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Artigos de 2013

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Marília Xavier Cury
• Museóloga, mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP.
• Professora e Chefe da Divisão de Difusão Cultural do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
(atualização em 05/2009)



A Intangibilidade dos Museus


O tema das comemorações do dia internacional dos museus e da assembléia geral do ICOM de 2004 é Museus e Patrimônio Intangível. O tema não é exatamente inédito ou provocador de inovação para nós profissionais de museus brasileiros, pois já estamos discutindo-o e mesmo aplicando-o há algum tempo. De qualquer maneira, sempre é possível buscar novas formas de abordar e/ou aprofundar a questão.

          Eu trabalho, desde 1992, em um museu antropológico e posso dizer que nesse contexto é quase impossível não refletir sobre a intangibilidade, pois nos confrontamos com ela em todos os momentos do processo curatorial: aquisição, pesquisa, conservação, documentação e comunicação (exposição e educação). Isso é fácil de entender, pois as nossas coleções possuem um grande apelo intangível: cada artefato relaciona-se com outros e todos se relacionam com um modo de viver, sentir e pensar e tudo isso faz parte de um sistema cultural.

          Hoje, para mim, a problemática do intangível e/ou da intangibilidade das coleções é provocadora porque elucida uma outra problemática da ordem da comunicação, expografia e educação. O intangível, em museus, deve ser transposto para os discursos expositivo e educacional. Assim sendo, a construção desses discursos deve ser enfrentada como tal, ou seja, novos modelos expositivos e educacionais devem ser propostos, isto porque a comunicação museológica do intangível exige uma outra atitude museológica distinta das já conhecidas e enfadonhas formas transmissivas de informação. Pensando simplificadamente em modelos expositivos, podemos discriminá-los em dois. O primeiro consiste em exposição de objetos em vitrinas, selecionados a partir de critérios do curador. No geral esse tipo de exposição envolve coleções prestigiadas, curadores credenciados, (às vezes) conceitos científicos sofisticados, profissionais de conservação competentes e designers de vitrinas. Por outro lado, envolvem um grande orçamento e um forte trabalho de marketing. Assim, esse evento alcança um grande êxito(?). Mas, por outro lado, a participação do público é restrita, apesar das estatísticas, porque a exposição não é inteligível e, pior, não respeita o gosto e os valores do público. Há casos extremos, quando o público é sujeitado a ambientes escuros com luzes nos seus olhos, espaços mal idealizados, textos longos e falta de elementos contextualizadores, etc. A ação educativa consiste em monitores tentando bravamente fazer aquilo que a exposição não consegue: comunicar. Ao contrário do que se possa imaginar isso acontece (e muito) ainda hoje. Meus caros colegas, nós profissionais de museus temos que ter senso crítico e, no mínimo, não achar que isso é bom considerando as funções social e educacional dos museus e tudo aquilo que nós, e outros no passado, já construímos em termos de conhecimento museológico. Aliás, vamos aproveitar a oportunidade e dizer que o que se faz em exposições dessa natureza é tudo menos educação.

          O segundo modelo expositivo é aquele que o público participa porque compreende as idéias expostas. Esse é o objetivo básico da equipe que atua interdisciplinarmente. O processo é pensado para que o público tenha uma participação. No entanto, esse modelo pode ser ampliado de maneira a oferecer ao visitante uma experiência participativa e criativa. Para tanto, forma-se uma equipe composta por pesquisadores, museólogos, educadores, conservadores, designers de exposição (que é muito mais que um desenhador de vitrinas em ambientes escuros) e, pasmem, curadores são todos aqueles que participam da concepção dos discursos expositivo e educativo. Pasmem porque alguns ainda têm a convicção que a curadoria de uma exposição é o ato de apenas um (ou dois, ou três) pesquisador(es): o pesquisador elege o tema, o enfoque, seleciona as peças, define os objetivos... Ao contrário, o tema, seu enfoque, os objetivos são decisões coletivas, isto porque deve prevalecer uma atitude cooperativa - e não autocrática - em busca de um objetivo de natureza comunicacional. Os objetivos, e consequentemente os discursos expositivo e educativo, são definidos a partir do debate sobre "o quê" e "por quê" para o público. Cabe ao coletivo definir "o quê" dentre o conhecimento sobre as coleções será comunicado e essa decisão envolve um "porquê" de natureza comunicacional. Nessa perspectiva a educação está plenamente presente tanto na exposição quanto nas ações elaboradas para o público, isto porque entende-se que educação é muito mais do que aquele conjunto de atividades oferecidas ao público após a inauguração da exposição. O modelo que defendo integra pesquisa de base e comunicação (exposição e educação).

