Profa. Dra. Marília Xavier Cury [1]
Nas artes e na criação, na bibliografia, encontramos um tópico chamado Harmonia. Esse tópico é sempre muito bem ilustrado e argumentado com exemplos da natureza, das artes e da arquitetura. Os exemplos apresentados são fabulosos e admiráveis. Encontramos harmonia na música, no desenho de elementos da natureza e em edificações. Com isso, somos surpreendidos com certas combinações harmoniosas como as musicais básicas no teclado e em cordas em vibração (diatessaron-quarta, diapente, diapason-quinta, corda inteira) ou a aproximação da seção áurea. Nesses casos, a harmonia refere-se a proporções para produção de sons agradáveis. Outros exemplos fabulosos estão na natureza, o que podemos constatar com as proporções harmônicas em folhas de lilás, que permite um paralelo com a harmonia musical, nos aspectos ordem e proporção, série, distâncias, agrupamentos, alinhamentos, relações, razão (áurea novamente). E assim por diante, podemos encontrar a harmonia em outras folhas da natureza – como nas de rododendro, begônia, bordo japonês, uva concórdia –, evidenciada pelo método dinérgico de combinação de linhas radiais e circulares. Assim, podemos perceber claramente como cada folha foi sendo desenhada durante seu crescimento, ou melhor, o seu desenho estrutural e seu contorno, o que pode acontecer, também, com folhas assimétricas.
Por trás dessa concepção de harmonia está o segmento áureo. Por ser um número infinito, une os diferentes sem perdas de identidades, integrando-os em um todo. Por isso, os pitagóricos (uns “malucos-beleza” da matemática, seguidores de um guru, o grande matemático Pitágoras) buscavam uma Ordem Cósmica por meio do poder místico dos números. A busca pela harmonia das proporções tinha como objetivo, também, chegar à sua aplicação no cotidiano, tornando-o harmônico também.
No contexto das artes,
Por Harmonia geralmente entende-se um ajuste, uma junção ordenada e agradável dos diferentes que em si já carregam muitos contrastes. Neste sentido, Harmonia é uma relação dinérgica na qual elementos diferentes e muitas vezes contrastantes complementam-se ao juntar-se. Que tal junção dinérgica está no núcleo de todas as harmonias é sugerido pela palavra harmonia, do grego harmos, juntar. (DOCZI, 1990, p. 8)
Se refletirmos sobre a questão a partir do contexto da organização social e da cultura, harmonia nos provoca estranhamento, pois nos remete a padrões e semelhanças, transformação da discordância em harmonia, complementaridade entre diferentes e diferenças. Ora, nem em contos de fadas encontramos tais ideais. Ao contrário, a permanência no tempo desses contos está na capacidade de por à vista e em discussão os opostos e contrários, conflitos, dilemas, contradições, disputas, negociações etc., aspectos inerentes à vida em sociedade.
Então, não há uma seção áurea social? Como fato não, nem em sociedades ou grupos igualitários, quando o equilíbrio é construído nas relações sociais e na dinâmica cultural, mas não a harmonia. Como ideal, a harmonia talvez exista para alguns.
Se fosse possível a construção de uma razão áurea social, isto não seria bom, porque o poder da seção áurea “... de criar harmonia advém de sua capacidade única de unir as diferentes partes de um todo, de tal forma que cada uma continua mantendo a sua identidade, ao mesmo tempo em que se integra ao padrão maior de um só todo.” (DOCZI, 1990. p. 13). Fora o contexto artístico, isto seria ideologia unificadora e controladora, ou algo assim.
Não há nada mais desarmônico do que pensar a sociedade como algo harmonioso, porque as diversidades, as diferenças e as divergências existem – e não são necessariamente negativas – e devem ser enfrentadas e não escamoteadas ou negligenciadas. A diversidade e a diferença estão em todas as partes. Não há duas pessoas iguais e a interpretação é individual, embora os indivíduos sujeitos optem por compartilhar ideias e ideais, sem, contudo, equalizá-los. A globalização investe na (suposta) apreensão do diferente, tornando-o apaziguado e integrado a um lugar comum, e na transnacionalização cultural, como se houvesse uma linha invisível que une todas as culturas por meio dos intercâmbios, sempre nutridos pela sedução ou pelo atraente. A harmonia seria – considerando a circulação de ideias e pessoas – um acesso fácil a versões simples do diverso e do múltiplo. Segundo Nestor García Canclini (1999), a equalização elimina o discordante ao simular uma homogeneidade ou ao impor uma subordinação mascarada, como aquela entre países “centrais” e “periféricos”, relação artificial, hierárquica, autoritária. A equalização e a harmonia, ainda, eliminam as sutilezas e cria uma “atmosfera” tranqüilizadora, minimizando pontos de resistências e o compromisso com o(s) outro(s) diferente(s) – e ele(s) existe(m). A equalização e a harmonia são simulações de estar com o(s) outro(s) construindo uma reconciliação. E quem quer isto? As hegemonias dominantes.
A comunicação (a museológica, inclusive) já nos convenceu de duas coisas: (1) que há a pluralidade e a fragmentação e que a polissemia é inerente ao processo de recepção e (2) que a diferença é um valor, pois é uma possibilidade de aprendizagem cidadã no exercício democrático.
Como disse um colega da área patrimonial, essa proposição de harmonia social (seja lá o que for isto) é “... pré-... sei lá o quê!”, no sentido de qualquer coisa que ficou no passado e que não se sustenta política e epistemologicamente.
Para 2010, o ICOM definiu a Harmonia Social como tema do ano. Anualmente temos um tema para debater e nem sempre esse tema é relevante, mas o assumimos. Este ano assumir esse tema só é possível na perspectiva da crítica, isto é, desconstruindo aquilo que ele denota em termos de ideologia – centralizada – e hegemonia dominante, revelando possíveis mecanismos políticos que representa.
Como pensar os museus na perspectiva da harmonia social? Acho muito difícil levar a diante uma discussão nessa perspectiva, sobretudo procurando um lugar de participação para o museu. O museu está na contramão dessa proposição. Não há harmonia social e o debate não encontra base de sustentação epistemológica. Há justiça social e a participação dos museus para alcançá-la é pertinente, sem demagogias ou usos ideológicos que encubram as relações sociais em sua complexidade e dinâmica. Devemos investir na diversidade e na diferença, porque promovem a criatividade, a inovação, a audácia, o diálogo, a negociação. Ainda, fazem aflorar as contradições, os conflitos e jogos de interesse e poder presentes na nossa sociedade e que estão incorporados no patrimônio cultural musealizado e naquele musealizável. Há uma globalização, não podemos negar, mas há um lugar vago, um lugar em processo de construção no qual o museu deve se inserir, ocupando o seu espaço no processo democrático.
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Referências
- DOCZI, György. O poder dos limites. Harmonias e proporções na Natureza, Arte e Arquitetura. São Paulo: Mercuryo, 1990.
- GARCÍA CANCLINI, Nestor. Gourmets multiculturais. La Jornada Semanal, 5 dic. 1999. Disponível em: www. Jornada.unam.mx/1999/12/05/sem-nestor.
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[1]
Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
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