Ana Maria da Costa Leitão Vieira [i]
Aos museus compete colecionar e salvaguardar as informações históricas contidas em seu acervo histórico-cultural. Fazê-las conhecidas pela sociedade é contribuir para a formação de consciências lúcidas e críticas a favor da harmonia entre os povos.
Hoje 220 milhões de pessoas estão fora de seus territórios de origem. São 3% da população mundial, o equivalente a população do Brasil e Argentina juntos. O Fundo Monetário Internacional aponta 815 milhões de emigrantes potenciais e 200 milhões de migrantes internos, aqueles que deixam suas cidades sem deixar o país. A isso devem ser somados 11,5 milhões de refugiados.
Estudos do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, a respeito das remessas financeiras de cidadãos residentes no exterior nos últimos anos, indicam que em 2004, mais de US$ 45 bilhões foram enviados por emigrantes para seus países da América Latina e Caribe. Em 2006 o Brasil recebeu US$ 3,2 bilhões em remessas. É o 15º país no mundo com maior volume de remessas enviadas por seus emigrantes.
Dados divulgados no Seminário “Globalização Internacional e Desenvolvimento”, realizado em 2008 em Santander - Espanha aponta que, um aumento de 3% no número de imigrantes nos países desenvolvidos geraria US$ 300 bilhões adicionais para a economia, mais que os potenciais ganhos com a rodada Doha de liberalização comercial. Na ponta dos países emissores de migrantes há o fato de que 25% da economia de Honduras provêm de remessas de hondurenhos que vivem no exterior. Na ponta dos receptores, “há 12 milhões de irregulares trabalhando nos EUA, o que equivale a 9% da população empregada; se todos fossem expulsos, o PIB despencaria”, calcula Guillermo de La Dehesa (DEHESA, 2008).
O fenômeno das migrações humanas está na ordem do dia. Trata-se de um processo histórico permanente no planeta, impondo-se hoje como uma das principais conseqüências da globalização. Assistimos as contradições de um mundo que caminhou avidamente para a globalização dos negócios, da economia e do capital ao mesmo tempo em que acirrou sentimentos xenófobos, racistas e intolerantes em relação à diversidade cultural e religiosa dos povos.
O Memorial do Imigrante de São Paulo tem um grande papel a desempenhar nesta conjuntura política. Tínhamos e temos grandes desafios.
A atividade museológica é uma atividade política. Os museus atuam na sociedade como espaços de construção e expressão de valores culturais. Esses valores são forjados por uma ética e conseqüentemente por uma ação política. Se os museus de arte se debruçam na estética dos objetos também estes politizarão ações. “Toda estética comporta uma ética e toda ética, uma política.” (ZAMORA, 2008)
Para darmos conta desses desafios é necessário, acima de tudo, colocar em questão o próprio discurso da instituição a respeito do expansionismo colonialista do ocidente europeu.
Os museus de migração pertencem à categoria dos museus de História e de Sociedade. Eles são uma tentativa de reconhecimento do patrimônio das migrações como Patrimônio Nacional.
O fenômeno das migrações humanas deve ser estudado na origem e no destino.
Na Europa, a história das migrações começa a fazer parte integrante das histórias nacionais. Apesar das políticas xenófobas de alguns governos, a sociedade, principalmente da área acadêmica e cultural, trabalha hoje no sentido de mudar o olhar da sociedade sobre os imigrantes.
A França abriu em 2007 a Cité Nationale de l’histoire de l’Immigration. A Itália inaugurou em 23 de outubro de 2009 o Museu Nacional de Emigração da Itália.
Nos países da América, destino de grandes levas de imigrantes, a imigração é reconhecida como fenômeno de desenvolvimento e construção de identidade nacional.
Sinal disso é a criação, há mais de uma década, do Museu de Imigração em Melbourne, Austrália, o Memorial em Ellis Island, New York, o Píer 21 Halifax no Canadá e o Memorial do Imigrante de São Paulo.
Como países receptores de imigração massiva, temos compromisso com a elucidação dos processos históricos que determinaram a ordenação (ou desordenação) do mundo contemporâneo.
Não há neutralidade na atividade museológica. Ações museologicas pressupõem escolhas e neste sentido os museus podem ser instrumentos de conscientização ou de alienação.
As migrações contemporâneas ainda não estão contidas nos museus de migrações. A situação de “ilegalidade” desses indivíduos e a fragmentação das atribuições e controle de imigração em vários órgãos oficiais e não oficiais aumentam esta dificuldade.
Aos museus de migração impõe-se uma revisão dos discursos que historicamente representaram os imigrantes. Há que se confrontar discursos e estudos antropológicos, demográficos, psico-sociais, econômicos e políticos aos dos historiadores. Mais do que isso, neste museu o imigrante terá voz e se sentirá confortável para dar seu testemunho, falar de suas dificuldades, contar suas histórias. Enfim, se fará conhecer pela sociedade que, muitas vezes por desconhecimento, o discrimina.
