mesmo porque em vários momentos históricos, civilização e cultura encontravam – se tão indissociados que facilmente poderiam passar por sinônimos. Neste sentido, sem a pretensão de esgotá-los, visto a complexidade e a diversidade de análises e interpretações a respeito desses conteúdos, este ensaio, em uma perspectiva histórica, se propõe a apresentar algumas reflexões, sobre esses conceitos, quem sabe suscitando outros estudos e pesquisas.

          O termo civilização etimologicamente originário do latim civis, significando cidade, em sua origem está intrinsecamente associado às noções de habitante da cidade; supremacia da sociedade civil em detrimento da soberania real; e a noção de preservação e segurança dos direitos civis, especificamente os privados. Segundo Roger Ellman (2007) civilização é o modo de vida nas cidades e sua característica principal é a cooperação em oposição ao individualismo e a competição, estados primitivos em que vive o homem regido por regras estritamente biológicas, representadas pela sobrevivência dos mais aptos, ou mais fortes sobre os mais frágeis. Na concepção de Ellman o objetivo da civilização é a plenitude, a segurança e o bem estar social. Nesse sentido a civilização seria um avanço na qualidade das relações interpessoais e no desenvolvimento dos indivíduos e das comunidades humanas.

          Já Sigmund Freud, conhecido como: “pai da psicanálise” em seu livro “O mal Estar da Civilização”, escrito em 1930, discute o papel repressivo da sociedade civilizada que coloca os indivíduos em um eterno conflito entre a satisfação de seus desejos e o cumprimento das normas e regras sociais. Para Freud um convívio construtivo e criativo entre o homem e a sociedade está vinculado à diminuição das pressões e imposições sociais impostas a este homem.

          Historicamente o início da civilização ocidental remonta a fins do século XVII com a Revolução Gloriosa na Inglaterra e o juramento da Bill of Rights - Declaração de Direitos - por Guilherme III. No oriente por volta do século V a C. Confúcio já propunha na China, vários preceitos civilizatórios como a ética e a justiça social.
O significado da palavra civilização no ocidente tem origem no século XIX muitas vezes indissociado do termo cultura e em uma perspectiva eurocêntrica, ou seja, as sociedades européias, principalmente a francesa e a inglesa eram modelos de civilização, refinamento e cultura a ser seguido pelas demais, conceito que ainda vigora em muitas sociedades da contemporaneidade.

          Para o sociólogo Elias Norbert não há um único modelo de civilização, e o seu significado, muda de acordo com a cultura e a história social. Nesse sentido, para esse estudioso há uma diversidade de referências como registra a própria história: civilização grega, egípcia, romana, mesopotâmia, ameríndia, européia. Cada qual com sua identidade e legado social. Segundo Franz Boas, antropólogo, opositor do determinismo biológico e geográfico e, precursor das idéias a respeito do relativismo cultural “... civilização não é algo absoluto, mas (...) é relativa, e, nossas idéias e concepções são verdadeiras apenas na medida de nossa civilização”.

          O conceito de cultura é complexo e polissêmico. Em uma perspectiva antropológica, cultura pode ser definida como a rede de significados que dá sentido ao contexto que envolve os sujeitos como membros de uma sociedade. Essa rede é composta de diversos conteúdos sociais simbólicos, como os costumes, as crenças, os valores, os mitos e os ritos sociais. Em uma vertente psicanalítica podemos pensar a cultura sinteticamente como “o conjunto de formas simbólicas e representações por meio do qual o sujeito apreende o mundo” (MINERBO, 2009, p. 30).

          No Dicionário Eletrônico HOUAISS de Língua Portuguesa cultura é definida como o conjunto de crenças, costumes, atividades de um grupo social, no AURÉLIO é o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade, e também: “1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2. Cultivo.3. O desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores; civilização, progresso.4. Apuro, esmero, elegância.5. Criação de certos animais, em particular os microscópicos”. Para a filósofa Marilena Chauí

"Em sentido amplo, cultura é o campo simbólico e material das atividades humanas, estudadas pela etnografia, etnologia e antropologia, além da filosofia. Em sentido restrito, isto é, articulado à divisão social do trabalho, tende a identificar-se com a posse de conhecimentos, habilidades e gestos específicos, com privilégios de classe, e leva à distinção entre cultos e incultos de onde partirá a diferença entre cultura letrada-erudita e cultura popular." (Chauí, 1986)

