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Pedro Paulo Funari
• Professor Titular, Departamento de História (IFCH/Unicamp).
• Coordenador-Associado do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/Unicamp).
(atualização em 05/2009)



Harmonia e museus - algumas considerações


Pedro Paulo A. Funari [1]
José Geraldo Costa Grillo [2]

          A harmonia é uma invenção grega, assim como os museus e ambos os conceitos remetem a questões profundas e pertinentes, em pleno século XXI. As musas eram aquelas personagens da mitologia grega, filhas de Zeus e Mnemosyne, a Memória. Esta tinha em seu nome tanto o princípio da lembrança (mneme) como do memorial (mnema), a materialidade que nos faz lembrar. A Memória, com m maiúsculo, mostra que se tratava de uma divindade e tudo que dizia respeito a ela e às musas envolvia, portanto, emoções e sentimentos, aquilo que alguns chamariam de religiosidade.

          Também a Harmonia era uma deusa grega, a luz do mundo, segundo um verso órfico (harmonie, kosmoio phaesphore), da qual derivava toda a sabedoria. Representava a ordem, tendo adquirido com os filósofos pitagóricos o sentido de algo geral, a harmonia universal. Modernamente, a harmonia foi utilizada para descrever uma junção ordenada de sons diferentes, de modo a produzir um resultado agradável e memorável, algo que se possa fruir e reproduzir na memória. É o que nos faz cantarolar uma música, com tanta facilidade e prazer.

          Se o museu, em suas origens, estava associado à “morada das Musas” (mouseion) e concebido com um estabelecimento no qual são conservadas, estudadas e expostas coisas naturais e humanas, em época recente, ele passou a ser entendido como uma instituição de caráter social. Foi percebida uma relação indissociável entre os objetos de museu e os seres humanos, suas sociedades e suas culturas, dando ao museu um papel relevante nos debates contemporâneos acerca dos valores, consensos e conflitos sociais. O reconhecimento dessa dimensão social nos tem levado a estudos sobre a relação dos museus com temas como educação, conhecimentos, poderes, nações, classes, etnias, religiões, entre outros.

          Os museus modernos servem, portanto, para lembrar-nos de aspectos importantes do mundo natural e da vida humana. A diversidade natural e cultural tem sido valorizada, nas últimas décadas e por diversos motivos. No campo ambiental, a diversidade representa uma riqueza natural que garante o equilíbrio entre as espécies e dessas com seu meio. No âmbito cultural, a diversidade representa o reconhecimento da variedade humana como um patrimônio da humanidade, como atesta a declaração da Unesco, de 2005, a esse respeito. Quando falamos em diversidade, nem sempre a associamos à harmonia, pois as diferenças podem lembrar conflitos e contradições e, de fato, ambos são manifestações comuns e mesmo inevitáveis. Contudo, na origem, o próprio conceito de harmonia, tanto entre os gregos, como na música ocidental, pressupõe a convivência dos diferentes, a junção, de alguma maneira ordenada, do diverso.

          O museu, nesta perspectiva, pode atuar para que, pela participação dos diferentes, e por meio de um plano estratégico, ele possa servir à sabedoria de uma convivência harmônica. Para isso, as particularidades não são apagadas, mas ressaltadas. O próprio plano de ação deve resultar da consulta e inclusão de diversos atores sociais, de cientistas à população, dos freqüentadores ao corpo funcional. A regência dessa orquestra, para ficarmos na analogia musical, dará a direção, mas preservará a riqueza e as particularidades de cada componente. Os museus terão muito a ganhar, não apenas na sua gestão, como na sua relevância social se a harmonia e seu potencial forem levados na devida conta.

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[1] Professor Titular do Departamento de História, pesquisador do Nepam, coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp, www.gr.unicamp.br/ceav

[2] Pós-Doutorando com apoio da FAPESP no Nepam/Unicamp.

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