No estágio atual do capitalismo, a incômoda presença do imigrante para os governos dos países desenvolvidos, conflita com os interesses do poder econômico. Para este, os imigrantes “ilegais” - porque indocumentados - representam mão de obra barata. Para os países periféricos representa a perda de talentos, de profissionais que buscam melhores condições salariais nos países desenvolvidos.
Museus para a Harmonia Social é o tema proposto para a próxima Conferência Geral do ICOM, neste ano de 2010, em Xangai, na China. Esse tema se apóia no Plano de Ação sobre a Diversidade Cultural do ICOM (1998) e sobre a Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural (2001).
São Paulo é um grande laboratório da sociedade urbana globalizada do futuro.
A geografia da imigração está se modificando. O Brasil passa a ser país de destino de imigrantes vindos de países vizinhos.
A crise econômica de 2008 aponta para as grandes transformações no eixo tradicional da geografia política e econômica mundial. O domínio exercido entre dois grandes centros de poder se desloca para uma configuração multipolar.
Nós, trabalhadores de museus, temos que estar atentos as transformações no processo de conhecimento e experiência imposta pela vida moderna. A relação do homem com o tempo, na modernidade, se modificou substancialmente. O tempo do homem moderno é regulado pela máxima “Tempo é dinheiro”. Muito utilizada e repetida, embora, na maioria das vezes incompreendida, essa máxima representa os valores impostos pela sociedade capitalista moderna.
Esses valores imprimem um modo de vida onde o tempo tem que ser preenchido com atividades produtivas e úteis. Não se pode perder tempo com sonhos, devaneios e reflexões até porque isso resultaria em conhecimento crítico e conscientização sobre o vil sentido da vida moderna para a maioria das pessoas – girando a roda da economia - onde poucos vivem e muitos tentam sobreviver.
O tempo é matéria primordial dos museus. A memória, a historicidade e as lembranças são matérias dos museus.
Além de compreendermos que os museus são instituições privilegiadas para o entendimento do presente a partir das experiências vividas, temos que avançar e enfrentar mais um desafio, qual seja, - compreender que a própria natureza da experiência humana hoje, difere daquela do passado. O mundo da máquina e da tecnologia avançada impõe ao tempo natural uma velocidade incompatível com o tempo necessário para a experiência humana.
Penso que devemos reter o tempo do tempo nos museus. Os museus devem certamente se utilizar de tecnologias avançadas e proporcionar interatividade para seu público. A dosagem destes artifícios, no entanto, não deve condená-los à tirania dos valores da sociedade capitalista, voraz em produção de estímulos automatizantes. “A mobilização contínua da atenção consciente chega a impedir outras formas de percepção e fruição da temporalidade entre as quais aquelas que fornecem a matéria da experiência – seja poética, literária ou narrativa, isso é: transmissível” (KEHL, 2009 P 182). O bombardeio das informações com obsolescência programadas não permitem o trabalho psíquico e emocional necessário á experiência.
É comum observarmos visitantes e turistas registrando vorazmente em fotos digitais, monumentos, lugares e objetos de museus. A relação homem/objeto [1] intermediada pelas máquinas fotográficas relega para mais tarde ou para nunca mais, a experiência humana.
Os museus se configuram como uma das últimas trincheiras onde o conhecimento, entendimento e reflexão sobre as transformações por que passam as relações humanas, ainda é possível. Não é a toa que os museus estão na moda. É o que dizem, não? Porque seria, senão pelo fato de que o que restou de humanismo no império da maquinas, das celebridades sem autoridade, da acumulação de riquezas materiais em detrimento das riquezas culturais. No mundo moderno, mais do que nunca, os museus, os templos e a natureza podem conter, como nenhum outro espaço, o tempo da experiência humana.
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[1] Waldisa Russio definia museu como lugar em que se dá a relação profunda entre homem e objeto.
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• Diretora Executiva do Memorial do Imigrante do Governo do Estado de São Paulo, desde junho de 2005.
• Membro do Consejo de Asesoramiento Internacional Museo de la Inmigración da Argentina
• Cavalieri da Ordine Al Mérito della Repubblica Italiana.
• Graduada em Filosofia pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC).
• Pós graduada em museologia pela Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (FESP)
• artigos 2007
- “Memorial do Imigrante” no livro Museo Nazionale delle Migrazioni, L’ Itália nel Mondo. Il Mondo in Itália, pág. 65 publicado pelo Ministero degli Affari Esteri – Itália
- “Memorial do Imigrante, São Paulo, Brasile” revista do Centro Studi Emigrazione-Roma nº 167
- “The São Paulo Immigrants’Memorial: Fields of Research and challenges in the twenty-first century” publicado na Museum Inernational da UNESCO Nº 233/234
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