          Essa polifonia de significados para ser compreendida necessita estar inserida em um contexto de significações sócio históricas. Segundo CANEDO (2008) até proximidades do século XVI, a expressão cultura era utilizada para se referir a uma ação e a processos de “cuidado”, da colheita aos animais domésticos. No século XVIII, nos ambientes artísticos e intelectuais europeus o termo cultura em seu sentido simbólico começou a ser empregado e expressões como: “cultura das ciências, das artes, das letras” passaram a ser veiculadas nesses círculos sociais, com um forte caráter etnocêntrico. Para o Iluminismo francês cultura é “a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela humanidade, considerada como totalidade, ao longo de sua história” (CUCHE apud CANEDO, 2008). Nesse sentido o conceito de cultura encontrava-se articulado as concepções de progresso, educação, razão e eurocentrismo.

          No final do século XIX o antropólogo inglês Edward Burnett Tylor representante do evolucionismo cultural, sintetizando o termo alemão kultur “...utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade”( LARAIA, 2006, p. 25) e o termo zivilization representativo das realizações materiais de uma nação, definiu o conceito de cultura mais difundido atualmente. Segundo ele cultura “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” (TYLOR, 1958). A definição de Tylor além de apresentar um conceito hoje conhecido como endoculturação, enfatiza o caráter social da cultura por meio da ênfase aos processos de aprendizagem, ou seja, para ele cultura é todo comportamento aprendido.

          Anterior a Tylor, ainda no século XVII, em 1690, John Locke ao escrever: “Ensaio acerca do entendimento humano” (1978), refutando ideias inatistas a respeito da mente e defendendo que os seres humanos nascem sem saber nada, sendo a experiência a fonte do conhecimento, abre caminho para que a cultura possa ser pensada como um comportamento social aprendido.

          Nas primeiras décadas do século XX o antropólogo alemão nascido em Mindem, Prússia, e radicado nos Estados Unidos, Franz Boas crítico do evolucionismo social, teoria de caráter predominantemente eurocêntrico, defensora de que as sociedades inicialmente encontram-se em um estado primitivo, ou inferior e processualmente tornam – se civilizadas, nos padrões da cultura européia,  apresenta os princípios do relativismo cultural defendendo que cada cultura é um sistema articulado e integrado, produto de um desenvolvimento histórico único, dinamizado pelas constantes interações.entre os indivíduos e a sociedade.

          Para Boas não há culturas superiores ou inferiores, todas as culturas, independente do local geográfico em que se localizam, das técnicas e dos valores que as regem, constituem fenômenos distintos e originais. Esta formulação traz luz a discussão histórica a respeito da diversidade de modos de comportamento dos diferentes povos, bem como sobre os determinismos biológico e geográfico, ressignificando o olhar sobre as diferentes comunidades humanas que povoam o planeta, em uma perspectiva de reconhecimento de suas singularidades.

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Referências Bibliográficas

  • AURÈLIO, B. H. Novo Dicionário da Língua Portuquesa, 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
  • BIRO, J. O que é civilização? Disponível em:
    http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1791722
  • BOAS, F. The Limitation of Comparative Method of Anthropology. Sience, N. S. , v. 4, 1896.
  • BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  • BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
  • CANEDO, Daniele Pereira. Cultura, democracia e participação social: um estudo da II conferência estadual de cultura da bahia. Dissertação de Mestrado Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, 1988. Disponível em http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2286
  • CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência, aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
  • ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
  • ELLMAN. Roger. The Philosophic Principles of Rational Being. The - Origen Foundacion, 2007
  • FREUD, S. Obras psicológicas completas da ed. Standard Brasileira. O Mal - Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1930.
  • HOUAISS, Diccionario eletrônico da Lingua Portuguesa Disponível em:  http://www.downloadsmais.com/dicionario-eletronico-houaiss-da-lingua-portuguesa-v20a
  • LARAIA, R. B. Cultura um conceito antropológico 20ª ed.. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006.
  • LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. Coleção “Os Pensadores”, São Paulo, Abril Cultural, 1978.
  • MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2003
  • MINERBO, Marion. Neurose e Não –Neurose. Coleção Clínica Psicanalítica. Casa do Psicólogo, 2009.
  • TYLOR, E. Primitive Culture. Londres, John Mursay & Co.1958.

Crédito da imagem:

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- Postado em 30 de março de 2011 \  11:3 por Editoria RM

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