          A minha experiência profissional é no campo da comunicação museológica. Primeiramente, refleti sobre como comunicar em museus o "momento de beleza" de um outro grupo social e sugeri a eficácia simbólica como caminho experimental de representação expográfica [1], ou seja, o conceito de beleza não é universal, cada cultura tem a sua concepção do que seja belo. Um ritual é cuidadosamente preparado, acontece em determinado dia e horário e tem o seu clímax. O clímax é o "momento de beleza" [2]. É processo que possui um meio e que culmina em um fim, sendo um evento performativo. Apresentar o processo e a "festa" em museus não é difícil. Discutir a concepção de beleza desse evento é muito difícil, pois vai além da materialidade dos artefatos envolvidos pois o caráter performativo vai muito além da materialidade. A eficácia simbólica é a proposta expográfica para lidar com as barreiras culturais. Trata-se de um caminho para elaborar o discursos expositivo e educativo que consiste em elaborar uma experiência expográfica performativa – considerando os nossos códigos culturais – qualitativamente equivalente à experiência performática do grupo cultural representado na exposição museológica. Não entendo isso como uma solução e sim uma proposta, que precisa ser testada muitas vezes [3] e adequada, e ponto de partida para outras propostas.

          Atualmente, ampliando conceitualmente a proposta anterior, dedico-me a refletir sobre como comunicar rituais, ou seja, como elaborar discursos expositivos e educativos que façam refletir sobre eventos especiais e não-cotidianos que fazem parte da vida das pessoas, dando razão àqueles (grupos sociais) representados e desenvolvendo um sentido de alteridade: levar em consideração as razões do "outro" cultural representado com relação ao "eu" que representei esse outro e/ou o "eu" que aprecia a exposição. Para tanto, é importante desenvolver os sentidos de tolerância e diversidade cultural. Cabe esclarecer que não há uma hierarquia entre eventos especiais e não-cotidianos, qualitativamente eles são iguais. Há, inclusive, uma relação mútua entre cotidiano e ritual, "[...] partindo do princípio de que uma sociedade possui um repertório relativamente definido (embora flexível), compartilhado e público de categorias, classificações, formas, valores, etc., o que se encontra no ritual está presente no dia-a-dia – e vice-versa. Consideramos o ritual um fenômeno especial da sociedade, que nos aponta e revela representações e valores de uma sociedade, mas o ritual expande, ilumina e ressalta o que já é comum a um determinado grupo." [4]

          Mas, os rituais têm características especiais e, suponho, que a principal seja, do ponto de vista da comunicação museológica, o seu caráter performativo. Aí está a sua grande qualidade a ser explorada pela exposição e pela educação. Como em comunicação museológica as idéias ganham forma (expográfica e educativa), a proposta da eficácia simbólica se mantém. E se a eficácia simbólica for possível, criar uma experiência expográfica-educativa-performativa, o museu não só representarão o intangível como adquirirão uma atitude intangível e, a partir daí, reivindicará sua participação e relevância na dinâmica cultural e na sociedade.

          Voltando ao segundo modelo expositivo, proponho uma participação criativa para o público visitante de exposições. Vivenciar uma experiência expográfica-educativa-performativa é uma participação criativa que, por suas qualidades, não podem ser analisados pela sua racionalidade e sim por critérios de criatividade e eficácia. Quanto à análise da experiência, essa é uma importante discussão que envolvem as posturas hegemônicas de avaliação museológica que ficará para outro momento. A idéia que quero defender é que os modelos expositivo e educativo devem mudar. Com isso devemos renovar e/ou amadurecer as nossas concepções e metodologias de trabalho. Necessitamos assumir uma atitude participativa e também criativa e, o que para mim parece fundamental, derrubar os limites artificiais entre expografia e educação em museu que (tentam) fragmentar a experiência do público e equipes. Não quero com isso destruir as conquistas desses dois campos – expografia e educação – e sim promover a comunicação museológica face a qualidade de experiência do público que todos nós almejamos. São duas faces de uma mesma moeda.

          Por outro lado, entendo que a abordagem do ritual interessa a várias tipologia de museus, porque os rituais fazem parte de nossas vidas: aniversários, batismo, carnaval, certos movimentos políticos, dia da Pátria, casamento, formatura, assinatura de um documento, um compromisso, um aperto de mão, um discurso, uma descoberta científica, a final da Copa do Mundo, etc. Daí dá para perceber que o ritual é um fenômeno da vida e não de certas áreas de conhecimento e, portanto, não deve estar restrito aos museus antropológicos. Acho mesmo que devemos resgatar os momentos ritualísticos de nossas vidas e representá-los nos museus, independente de tipologia. Se um evento é considerado ritual é porque ele possui determinadas características e por que não discutir essas características? Talvez esse caminho fosse menos autoritário, pois não estaríamos impondo a importância de um fato e sim explicando porque ele é importante.

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[1] - A arte de comunicar. In: DORTA, Sonia Ferraro; CURY, Marília Xavier. A plumária indígena brasileira no acervo do MAE/USP. Tradução de . São Paulo: MAE: EDUSP: IMESP, 1999. 544 p.

[2] - VIDAL, Lux apud DORTA, Sônia Ferraro; CURY, Marília. Ibid.

[3] - Uma experimentação expológica e/ou expográfica deve ser testada até se esgotar, ou seja, chegar a posições construídas após analises empíricas. O processo de construção de conhecimento em museologia exige um protocolo profissional que sustente essa construção.

[4] - PEIRANO, Marisa. Rituais: ontem e hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 10.

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Marília Xavier Cury - Museóloga. Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo

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- Postado em 18 de maio de 2004 \ 0:0 por Editoria RM

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